Vai rolar lá no Sesc Pompeia. E melhor ainda: consegui um ingresso! 🙂
Vai rolar lá no Sesc Pompeia. E melhor ainda: consegui um ingresso! 🙂
Injecta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar…
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei…
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior…
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos… Amo também os bichos –
vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
Toma, querido, sem cerimónia, come!
(tradução de Haroldo de Campos)
– Por que você insiste em ficar ouvindo esse blá blá blá todo no rádio logo de manhã?
– Esses caras aí me fazem companhia. Melhor do que ouvir a barulheira do trânsito. Já já acaba o sinal e a gente põe um som. Trouxe uns CDs legais, suficientes pra viagem toda. E de mais a mais, não é mais ‘de manhã’. Já tá quase na hora do almoço. Comeu alguma coisa?
– Comi nada. Para em uma biboca qualquer pr’eu comprar um salgado e depois almoçamos na estrada. Aliás, prá onde estamos indo mesmo?
– Porra, como assim, cara? Esqueceu? Bebeu pra caralho ontem, hein?
Ainda estou zonzo, sonado. Vontade de fumar um cigarrinho pra rebater o resto de café frio que engoli antes do Valtinho chegar. Não deu pra tirar o gosto de guarda-chuva da boca. É, bebi um bocado ontem. Cerveja, uísque, rolou uma tequila no final, acho. Galera mandou ver na farinha, mas segurei a onda. Tô fora. She don’t lie, bro…
Valtinho dirige como um louco. Muda de pista como quem muda de estação no rádio. Pior que faz tudo dentro do limite de velocidade, mas isso não garante porra nenhuma. Bater a 90 km/h aqui na Marginal dá pra acabar virado dentro do Tietê. Mas não me sinto inseguro. De alguma forma, confio no Valtinho. Ou no carro. Ou na providência. Minha hora não pode ter chegado. Tenho uns assuntos a tratar ainda. Deus é justo. E verdadeiro.
– Pegou aquela mina?
– Que mina?
– A do balcão?
– É filha do Pedrão. Sem chance. Mas rendeu um bom peep-show. Gostosa demais.
– Podicre. Comia fácil. Em Goiânia tem mulher pra caramba, dizem. A gente pode se dar bem lá…
– Todo lugar tem mul… Goiânia?!?
– Ah, vai se fuder. Você tá me zoando. Vou parar no posto pra abastecer e tu come algo. Pá-pum, beleza?
Valtinho é um babaca, mas é camarada. Já me quebrou galhos inacreditáveis, mas também já me colocou em mega-furadas. E agora, qual vai ser? Ele parecia entusiasmado ontem à noite. Sorria como um vencedor, estava exultante. Pagou a birita e ainda deu gorjeta gorda. Nunca vi ele fazendo isso. Ontem convenceria qualquer um a qualquer coisa. Tenho até medo de lembrar o que combinamos…
Eu estava no ritmo de sempre. Fumando sem parar, encostado no balcão. Escutava Valtinho falar sem parar e aproveitada suas idas ao banheiro ou ao balcão pra pegar mais um poderoso uíscão para observar alguma mina interessante. Mas Mila não saía da minha cabeça. Ainda não sai. Me enfeitiçou de tal maneira que olho outras mulheres e e é ela quem acaba aparecendo. No início pensei que fosse apenas uma boa foda, hit and run, mas a filhadaputa me pegou de jeito. É vudu. Ou coisa pior.
– Mila ligou ontem.
– Ah é? E aí?
– Não sei, não falei com ela. Tava dormindo.
– Tu dorme que nem um urso. Precisa se tratar. Qualquer dia não acorda mais. Já pensou? Morrer de tanto dormir?
– Nem tenho dormido tanto. Por que Goiânia?
– Porque a parada vai rolar lá. Cara, relaxa. Aproveita a viagem. Gostou do carro? Peguei ontem.
– Não vou nem perguntar onde pegou…
– Tá de boa, meu bom. É de uma tia minha. Nunca usa. Pedi emprestado por alguns dias. Prometi devolver com tanque cheio e pneus novos.
– Você é um gentleman…
– Sou mesmo. E aí, vambora?
– Preciso comprar cigarro.
– Se não morrer de tanto dormir, do cigarro tu não escapa.
– Tománocu.
Tenho que ligar pra Mila. O que será que ela queria tarde da noite? Vai ficar puta quando souber que vou ficar um tempo fora. Ela desdenha mas gosta do encaixe que temos. Fomos feitos um pro outro. Se não fosse casada, acho até que eu sossegava o facho. Porra nenhuma, sou caso perdido.
Como vou explicar essa ida à Goiânia? Arrumei um trampo temporário? Depois de tanto tempo desempregado, não recusaria nem em Macapá. Não, Macapá acho que não. Mas Goiânia… Já estive lá. Quente pracaralho. E realmente tem mulher bonita. Mas não tava afim de viajar agora. Ok, minha vida em São Paulo não tá nenhuma maravilha, mas pelo menos gosto da cidade. E tenho esperanças de que ela um dia goste de mim também. A cidade, não a Mila. Essa não gosta de ninguém.
– Por que a gente não vai de avião pra Goiânia?
– E perder a oportunidade de dirigir esta belezinha na estrada? Nem fudendo.
– Pelo menos a gente chegaria mais rápido e resolveria a parada o quanto antes.
– A parada só vinga quando a gente chega. Então… curte o som e acende o beise.
(A íntegra, aqui)
(Composição: Lô Borges / Márcio Borges)
Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser
Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo
E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada
Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fez esta pequena lista:
– Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.
– Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.
– Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.
– Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.
– Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.
– Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.
– Viajar, partir…
– Voltar.
– Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio
– Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.
“Beberei
A vida até à última gota.
Em todas as alturas muito
Me alegrei, muito sofri, tanto com aqueles
Que me amavam, e sozinho (…)”
” Sou parte de tudo quanto conheci;
Toda a experiência é todavia um arco por onde
Brilha aquele mundo por viajar, cuja margem se esbate
Para sempre e para sempre quando avanço.
Quão murcho é parar, chegar ao fim,
Enferrujar sem polimento, sem brilhar no uso!
Como se a vida fosse só respirar! Vida amontoada em vida (…)”
” Embora muito esteja tomado, muito resta; e embora
Já não sejamos aquela força que nos velhos tempos
Moveu a terra e os céus, somos aquilo que somos –
Um disposição firme de corações heróicos,
Enfraquecidos pelo tempo e pelo fado, mas com forte vontade
De tentar, perseguir, encontrar e não desistir.”
A memória nem sempre é uma boa conselheira. Bom ter isso em mente sempre que me meto a escarafunchar o passado. Nem tudo que vem é resposta. Confiar nas lembranças geralmente dá merda. Vai por mim.
O celular tá chamando. Toquezinho chato pracaralho. Por que escolhi logo esse? Acho que errei na hora de salvar, tentando por aquele som que ouvi ontem no bar do Pedrão. Roquenrol, cara, nada melhor pr’um toque de celular. E pra agitar um boteco. Aquela mina pirou no balcão. Todo mundo se ligou nela. Era gostosa e gatinha. E filha do dono do bar.
Essa bosta de bip escroto não para. Deve ser o melhor que há no mercado de toques pra acordar um sujeito. Ok, talvez justamente por isso eu tenha escolhido. Tenho perdido a hora mais do que devia. Música como toque nunca é um bom negócio, se mistura fácil no sonho. Vira show, sala de espera, rádio do carro, você pagando de rock star, ouvindo um som em casa, qualquer coisa. E não dá vontade de acordar. Com essa porra de bip dos infernos é diferente.
Não sei há quanto tempo está tocando. Estou tão acostumado a misturar sons nos sonhos que me vi num puta corredor gigante, o alarme contra incêndio disparado… Várias portas de emergência, todas trancadas. E o alarme lá pipipipi pipipipi pipipipi enchendo o saco. Já tava puto com o sonho e numas de acordar mesmo. Mas algo me divertia naquela incessante sequências de portas fechadas, e eu sempre tentava mais uma, só mais uma. E nada.
O bip dos infernos venceu. É realmente o celular.
– Alô…
– Opa, e aí, cara! Dormindo ainda?
– Não mais… qual é a boa?
– A parada rolou. Tá pronto?
– Pronto, pronto não tô… o que tenho que fazer?
– Acordar seria um bom começo. Te ligo em 5.
Ok. A parada rolou. E agora? Levanta, porra! Beleza, pagar 3 de 10, abrir a janela, esticar até o teto e tomar um banho pra despertar de vez. Arrãm… faço isso já já, em 5…
– E aí, cara? Bora?
– Deixa eu tomar um banho…
– Porra, tu ainda nao tá pronto? Caralho. Vou passar em 10.
– Beleza
Uma boa espreguiçada, como os felinos ensinam, coloca tudo no lugar. Ou quase tudo. Mas tá de bom tamanho. Perto do que venho fazendo ultimamente, foi exercício até demais. Tenho que comprar cigarros. Cadê aquele de ontem, não fumei inteiro… Mila ligou. Nem ouvi. Seria bom se tivesse vindo ontem, tava a fim. Mas precisava dormir. Preciso estar inteiro hoje, demonstrar algum interesse, ficar desperto – e esperto. O cara já me pôs em umas furadas foda, mas desta vez sinto que vai rolar.
Esquece o banho. Cadê meu tênis?
(A íntegra, aqui)
“Sabe o que é mais triste?”, disse ela. “O mais triste é que somos vocês.”
Fiquei calado.
“Na sua fantasia”, disse ela, “meu povo é como vocês. Só que melhor. Não morremos ou envelhecemos ou sofremos de dor ou frio ou sede. Nos vestimos mais elegantemente. Temos a sabedoria de longos tempos. E se queremos sangue, bem, não é muito diferente de quando vocês querem comida ou afeto ou luz do dia – e além disso, nos faz sair de casa. Cripta. Caixão. O que for.”
“E a verdade é?”, perguntei a ela.
“Que nós somos vocês,” disse ela. “Somos vocês com todos os problemas e todas as coisas que fazem vocês humanos – seus medos, solidão e confusão… nada disso melhora.”
“Mas somos mais frios que vocês. Mais mortos. Sinto falta da luz do dia e da comida e de saber como é tocar alguém e ter carinho. Eu lembro da vida, e de encontrar as pessoas como pessoas e não apenas como alimento ou coisas a serem controladas, e me lembro de como é sentir alguma coisa, qualquer coisa, alegria ou tristeza ou qualquer coisa…”
E então ela parou.
“Você está chorando?”, perguntei.
“Não choramos”, ela falou.
Como eu disse antes, ela é uma mentirosa.
(Uma das historias da coleção “15 Cartas Pintadas de um Tarô de Vampiro, Neil Gaiman em Coisas Frágeis)
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.