Zen Passado

Parte 1: A Notícia

Tenis

A memória nem sempre é uma boa conselheira. Bom ter isso em mente sempre que me meto a escarafunchar o passado. Nem tudo que vem é resposta. Confiar nas lembranças geralmente dá merda. Vai por mim.

O celular tá chamando. Toquezinho chato pracaralho. Por que escolhi logo esse? Acho que errei na hora de salvar, tentando por aquele som que ouvi ontem no bar do Pedrão. Roquenrol, cara, nada melhor pr’um toque de celular. E pra agitar um boteco. Aquela mina pirou no balcão. Todo mundo se ligou nela. Era gostosa e gatinha. E filha do dono do bar.

Essa bosta de bip escroto não para. Deve ser o melhor que há no mercado de toques pra acordar um sujeito. Ok, talvez justamente por isso eu tenha escolhido. Tenho perdido a hora mais do que devia. Música como toque nunca é um bom negócio, se mistura fácil no sonho. Vira show, sala de espera, rádio do carro, você pagando de rock star, ouvindo um som em casa, qualquer coisa. E não dá vontade de acordar. Com essa porra de bip dos infernos é diferente.

Não sei há quanto tempo está tocando. Estou tão acostumado a misturar sons nos sonhos que me vi num puta corredor gigante, o alarme contra incêndio disparado… Várias portas de emergência, todas trancadas. E o alarme lá pipipipi pipipipi pipipipi enchendo o saco. Já tava puto com o sonho e numas de acordar mesmo. Mas algo me divertia naquela incessante sequências de portas fechadas, e eu sempre tentava mais uma, só mais uma. E nada.

O bip dos infernos venceu. É realmente o celular.

– Alô…

– Opa, e aí, cara! Dormindo ainda?

– Não mais… qual é a boa?

– A parada rolou. Tá pronto?

– Pronto, pronto não tô… o que tenho que fazer?

– Acordar seria um bom começo. Te ligo em 5.

Ok. A parada rolou. E agora? Levanta, porra! Beleza, pagar 3 de 10, abrir a janela, esticar até o teto e tomar um banho pra despertar de vez. Arrãm… faço isso já já, em 5…

pipipipi pipipipi pipipipi

– E aí, cara? Bora?

– Deixa eu tomar um banho…

– Porra, tu ainda nao tá pronto? Caralho. Vou passar em 10.

– Beleza

Uma boa espreguiçada, como os felinos ensinam, coloca tudo no lugar. Ou quase tudo. Mas tá de bom tamanho. Perto do que venho fazendo ultimamente, foi exercício até demais. Tenho que comprar cigarros. Cadê aquele de ontem, não fumei inteiro… Mila ligou. Nem ouvi. Seria bom se tivesse vindo ontem, tava a fim. Mas precisava dormir. Preciso estar inteiro hoje, demonstrar algum interesse, ficar desperto – e esperto. O cara já me pôs em umas furadas foda, mas desta vez sinto que vai rolar.

Esquece o banho. Cadê meu tênis?

Parte 2: A Viagem

O carro do Valtinho parece aqueles baús velhos, que com o tempo vão ficando abarrotados de quinquilharias sem utilidade aparente. Me ajeito como posso no banco do passageiro e tento entender o que Valtinho fala, em meio ao boletim do tempo que o repórter anuncia em alto volume pelo rádio. Chuva forte pelo caminho.

– Por que você insiste em ficar ouvindo esse blá blá blá todo no rádio logo de manhã?

– Esses caras aí me fazem companhia. Melhor do que ouvir a barulheira do trânsito. Já já acaba o sinal e a gente põe um som. Trouxe uns CDs legais, suficientes pra viagem toda. E de mais a mais, não é mais ‘de manhã’. Já tá quase na hora do almoço. Comeu alguma coisa?

– Comi nada. Para em uma biboca qualquer pr’eu comprar um salgado e depois almoçamos na estrada. Aliás, prá onde estamos indo mesmo?

– Porra, como assim, cara? Esqueceu? Bebeu pra caralho ontem, hein?

Ainda estou zonzo, sonado. Vontade de fumar um cigarrinho pra rebater o resto de café frio que engoli antes do Valtinho chegar. Não deu pra tirar o gosto de guarda-chuva da boca. É, bebi um bocado ontem. Cerveja, uísque, rolou uma tequila no final, acho. Galera mandou ver na farinha, mas segurei a onda. Tô fora. She don’t lie, bro…

Valtinho dirige como um louco. Muda de pista como quem muda de estação no rádio. Pior que faz tudo dentro do limite de velocidade, mas isso não garante porra nenhuma. Bater a 90 km/h aqui na Marginal dá pra acabar virado dentro do Tietê. Mas não me sinto inseguro. De alguma forma, confio no Valtinho. Ou no carro. Ou na providência. Minha hora não pode ter chegado. Tenho uns assuntos a tratar ainda. Deus é justo. E verdadeiro.

– Pegou aquela mina?

– Que mina?

– A do balcão?

– É filha do Pedrão. Sem chance. Mas rendeu um bom peep-show. Gostosa demais.

– Podicre. Comia fácil. Em Goiânia tem mulher pra caramba, dizem. A gente pode se dar bem lá…

– Todo lugar tem mul… Goiânia?!?

– Ah, vai se fuder. Você tá me zoando. Vou parar no posto pra abastecer e tu come algo. Pá-pum, beleza?

Valtinho é um babaca, mas é camarada. Já me quebrou galhos inacreditáveis, mas também já me colocou em mega-furadas. E agora, qual vai ser? Ele parecia entusiasmado ontem à noite. Sorria como um vencedor, estava exultante. Pagou a birita e ainda deu gorjeta gorda. Nunca vi ele fazendo isso. Ontem convenceria qualquer um a qualquer coisa. Tenho até medo de lembrar o que combinamos…

Eu estava no ritmo de sempre. Fumando sem parar, encostado no balcão. Escutava Valtinho falar sem parar e aproveitada suas idas ao banheiro ou ao balcão pra pegar mais um poderoso uíscão para observar alguma mina interessante. Mas Mila não saía da minha cabeça. Ainda não sai. Me enfeitiçou de tal maneira que olho outras mulheres e e é ela quem acaba aparecendo. No início pensei que fosse apenas uma boa foda, hit and run, mas a filhadaputa me pegou de jeito. É vudu. Ou coisa pior.

– Mila ligou ontem.

– Ah é? E aí?

– Não sei, não falei com ela. Tava dormindo.

– Tu dorme que nem um urso. Precisa se tratar. Qualquer dia não acorda mais. Já pensou? Morrer de tanto dormir?

– Nem tenho dormido tanto. Por que Goiânia?

– Porque a parada vai rolar lá. Cara, relaxa. Aproveita a viagem. Gostou do carro? Peguei ontem.

– Não vou nem perguntar onde pegou…

– Tá de boa, meu bom. É de uma tia minha. Nunca usa. Pedi emprestado por alguns dias. Prometi devolver com tanque cheio e pneus novos.

– Você é um gentleman…

– Sou mesmo. E aí, vambora?

– Preciso comprar cigarro.

– Se não morrer de tanto dormir, do cigarro tu não escapa.

– Tománocu.

Tenho que ligar pra Mila. O que será que ela queria tarde da noite? Vai ficar puta quando souber que vou ficar um tempo fora. Ela desdenha mas gosta do encaixe que temos. Fomos feitos um pro outro. Se não fosse casada, acho até que eu sossegava o facho. Porra nenhuma, sou caso perdido.

Como vou explicar essa ida à Goiânia? Arrumei um trampo temporário? Depois de tanto tempo desempregado, não recusaria nem em Macapá. Não, Macapá acho que não. Mas Goiânia… Já estive lá. Quente pracaralho. E realmente tem mulher bonita. Mas não tava afim de viajar agora. Ok, minha vida em São Paulo não tá nenhuma maravilha, mas pelo menos gosto da cidade. E tenho esperanças de que ela um dia goste de mim também. A cidade, não a Mila. Essa não gosta de ninguém.

– Por que a gente não vai de avião pra Goiânia?

– E perder a oportunidade de dirigir esta belezinha na estrada? Nem fudendo.

– Pelo menos a gente chegaria mais rápido e resolveria a parada o quanto antes.

– A parada só vinga quando a gente chega. Então… curte o som e acende o beise.

Parte 3: O Feitiço

Nada fixa alguma coisa tão intensamente na memória como o desejo de esquecê-la. (Michel de Montaigne)

Não sei há quanto tempo conheço Valtinho. Uns 10 anos? Por aí.

Não sei avaliar se uma década é tempo suficiente pra considerar alguém como ‘amigo’. Ou se faz a menor diferença. Tem gente que conheço há mais tempo e nem por isso é mais amigo meu do que ele. A gente tem coisas boas em comum – roquenrol, mulheres, estrada – e diferenças abissais. O cara é um dínamo, sempre ligado em 220; eu sou devagar, quase distraído. Não fui sempre assim, a vida me desacelerou. Ainda bem. Acho que pirava se continuasse naquele pique. Tempos loucos. Mas agora eu tô sussa. Mais focado. Tentando, pelo menos. A estrada vai me fazer bem.

Conheci Valtinho num trampo que fiz assim que cheguei a São Paulo. Me apresentou a cidade, ajudou até a arrumar um bom apê pra alugar. Sempre fala mais do que ouve, e isso me irrita um pouco, mas aprendi a lidar. É só deixar ele desenvolver suas teorias e fazer uma observação vez ou outra, e pronto: o ‘papo’ rende a noite toda. Gosta da ‘night’, como eu. Dormir é para os fracos, dizemos.

Fazia tempo que não o via. Ele nas paradas dele, eu nas minhas. Nos reencontramos quando conheci Mila. Não tirava o olho dela na Mercearia quando Valtinho chegou, percebeu e mandou:

– Cara, conheço ela. Quer que te apresente?

– Não seria má ideia.

– Só tem uma coisa: é casada. Mas parece que está sozinha hoje. E gosta de dar umas ‘voadas’, se é que me entende…

– Sem problemas. Também estou. Só não quero confusão… Mas uma cervejinha descompromissada não tira pedaço de ninguém. Agora, se ela tiver a voz que eu imagino que ela tem, cara, não me responsabilizo.

– Hahahahaha, tá certo. Guentaí, taradão.

E em minutos estávamos os três – e mais um cara que estava investindo nela, mas logo dispensado – trocando ideia, rindo até. No final da noite, só eu e ela, tomando a saideira, olho no olho, bar fechando. Acabamos lá em casa. O feitiço começou ali.

Mais uma furada patrocinada pelo Valtinho. Só não sei ainda se me arrependo ou não…

– Vai dizer que não tá um dia perfeito pra viajar? Estrada vazia, nuvens segurando a onda do sol, beise a la vontê, roquenrol do bom e do melhor, esse carrão… Porra, isso que é vida!

– uh-hum… Por enquanto, tudo certo. Já tá na hora de começar a me preocupar.

– Sifuder, só te ponho na boa. E mesmo quando não rola suave a gente se diverte!

– Se não tiver mulher envolvida, pode até ser.

– Deixa de ser ingrato. E a Mila? Coloquei aquele mulherão na sua mão, cara! E ela curtiu também.

– Ô se curtiu…

Esqueci de ligar pra Mila. E agora não tem sinal. Bosta de operadora. Nem saímos direito de São Paulo ainda, caralho. Não devia estar nessa pilha. Já tinha batido o martelo de que não cairia nessas ciladas novamente. Ainda mais com uma mulher casada. Mal casada, mas enfim… Ela quer segurança. Mas quem não quer? Eu estava mais interessado me perder naquele cheiro… naquelas coxas… Acabei perdendo foi a cabeça.

Perdemos os dois. Mila também mergulhou fundo. Tanto que o marido sacou. E eles se separaram. Mas Valtinho me disse que voltaram. Ela nunca me disse. Nem precisava. Ela muda o tom da voz quando está segura. Naquela noite na Mercearia parecia insegura. Ou mais franca. E eu embarquei. Sinceridade, ainda que fingida, me interessa. O resto a gente dá um jeito.

Das últimas vezes que vi Mila, já a tratava como amiga. Tentei, pelo menos. E ela não mudou de postura, sempre em seu altar, olhando de cima pra baixo. Mas essa de amiguinho não rolou. Soava falso. Teve uma tarde que andamos, sob garoa, pelo centro da cidade, como velhos amigos de 20 anos que nunca fomos. Fotografamos, rimos, tomamos café. E voltamos em silêncio. Um silêncio cúmplice. Quando nossos olhos se esbarraram em meio a um metrô lotado na Sé, havia um vazio intimidante. Só trocamos (poucas) palavras quando nos despedimos. Ficamos de se ver. Não rolou mais.

Aí ela liga. Saco, não deveria me importar.

– Cara, vc está nas nuvens, hein?

– Total. A mente voa na estrada. Sabe, se eu pudesse, viveria de um lado pro outro, rodando por aí sem destino. Cigano roots. Mas…

– Mas você não tem culhão pra encarar. Confessa.

– É. Pode ser.

– Sabe o que eu acho? Que a gente, quando chega à beira de um despenhadeiro, não tem muita escolha. Ou pula e deixa o abismo te engolir ou senta e vê a vida passar. Eu não me arrependo de ter mergulhado nos poços que encontrei pelo caminho. Me fortaleceram! Eu quero é mais! Bora fumar outro.

– Vai aí, vou ficar no Marlborão. Foda é mergulhar num poço e encontrar uma poça… Se não acaba contigo, te aleija.

– Aleija não, te redefine. Errar não é o problema, o problema é repetir. Porra, tanta confusão diferente por aí e você perdendo tempo com erro antigo? Nem fudendo!

A auto-ajuda de boteco do Valtinho está fazendo efeito. Ele está certo. Não temos tempo a perder. Com certeza vou cometer muito erro ainda.

Agora tem sinal. Vou ligar.

Parte 4: O Acidente

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”
(José Saramago)

Odeio quando dá ocupado. Você sabe que a pessoa está lá, ao alcance das frequências, mas não consegue falar. Tudo que você pensou em dizer fica engasgado.

Ocupado de novo.

Ah, foda-se.

– Chuvinha chata essa. Tenho que botar aquela parada na porta pra evitar de pingar aqui dentro. Vida de motorista e fumante é foda…

– São Paulo, terra da garoa…

– Já saímos de São Paulo. Eu moraria fácil aqui, nas franjas da megalópole. A gigante selva tecnológica pulsando ali adiante, aquela maçaroca de gente pra tudo quanto é lado, e vc aqui, curtindo horizonte, ar puro, mas dependente da selva. Tirando o seu sustento de lá. Morar em São Paulo hoje é meio como viver no próprio escritório.

Ar puro. Pode ser. Mas o ar tóxico das grandes cidades me moldou e não vivo mais sem ele. Sou um urbanóide que suga a energia dessa massa confusa de gente, concreto, carros… Quanto mais asfalto melhor. A seiva que me sustenta tiro da selva de pedra. Acho que isso me endureceu um pouco.

– E aí, ligou? Medinho da Mila dar bronca? Tu já foi menos zé-ruela.

– Só dá ocupado. Melhor assim, nem sei se tô a fim de falar com a Mila.

– Deixa quieto, uma hora ela liga.

Mila não liga pra ninguém. Mas tá sempre ligada. Se não está, te convence do contrário. Ela é senhora da situação. Sempre. Com um olhar, te desconcerta, muda o foco, te faz sentir um deus ou sofrer como o diabo. É fácil se deixar levar por esse olhar. Ele te envolve, reconforta, te dá esperança até. Sedução mode ON.

Ela é um arco-íris. E sempre que vemos um arco-íris, ele rouba a cena. Pela beleza estonteante e também pelo tesouro que parece oferecer. “Está aqui, venha pegar”, seus olhos convidam, fisgando interesses como quem cumprimenta conhecidos. E se você estiver na alça de mira dela, pow, já era.

Mila oferece a liberdade no paraíso. Não é pouca coisa.

– Cara, vou tirar um cochilo. Tá de boa aí dirigir sem minha co-pilotagem, né Valtinho?

– Sifudê… que co-piloto? Só fica olhando pela janela. Se eu for depender de você pra ficar acordado, tô fudido.

– Então não vai fazer diferença, certo? Tô meio chapado ainda… Qualquer coisa grita aí.

Disposição zero pra encarar essa parada. Deixa a Mila de lado e concentre-se no que pode dar certo, porra!

Valtinho parece confiante, essa parada em Goiânia vai ser o fim de um ciclo, início de outro. Vamos todos rir dessa fase. O absurdo de tudo é que tudo pode ser. E nada também. O arco-íris pode não ser um lugar tão mágico assim. O ciclo que se fecha pode ser nada mais do que um outro que se inicia. Os caminhos não se cruzam por acaso. As encruzilhadas são nirvanas…

Momentos mágicos estão em toda parte. Não são tão raros quanto nos fazem crer.

not much chance,
completely cut loose from
purpose,
he was a young man
riding a bus
through North Carolina
on the way to somewhere
and it began to snow
and the bus stopped
at a little cafe
in the hills
and the passengers
entered.
he sat at the counter
with the others,
he ordered and the
food arrived.
the meal was
particularly
good
and the
coffee.
the waitress was
unlike the women
he had
known.
she was unaffected,
there was a natural
humor which came
from her.
the fry cook said
crazy things.
the dishwasher.
in back,
laughed, a good
clean
pleasant
laugh.
the young man watched
the snow through the
windows.
he wanted to stay
in that cafe
forever.
the curious feeling
swam through him
that everything
was
beautiful
there,
that it would always
stay beautiful
there.
then the bus driver
told the passengers
that it was time
to board.
the young man
thought, I’ll just sit
here, I’ll just stay
here.
but then
he rose and followed
the others into the
bus.
he found his seat
and looked at the cafe
through the bus
window.
then the bus moved
off, down a curve,
downward, out of
the hills.
the young man
looked straight
foreward.
he heard the other
passengers
speaking
of other things,
or they were
reading
or
attempting to
sleep.
they had not
noticed
the
magic.
the young man
put his head to
one side,
closed his
eyes,
pretended to
sleep.
there was nothing
else to do-
just to listen to the
sound of the
engine,
the sound of the
tires
in the
snow.

Estrada. Foto: Jorge Henrique Cordeiro

– Ai, caralho!!!

– Porra, Valtinho, freia!!

– Tô freando, porra!! Tô freando!!!

Vi a batida em câmera lenta. Não fechei os olhos. Se estava chegando a minha hora, queria ver como seria.

Parte 5: O Velho

A dor é estranha. Um gato matando um pássaro, um acidente de carro, um incêndio… A dor chega, BANG, e lá está, senta em você. É real. E para qualquer um olhando, você parece abobalhado. Como se você de repente se transformasse num idiota. Não há cura para ela a menos que você conheça alguém que entenda como você se sente, e saiba como ajudar.

(Charles Bukowski)

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

Foi uma pancada e tanto. Colamos no carro da frente.

Como isso foi acontecer? Só Valtinho pode responder. Quando acordei, mal tive tempo de retesar a musculatura pra absorver o impacto. Rodopiamos pela pista, junto com o carro da frente, até pararmos no acostamento. Fiquei zonzo, mas me mantive consciente. Uma dor lancinante me invadiu o pescoço. Olhei pro lado e vi Valtinho com os olhos vidrados, limpando o sangue do rosto.

– Caraca, que foi isso??

– Uma batida, ao que parece… tudo bem aí? Tá inteiro?

– Acho que quebrei o nariz. E você?

– Quase fui decapitado, mas escapei por pouco. Vamos sair daqui.

Confiro a integridade dos ossos e saio do carro. O motorista da frente está possesso, gesticula como um louco, puto com a manobra que a gente fez. Seguro o cara a duras penas.

Os carros ficaram bem zoados. Apesar a força do choque, ambos os motores ainda funcionam. Dá pra seguir viagem.

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

Trocamos telefones com o outro motorista, já mais calmo, e consultamos o seguro do carro pra pegar algumas coordenadas. Saio pra procurar um lugar pra lavar a cabeça e tomar uma água. Não estávamos mais na estrada principal. Valtinho, não sei porque cargas d’água, entrou em alguma vicinal, não saberia dizer exatamente onde. Bem em frente ao acidente tem uma pequena igreja, onde um corpo está sendo velado. Todos que ali estavam saem para ver a batida. Conseguimos mais atenção que o morto.

Um senhor de benguala se aproxima devagar. Para ao meu lado, escarra displicentemente e me encara. Não diz uma palavra. Me olha como se já nos conhecêssemos. Seus olhos são duros, quase opacos. Parecem congelados. Meu deu certa aflição e desvio o olhar.

– Há vida apesar da morte…

E escarra de novo. Por um instante vi no velho algo xamânico. Ele parece estar olhando além, por entre os carros, nossos corpos, as nuvens. Não senti vontade – ou melhor, necessidade – de conversar com ele, estávamos num estado de comunicação além da palavra, eu simplesmente entendia sua presença. Isso bastou. Senti a dor do pescoço amainar. Yo no creo, pero…

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

O velho balbucia algo, não deu pra entender, e se cala. Ficou ali, ora me encarando, ora olhando para o céu. As nuvens dissiparam, acabou a chuva. Valtinho retorna do bar, onde lavou o rosto. Ainda havia sangue em uma de suas narinas.

– Por que saímos da estrada?

– Cara, era rapidinho, só ia passar na casa de um camarada. Você não ia nem perceber, quando acordasse já estaríamos de volta à estrada… porra, que merda! Destruí o carro!

– Pelo menos ainda anda. Só acho que não chega a Goiânia.

– Não mesmo, vamos ter que voltar.

– E a parada?

– Já era…

O velho dá meia-volta e retorna ao velório. As demais pessoas o seguem.

Me acostumei com as frustrações. Minha vida tem sido uma sequência ininterrupta delas. Algumas tiro de letra. Outras são mais foda de absorver. Ficam lá no fundo, latejando discretamente, o suficiente apenas para me lembrar que existem. Finjo que não é comigo e sigo em frente. Se perturbam demais, tomo um porre, arrumo uma foda descompromissada ou durmo. Nos sonhos, sem as algemas da consciência, as frustrações são até divertidas. Pareço ter mais controle sobre elas quando estamos no universo inconsciente. Algumas até desistem de me perturbar depois que as embaralho com minhas pirações internas, loucuras e taras inconscientes… Sou mais eu e minhas neuras.

A volta pra casa está estranha. O cair da tarde é deslumbrante mas eu e Valtinho nem percebemos. Estamos bem amuados. Não sem razão, claro.

– Que velho esquisito aquele. O que vocês conversaram?

– Nada, ele mal falou.

– Tu viu que tinha um velório rolando em frente ao local do acidente?

– É, aquilo sim foi bizarro. Não sei se teria espaço pra mais dois defuntos ali…

– Tu achou que a gente ia morrer?

– A gente vai morrer. Só não foi agora.

Valtinho dirige mais devagar agora, certamente com medo de estourar o carro de vez no meio daquele fim de mundo. Não acendeu um baseado sequer, como fez sistematicamente a cada 100km na ida. Eu penso no velho e naquele olhar petrificado. Não saberia decifrar sua presença, nem como ela me afetou. Há coisas que simplesmente são.

Não vou mais ligar pra Mila.

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada

Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada

Parte 6: A Volta

Foto: Jorge Henrique Cordeiro
(Foto: O Escriba)

Nada na geladeira. Saco, esqueci de pedir pro Valtinho me deixar no mercado. Vou me virar com esse pão por enquanto. Depois desço pra comprar alguma coisa. Pão e cigarros, dieta boa essa. Preciso descansar. O dia foi pra lá de confuso. O acidente, a parada que foi pras cucuias, aquele velho bizarro, Mila… Tô ficando obsessivo com essa mulher, melhor deixar o beque pra depois.

Que horas são? Acho que dá tempo de pegar um rango lá no bar do Pedrão. Amanhã abasteço a geladeira pra ‘guentar a semana.

O bar do Pedrão foi onde conheci boa parte dos meus amigos paulistas. Frequento desde que cheguei por estas bandas. O clima é ótimo, a filha do Pedrão é linda e o som de responsa. A comida também não é ruim. Vem servida e o preço é honesto. Quem trabalha por perto sabe e prestigia. Isso contribui pra diversidade do lugar. Tem de tudo: músicos, pedreiros, estudantes, desgarrados como eu que não têm lugar melhor pra ir e a moçada que vaga a cidade em busca de novos picos descolados pra comentar depois no ‘feice’ sobre ‘o lugar incrível que ninguém conhece’. Mas justiça seja feita: é essa moçada que dá o tempero de noite alternativa ao bar do Pedrão. Frequentam um tempo, indicam a conhecidos, trazem novas figuras, e o público se renova.

E tem o roquenrol de primeira, que Pedrão, como bom colecionador de bandas 60-70, nunca deixa faltar. Certa vez levei um CD com uns sons do Traffic que garimpei pela web e ele perdeu a linha. Deixou o bar de lado e veio pra mesa, trocar ideia sobre ‘a idade do ouro do rock’, como ele coloca sem margem para contra-argumentações. E ainda apresentou uma caninha das boas.

Chego com o bar ainda meio vazio. Cumprimento Pedrão, sua filha, um ou outro conhecido que já devoram a prata da casa, carne assada no molho de pimentão, e me ajeito numa mesa qualquer. Peço o de sempre e uma cerveja. Como boas-vindas, Pedrão coloca a minha preferida do Traffic. O que posso querer mais da vida?

A filha do Pedrão está cada dia mais gata. Ela sabe disso, mas não é afetada. Conversa com todo mundo, sempre sorrindo. Não precisa provar nada a ninguém. E curte roquenrol. Mina perfeita.

Plínio, um chegado que sempre encontro no bar, aparece pouco depois.

– Faaala ae, meu? Tudo certo? Que cara é essa?

– Nào tive o melhor dos dias. E aí, qual a boa?

– Tô só passando pra tomar uma antes de colar ali no Jazz. Vamos?

– Até seria uma, mas fica pra próxima. Vou bater um rango, curtir um som por aqui mesmo e depois vazar. Quem tá tocando hoje?

– Uns cubanos, dos bons. Já tá bombando na porta. E o Valtinho?

– Cara, nem me fala no Valtinho… rei das furadas.

– Hahahahaha, você também não aprende! Cara, se ele diz que tem uma boa, desconfie. Sempre!

– É, vou tentar lembrar disso da próxima vez.

Recebo uma mensagem no celular. Do Valtinho. Não morre mais.

Cara, olha o estado do meu nariz!! Ficou pior do que o carro! kkk

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

– Quem é esse? Atropelado?

– É o Valtinho, acabou de me mandar. Na verdade, ele atropelou um carro. Tava com ele. Na estrada, indo pra Goiânia. Longa história…

Nem tão longa assim. Chegou meu rango. E a Mila também. Porra, só me faltava essa.

– E aí, tudo?

– Tudo.

– Te liguei ontem, você não atendeu…

– É, eu vi, mas não deu pra retornar.

– Tudo bem. Posso me sentar?

– Claro, esse é meu amigo Plínio.

– Olá, tudo?

Mila está vestida com seu sorriso franco de filme de terror. É sincero demais pra ser coisa boa. Mas é irresistível. Meu camarada não tira os olhos dela – e de seu decote, discreto porém insinuante. Ela corresponde com o olhar e ergue o copo pra ele encher. Sua linguagem corporal é perfeita. Como um gato, se movimenta com elegância, nos mínimos detalhes, como se calculasse milimetricamente a beleza de cada gesto. Parece uma pintura em movimento.

Termino de comer e os dois já parecem íntimos. Falam amenidades e Mila ri alto, exagerando na entonação para parecer interessada. Ela não costuma errar nos botes que dá.

Peço mais uma cerveja e, enquanto Mila vai ao banheiro, Plínio se mostra empolgado. Como num ‘deja-vu’, sei exatamente o que ele vai dizer.

– Ajeitadinha essa tua amiga, hein?

– Total. Vai fundo.

– Não tá contigo?

– Não… somos conhecidos apenas.

– Vou convidar pro Jazz. Será que ela topa?

– Por que você não tenta?

Dou uma força pra Plínio fazer o convite. Falo do Jazz e Mila comenta algo sobre o lugar. Plínio diz que pretende ir lá e pergunta se ela não quer ir.

Mila topa, claro. Finge estar chateada porque não vou e dá uma daquelas gargalhadas com empolgação calculada, do nada. Ao saírem, noto que está usando uma daquelas calças justas que torneiam coxas, batatas e bunda. Indo é um espetáculo como poucos. Nunca fiquei tão feliz em vê-la se distanciando.

Chega de furadas. Uma parece chamar a outra, num ciclo incessante. Posso não evitar 100% as roubadas, mas adquirimos um bom desconfiômetro com o tempo. O meu tá tinindo, eu é que insisto. Como as portas trancadas daquele sonho… Só mais uma, só mais uma. Cara, a porta trancada não vai abrir, a roubada não vai virar o tesouro no fim do arco-íris.

Não posso ficar dependendo das paradas do Valtinho. Não têm rendido tanta grana assim e são esporádicas. Tenho que trampar, com carteira assinada, seguro saúde, ticket restaurante. Sair da merda pelo caminho mais entediante. Amanhã vou bater perna pra procurar emprego. Só não volto a dar aulas. Não tenho mais saco.

O último cigarro da noite tem um sabor especial. Acompanho a fumaça dançar pelo ar, guardo a guimba pr’alguma emergência e apago a luz. Os demônios que vão se acumulando durante o dia estão em polvorosa. Se agitam sob o teto empoeirado. Hora de dar um ‘defrag‘ geral na mente, arrumar os caixotinhos de frustrações, neuras, sonhos, ansiedades e preocupações.

O diabo está na desordem.

Boa noite, meus pequeninos companheiros diabólicos. Me acordem como anjos.

Parte 7: O Sonho

Relatar algo estranho é como contar seus próprios sonhos: você pode comunicar os fatos de um sonho, mas não seu conteúdo emocional, o modo como um sonho pode dar cor a todo o seu dia. (Neil Gaiman)

La condicion humana (René Magritte)
(A condição humana (1935), de René Magritte)

O avião pousa e aguardo pacientemente a hora do desembarque. A poltrona do deck é bem confortável, e me distraio olhando a paisagem, o mar burila com pequenas ondas o casco do navio – não é mais um avião, estranho. Somos convidados a sair por jovens uniformizados, de branco, que nos guiam até a terra firme. Comento com minha companheira de viagem que o avião tinha espaço como um navio, até aberto ao céu era. Estranho mesmo.

Meu velho carro vermelho está pronto, de portas abertas. Entro pelo lado do passageiro e minha parceira de trip assume a direção. De ré, sobe uma alça de acesso de uma movimentada via expressa. Reclamo e ela dá de ombros, diz pra eu ficar tranquilo, que tudo está nos conformes. Mas claro que não está, vamos bater, estragar o carro. Vou ter um baita preju. Ela ri e acelera.

Os pneus traseiros sobem no meio-fio e o carro vira num córrego que passa por debaixo da via expressa. Saímos os dois do veículo, que boia e começa a ser levado pela correnteza. Ela sobe um barranco reclamando da minha falta de confiança e some. Vou atrás do carro, para recuperar meus documentos, que estão no porta-luvas. Minha camisa branca não está enlameada e fico mais calmo.

O córrego leva a uma oficina, onde carros são desmontados e as peças estocadas. Vários homens portam ferramentas de corte, elétricas. O barulho das lâminas nas chapas de ferro é ensurdecedor, a fumaça toma conta do lugar. Ninguém parece notar minha presença. Começo a ficar preocupado, um pouco com medo. O clima é pesado.

Procuro pela pilha de portas-luvas. Pergunto a um dos mecânicos onde posso encontrá-la. Ninguém responde. Ninguém parece notar que estou na oficina. Ainda assim, quero reaver meus documentos. Então, puxo papo qualquer com um dos cortadores de aço, “essas serras são boas mesmo, hein?”. Consegui a atenção dele: o cara desliga a serra, vira pra mim e diz que realmente, ela corta tudo. Soou como uma ameaça. Os demais na oficina param suas atividades e, como se um perigo iminente ameaçasse a ilegalidade daquele lugar, vêm pra cima de mim.

Recuo até um canto e vejo o porta-luva do meu carro. Pego os documentos e saio batido. A sensação foi de que escapei por pouco. Só não sei bem do quê.

Ando por uma ruela de terra batida, casas humildes dos dois lados. O mato cresce displicente por todo canto. Começo a subir uma ladeira e escuto uma criança. Ela chama pelo pai. Tem a voz do meu filho. Eu tenho um? Não lembro mas vou ao terreno baldio de onde parece vir a voz. Vejo uma criança sentada, chorando. Não a reconheço, dou meia-volta e continuo seguindo a rua. O sol está se pondo.

A rua mudou. Está mais arborizada, com casas mais bonitas, térreas, amplas e arejadas. Todas sem cerca divisórias entre os terrenos. Os gramados estão bem cortados e brilham como se alguém tivesse acabado de regá-los. Entro na primeira rua que aparece, à direita. Ela faz uma curva pra esquerda e some num bosque. Paro em frente à primeira casa à direita. O caminho de pedra, que leva até a porta de entrada, está coberto de folhas secas.

Saio do caminho e ando pela grama. Estou descalço. A grama está macia. Chego a uma espécie de sala de estar, cercada de portas de correr de vidro. No cômodo, um confortável sofá, estantes de livros, uma escrivaninha. A sala é atapetada e cheia de almofadas. Um lugar agradável para se estar.

O pôr-do-sol dá uma cor alaranjada às paredes. Entro e me ajeito entre as almofadas.

Estou em casa, enfim.

Parte 8: A Separação

Lucien Clergue (Nude #4)
(Foto: Lucien Clergue)

O desejo é a essência da realidade (Jacques Lacan)

Mila flutua pela sala. Seu perfume domina o ambiente. Ela não para de falar, exigir minha atenção, opinião até. Mas estou distraído demais e acompanho seu ritmo quase instintivamente. Não consigo parar de olhar pra ela. Seu jeito meio italianado e sua segurança nas afirmações dão um tesão danado. Me insinuo pr’um longo beijo e acaricio seu corpo. Ela treme, monta em mim e suspira nos meus ouvidos:

– Quero gozar por cima agora.

Ela segura meu pau e mete na buceta. Quente, úmida, meu pau preenche, como é bom isso. Mila tem uma buceta incrível. E a boca também. É uma segunda buceta. Tão suculenta e macia quanto. Não paramos de nos beijar, e rolamos pela cama. Sem desencaixar. Sem parar de meter. Nos lambuzamos de saliva, língua, dedos e mucosas, queremos nos sugar. Mordo seu ombro com força suficiente para sentir sua carne. Gozo logo depois dela. Tesão gera tesão.

Poderia ficar encaixado aqui pro resto da vida. Viveríamos de sexo, beijos e gozos, alguma água e cigarros.

Não esperava passar a noite hoje com Mila. Nosso encontro na padaria mais cedo não indicava em nada que acabaríamos aqui na cama, suados e embaralhados por entre lençóis, travesseiros e meias. Nos esbarramos ao acaso na fila do caixa – ela saindo, eu entrando. Tomamos um café e tivemos uma boa conversa de quase amigos. Mila é um bom papo. Falou da situação complicada que vive em casa, da vontade de sumir.

Quando saímos da padaria, o clima estava leve e, quase sem querer, a convidei em casa. Ela aceitou naturalmente. Havia no ar a necessidade mútua da presença do outro. E deixamos rolar. Ontem no bar do Pedrão foi diferente, seguimos cada um por seu caminho. As frequências não bateram. Hoje houve sintonia. E quero que a noite seja eterna enquanto dure.

Mila levanta e vai sonolenta ao banheiro, ajeitando os cabelos. Acendo um cigarro e vou à janela. Ela volta e me abraça por trás. Pede um trago e desabafa.

– Meu casamento não existe mais. Estou pensando em ir embora.

– Vou com você.

– Você já está comigo… não basta?

– Você não quer que eu vá?

– Você não entende… estou cansada. E Paulo não quer me dar o divórcio, que saco. Ele acha que me mete medo. Faz ameaças, diz que vou ficar na merda. Vocês homens acham o quê? Que não conseguimos viver sozinhas? Que precisamos de um pau para sermos felizes?

– Se você gosta de pau, ajuda.

– Babaca. Acho que vou embora. É tarde.

– Fica mais um pouco…

– Não dá. E não estou legal. Quero ficar só.

– Vem cá, faço uma massagem.

– Outro dia. Vamos marcar um Jazz pra semana.

– Vamos sim.

E foi embora. Sempre deixa um vazio, e não sei lidar com isso. Mas vou aprender.

A deep river flows of weathered sins and weathered souls
A kiss a hooded kiss in the seeds of desire
So grief heavenly grief my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

I heard the wind has blown a blessed lie and lovers pains
Over streets and wires underneath alien streams
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

A river flows
Of weathered souls
But I can see shipwreckers eyes
And all that cutting stingray smile
A kiss a hooded kiss for the one I love

I crossed a lonely road a beggar with sullen clouds in my head
And these lines in my face for every tear you’re away
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

Parte 9: A Procura

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo… (Albert Camus)

Na vida, tudo pode acontecer – inclusive nada. Não estou desmotivado pras entrevistas de emprego que tenho hoje, longe disso, mas se for pra criar expectativas, que sejam as piores possíveis. Facilita na hora de digerir a frustração e pode evitar grandes cagadas. Pilotos de caça fazem esse exercicio antes de missões, para estarem atentos e prontos a reagir em qualquer tipo de emergência. Também estou preparado.

O caso concreto é que preciso de grana e não quero mais depender das roubadas do Valtinho. Vou acabar debaixo de um caminhão na Dutra ou coisa pior. Tenho que pegar uma dessas duas oportunidades que surgiram. Pagam bem e o trampo pode até ser divertido. A do Chile então… Uma temporada regada a bom vinho, mudança de ares e chilenas não deve ser de todo mal.

Na barbearia próxima ao local da primeira entrevista, deixo meu cabelo mais corporativo. São Paulo é business. Vejo os gols da rodada e a incrível goleada sofrida pelo Palmeiras deixa uns senhores irritados. Esbravejam contra o técnico, o atacante, o presidente do clube. O lugar é agitado. E divertido. Por isso venho sempre.

Não dá tempo pra comer agora, então engulo uma coxinha no boteco da esquina, compro um chiclete e vou enfrentar as feras.

Gostaram de mim. 1 a 0.

Acho que vou de táxi até a Faria Lima, tá quente pra andar e não cabe chegar lá todo suado, ofegante. Vale o investimento. Desço pro ponto e passo em frente ao sebo de livros que frequento aos sábados. Hoje não tem aquele jazz nervoso, que faz juntar gente na calçada. Eu prefiro curtir o som na lanchonete em frente que tem uma vibe greco-goiana, aquele tipo de lugar que é cafona e tem orgulho disso. Só os cafonas são felizes.

Do outro lado da rua dá pra escutar perfeitamente os Monks que a molecada manda ver no sebo. A Teodoro é a rua mais musical de São Paulo, uma espécie de Bourbon Street bandeirante, com todas as vertentes do mais puro som urbano paulistano. Do chorinho de Adoniran na Benedito Calixto ao metal e outras correntes do roquenrol que saem das inúmeras lojas de instrumentos. E ainda tem os sertanejos dos botecos, o funk e rap nos carros que sobem roncando alto, é música pra tudo quanto é lado.

Tenho tempo ainda, vou dar um rasante pra garimpar um pouco. De repente arrumo um desses livros que ensinam os cinco passos pra se dar bem em entrevistas de emprego. Mudo de ideia quando esbarro em uma pequena edição de ensaios de Camus, meio detonada. O preço tá em cont. Vou levar.

No táxi, leio O Mito de Sísifo:

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

(…)

Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada.

(…)

Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Chego em cima da hora no escritório da V… Trânsito na Faria Lima não estava tão livre. Parece que quanto maior a avenida nesta cidade, mais carros têm. Foram construídas pra escoar o fluxo mas só fazem entupir a cidade. Não deixa de ser emblemático que a vida agitada contribua para nos desacelerar. Mais uma contradição na megalópole.

Na segunda entrevista, a que interessa, fui melhor do que esperava.

Merece comemoração. Vou pro bar do Pedrão.

Parte 10: A Amizade

Foto: Jorge Henrique Cordeiro
(Foto: O Escriba)

Não contava com essa chuvinha de fim de tarde. São Paulo sempre me pega de surpresa. Não deveria, já que estou careca de saber que aqui fazem as quatro estações do ano num mesmo dia. Minha caminhada até o bar do Pedrão miou, vou ter que pegar outro táxi. Lá vai barão…

No caminho, deixo o livro do Camus de lado, mas Sísifo me acompanha nas divagações. Nas calçadas, nos bares, residências, carros vizinhos, estamos todos empurrando o rochedo morro acima. Alguns resignados (e felizes, até), outros com fé numa improvável providência divina, que os premiará pelos esforços feitos. Somos treinados a esperar compensações, certo? Um grande amor, um cargo importante, uma redenção, o fim de uma dor, um carro novo. São cenouras amarradas no cangote. Sem elas, empacamos. E o rochedo cai no vale profundo.

O taxista para o carro na esquina do bar. Desço e pego um pouco de chuva. Se não estivesse frio, teria vindo à pé. Gosto de andar na chuva.

Valtinho me chama pra mesa quando me vê. Já está meio bêbado, provavelmente chegou na hora do almoço e foi ficando. Já fiz muito isso.

– E aí, cara! Sentaí. Como foi nas entrevistas?

– De boa. Se tudo der certo, em duas semanas vou pro Chile.

Eu e minhas expectativas. Não consigo evitar.

– Sério? Que beleza! Vou te visitar por lá!

– Será um prazer. Mas se rolar não vai ser em Santiago, mas numa cidadezinha do interior. Lugar chamado Salamanca. Trampo com uma mineradora. Tem uma estação de esqui por lá. Mas não é minha praia. Vou aproveitar o tempo livre, se houver, pra escrever algumas coisas.

– Vai virar escritor! Nada melhor do que um lugar isolado ora escrever. Mas aí, sair de São Paulo e ir pro fim do mundo no Chile não deve ser fácil. Mas você se adapta. Já morou no Gabão, não foi?

– Não cara, foi Quênia. E isso tem muito tempo, nem lembro direito. Mas sim, devo sentir falta de São Paulo…

– Bom, os amigos estão aqui pra isso. Sempre que sentir saudades, vem pra cá passar o fim de semana e a gente toma todas aqui no Pedrão!

– É , pode ser.

É incrível como para o Valtinho, tudo se resolve. Sempre. É um otimista incorrigível. Bom, tem que ser. Vive de esquemas, paradas, rolos. Se não for otimista, não sobrevive. E nem convence os amigos a entrarem nas jogadas. Já me dei bem em algumas delas, mas a última foi um sinal de que precisava mudar de ares.

– Dói muito ainda o nariz? E o carro, como ficou?

– O nariz ainda incomoda, mas nada que um poderoso uíscão não resolva. E o carro já tá na oficina, em duas semanas pego ele de volta. E fiz um rolo com minha tia, vou ficar com ele. E cara, o que foi aquele acidente? Putaqueopariu!

– Sua tia é uma santa… E eu tenho uma ou duas definições pro que aconteceu, mas melhor ficar quieto…

– Hahahaha, tá certo – eu que me fodo e você quem reclama. Gostou no novo estilo do meu nariz? A pancada deixou ele mais curto, o médico disse!

A filha do Pedrão passa pela mesa e nos calamos em respeito à graciosidade. Peço mais uma cerveja pro Pedrão e ele pede pra filha levar. Chega sorridente, deixa a garrafa e sai assoviando algum roquenrol das antigas, que só conhece porque tem o pai que tem. Pedrão soube dar uma boa educação pr’essa mina.

Mila manda um SMS. Pede desculpas pela noite anterior e diz que quer sair. Respondo que estou com Valtinho tomando umas e outras e ela diz que vai chegar.

– Mila tá vindo pra cá.

– Caramba, meu. Tá rendendo com a figura, hein? Viraram amantes oficiais?

– Não sei o que viramos. Não quero pensar muito nisso…

– Boa, deixa rolar. O que tiver que ser, será.

Lá vem a filosofia de boteco do Valtinho. Ele não deixa de ter razão. Já passei da fase de esperar algo com a Mila. Ela me instiga, é certo, como uma cidade exótica que atrai o visitante para descobrir todas as suas quebradas, com os prazeres e riscos que isso possa implicar. Acho que temos mais coisas em comum do que diferenças – e são os iguais, e não os diferentes, que se atraem. Aí que está a merda: não sei se quero estar com alguém parecido comigo. Pelo menos não agora. E até onde eu percebo, ela tem outros planos – e não estou incluído neles.

Pedrão se junta a nós no papo na mesa. Traz uma garrafa de vinho e enche os copos – menos o do Valtinho, que prefere ficar no uísque. Quando os últimos fregueses saem, Pedrão libera o cigarro. Ótimo, porque chove cântaros lá fora. Acendo um e trago com força. Encho os pulmão e exalo uma fumaça encorpada. Quando ela se desfaz, Mila entra no bar. Está ensopada, cabelos lambidos escorrendo pelos ombros. Está mais bonita do que nunca.

A filha do Pedrão se despede, seu namoradinho chegou. Vai cair na balada. Pedrão dá os conselhos de praxe, que todo pai manda nessa hora, e ergue um brinde “à filha mais bonita da cidade”. Não há o que discutir. Voltamos ao papo. Mila só escuta. Tento não demonstrar muita ansiedade mas com o canto dos olhos percebo que ela está cabisbaixa, alheia.

– Tá tudo bem?

Pergunto, discretamente, enquanto Valtinho e Pedrão discutem sobre os rumos da humanidade com o novo papa.

– O de sempre. Precisava sair de casa, respirar, ver gente. Mas acho que cheguei tarde aqui…

– Quer ir pr’algum lugar?

– Não, tudo bem. Vamos ficar, o papo tá animado. Já é alguma coisa.

Mila se serve e entorna a primeira taça com vontade. Na segunda, para na metade. Fica um tempo apenas olhando ora Valtinho, ora Pedrão. Mas logo, aproveita uma brecha e entra no papo, já me incluindo, perguntando se não concordo que o papa é marqueteiro. Discordo, só pra por mais lenha na discussão. Ela já está mais animada. É o vinho quente subindo à cabeça.

Conto a novidade pra Mila.

– Acho que vou pro Chile.

– É mesmo? Que coisa boa! A passeio ou trampo?

– Trampo. Ficaram de me dar a resposta semana que vem. E se tudo correr bem, na outra já estarei por lá.

– Vai ganhar bem? Tem que ganhar, né? Pra mudar assim de país, tem que ter compensação. E Santiago é linda!

– Não vou pra lá. O trampo é numa cidade do interior, perto da montanha.

– Ai, que tudo! Um dia vou te visitar. Pode?

Fico sem resposta. Mila nem percebe. Já está engatada novamente no papo sem fim da mesa. Já está eufórica, soltando suas gargalhadas calculadas. Preciso aprender a desencanar das coisas como ela faz.

Pedrão, Valtinho e Mila levantam seus copos e brindam à minha viagem. Me enchem de perguntas sobre o trabalho, o lugar, as expectativas, e cada resposta rende mais uma rodada de vinho e sonhos. Assim varamos a noite. Tenho os melhores amigos do mundo. E um grande amor que bateu na trave.

Sou um cara de sorte.

Que os quatro
como num teatro
conservem a mão
sem nenhum
gesto

que o vinho quente
do coração
lhes suba à cabeça
espessa

que do bolso de
cada um dos quatro
como num teatro
voem
pombas
(pombas
brancas)
…e amanheça.

Parte 11 – A Decisão

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
(Mario Quintana)

– E aí, meu caro? Tudo certo? O carro ficou pronto, posso te levar no aeroporto amanhã, que tal?

– Valeu pela força, Valtinho. Mas já pedi um táxi pr’amanhã. Não leve à mal, mas o voo é cedão, deixa quieto.

– Qualé, para com isso. Faço questão. Aproveito e te conto umas ‘paradas’ que estão pra rolar… E pago o café!

– Tá certo, combinado. Mas tenho que estar no aeroporto às cinco da matina em ponto. Sem furos, beleza? E sem paradas…

– Ok, entendi. Hasta luego, compañeiro!

Só me faltava o Valtinho me arrumar uma ‘parada’ no Chile. Esse cara é maluco. O homem-rolo. Acho que nunca exerceu a profissão que tem, vive de bico. Alguns são jogadas de mestres; outros, roubadas homéricas. Tô fora. Não preciso mais disso, tenho que focar nesse trampo e aproveitar a calmaria – se houver – pra escrever. Finalmente. Uma terapia e tanto. Uma página após a outra…

Por aqui, tudo certo. A proprietária não gostou muito de trocar o último aluguel por móveis detonados e alguns aparelhos eletrônicos ultrapassados, mas o que posso fazer? Foi bons pros dois: eu me livrei de coisas que não poderia levar e ela pelo menos minimiza o prejuízo.

Agora é separar o que vou levar de roupa, livros e CDs, e deixar o resto pro Cabral vir aqui pegar. Ele é o meu ‘reciclador’ oficial, pega tudo, diz que é pr’uma biblioteca comunitária e tal, vai saber. Pra mim, pouco importa. Que venda e ganhe um dinheirinho, fique com tudo, pelo menos as coisas circulam. Minha última boa ação. ‘Tava tudo mofando aqui em casa, sem uso. Bora aliviar um pouco a carga. Um amigo diz que seu objetivo na vida é ter apenas o que couber no carro. Ok, ele tem uma doblô, ainda assim é louvável sua meta.

Acho que consigo me virar bem com o que estou levando. Mas vou sentir falta daquela livraiada toda. Me confortavam em tempos difíceis. De qualquer maneira, sinto que chegou o momento de por um pouco pra fora tudo que consumi nesses anos todos. Ler menos e escrever mais.

– Hola, que tal, mi camarada? Te gusta pisco? Las muchachas chilenas son bonitas, no?

– Ouvir seu portunhol logo de manhã é tudo que eu queria… o carro ficou bom, hein?

– Não é? Novinho em folha. E agora é meu, fechei o negócio com minha tia. Ela ficou feliz, eu também. Ficou bom pra todo mundo.

– Parabéns. Me ajuda aqui com essa mala. A rodinha quebrou, saco.

– Porra, pesado pacas, hein? Tá levando um defunto aí dentro?

– Livros, bicho. Papel pesa mesmo.

– Joga fora tudo, meu, o negócio agora é ‘ebuqui’, Tudo numa caixinha desse tamaninho, ó!

– Maneiro. Mas sou fetichista, gosto de pegar, cheirar, olhar pro livro. E já deixei coisa bastante pra trás. Melhor nem pensar…

– Sai dessa, mano! Livro já era. Agora cabe tudo que tem nessa porra de mala nesse bagulhinho aqui. E a tela é boa pra ler. Quando você tiver um, vai me dar razão. Se quiser te arrumo.

– Nah, xapralá. Tenho outras prioridades agora.

A ida até o aeroporto é tranquila. Na medida do possível, claro. Valtinho não para de falar em paradas de tudo quanto é tipo, continua dirigindo insanamente, mas chego com tempo de sobra pra tomar um bom café e trocar um dinheiro. Me despeço com um abraço e a promessa de que ele poderá passar uns dias comigo em meu retiro nos Andes. Quer andar de esqui, ver a montanha, tomar uns piscos originais. É, pode ser divertido.

No avião, relaxo, ponho o fone de ouvido e deixo a mente vagar. Não quero pensar nas coisas que deixo pra trás, são fantasmas do que um dia sonhei em construir. No que depender de mim, morrem hoje.

Hora de construir um novo passado.

I did not become someone different
That I did not want to be
But I’m new here
Will you show me around?

No matter how far wrong you’ve gone
You can always turn around

Met a woman in a bar
Told her I was hard to get to know
And near impossible to forget
She said I had an ego on me
The size of Texas

Well I’m new here and I forget
Does that mean big or small?

No matter how far wrong you’ve gone
You can always tournaround

And I’m shedding plates like a snake
And it may be crazy but I’m
The closest thing I have
To a voice of reason

Turnaround turnaround turnaround
And you may come full circle
And be new here again

Agora também no Wattpad.

16 respostas para Zen Passado

  1. Anasha Gelli disse:

    adorei o zen passado, bem sua cara, com musica, humor, amor , dor e aventura. Um texto mais longo, ousado! Dias inspiradores, evoé! Namastê

  2. Muito bom, tão brasileiro… Li num sopro.

  3. disqus_YLs5UKv3qG disse:

    eu adorei!

  4. Adriana Cirne disse:

    Adorei! Texto dinâmico, personagens envolventes, que nos levam junto com eles. Ansiosa pelos próximos capítulos para conhecê-los mais e desvendar seus destinos.

  5. Muito bom, me pegou de passagem e não consegui deixar até chegar nos comments, esperando as “cenas do próximo capítulo”….até sisqueci do trabalho…rs

  6. Fábio José de Mello disse:

    Legal o texto, bucaneiro. Agora quero porque quero conhecer o bar do Pedrão. Quem sabe um dia? Abração! E
    continue nos brindando com textos legais.

    • cara, se eu te falar que o bar do Pedrão existiu? Aqui em SP mesmo… e tinha uma filha espetacular… 🙂 To meio na correria, mas com tres textos engatilhados. Tenho q me organizar pra reservar pelo menos umas duas horinhas por dia pra escrever. Peguei gosto 🙂

      abração e valeu pela força!

  7. vani disse:

    Curtindo à vera a viagem! Y ahora, Chile! Ti ti ti le le le! Lá pode ser que encontre um José!

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