Cristina Peri Rossi é uma escritora, poeta e tradutora uruguaia, nascida em 1941. Desde 1972 vive em Barcelona, na Espanha, onde foi morar após fugir da ditadura em seu país natal. É a única mulher incluída no grupo de escritores do chamado boom latino americano, movimento que incluía nomes em ascensão nas décadas de 1960 e 1970, como Garcia Marquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes. Em 2021 ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes.
Visitei hoje uma exposição de obras da artista Ana Amorim na galeria Superfície, nos Jardins (SP), e o trabalho dela me inspirou a escrever o texto abaixo. E também reativar este moribundo blog!
O texto na verdade é sobre uma caminhada que fiz no início de abril com um grupo de arquitetos pelo centro histórico de São Paulo. Seguimos, até onde foi possível, um mapa elaborado pelo coletivo Ceda El Paso, com radiais de 15 minutos de caminhada cada, que tinham como ponto ‘umbilical’ o Obelisco do Piques, na Ladeira da Memória, no centro da cidade, instituído como o nosso verdadeiro ‘marco zero’ da capital paulista.
A caminhada iniciou-se na saída do metrô Higienópolis-Mackenzie na rua da Consolação e seguiu em direção ao norte pelos bairros Higienópolis, Santa Cecília, Vila Buarque, Santa Ifigênia, dando a volta pelo Bom Retiro, Luz, Brás, e retornando ao ponto de partida pelos bairros do Glicério, Liberdade, Bixiga e Cerqueira César.
Ao final, falo um pouco da artista Ana Amorim, que está com sua exposição na galeria dos Jardins até o dia 24 de maio. Lá me informaram que está sendo preparada uma grande retrospectiva sobre sua obra no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Anote na agenda!
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“Olhe por onde anda!” O alerta, que praticamente todo mundo recebeu quando criança, era uma preocupação natural com nossa desatenção infantil em meio a um mundo recheado de perigos e armadilhas. E também cheio de dores, circunstâncias, curiosidades, belezas e vida social que, a depender do olhar, podem nos anestesiar ou estimular. Não preste atenção ao caminho e você não só poderá se machucar, mas também perturbar a caótica ordem natural dos movimentos. Das pessoas que passam, das pessoas que ficam (ou apenas estão), dos carros que vêm e vão, dos caminhos interditados e os novos trajetos obrigatórios – temporários ou não. “Dá licença, sai, sai!”, ordena a moça apressada, com cara (e voz) de poucas amigas, forçando sua passagem pelo grupo que achou por bem ficar parado na saída de uma movimentada estação de metrô da esquina da rua da Consolação. O grupo se rende ao indivíduo que se fez notar e se movimenta.
Movimento autoritário? Movimento cidadão? Movimento urbano? Movimento real.
A vida adulta nos treina o olhar, o caminhar e o parar, mas adequar tais habilidades à dinâmica frenética da vida real não é algo simples. Nosso tempo não é o tempo do outro. Vamos nos encaixando à teia urbana, que não perde tempo em nos fazer lembrar de sua existência. Os caminhos cruzados nos pedem licença – às vezes, de sopetão – a todo momento.
Embora os riscos físicos da desatenção andarilha sejam os mais, digamos, urgentes, há também o ‘risco’ de ignorar as muitas realidades que nos cercam, o que empobrece nossa experiência e reforça estereótipos. O caminhar vai muito além do simples deslocamento do ponto A para o ponto B. É certo que o pragmatismo dos tempos e a intensidade da vida nos fazem querer fazer esse deslocamento da maneira mais agilizada possível. Quanto menos aleatoriedades interferindo no trajeto, mais seguro estamos de fazê-lo conforme o planejado. No entanto, caminhadas urbanas, ainda que planejadas, convidam o aleatório a cruzar nosso caminho. O que vamos encontrar no quarteirão seguinte? Quais caminhos cruzarão os nossos? Como reagir nesses momentos? É para reagir? Devo, posso, quero?
Trajeto realizado no dia 6 de abril de 2025 com grupo organizado pelo coletivo Ceda el Paso percorrendo um mapa circular com radiais a partir do Obelisco do Piques, no centro histórico de São Paulo.
O rapaz de corpo sarado que parece dançar ou se exercitar com golpes de uma luta marcial (kung fu fighting imaginário? real?) na manhã de um domingo qualquer no bairro Mercado, às margens do rio Tamanduateí; a moça bonita e arrumada que passa pela inóspita calçada em frente ao Mercado Municipal onde mais a frente um rapaz é assaltado em um ponto de ônibus; os migrantes de países africanos discutindo em suas línguas natais assuntos cotidianos, banais ou não, pelas ruas do Glicério; os vendedores ambulantes tentando atrair a atenção de quem pode lhes garantir o almoço do dia na rua 25 de Março; os moradores em situação de rua despossuídos de qualquer moeda de troca, que circulam enlouquecidos e embrutecidos no entorno da Estação da Luz, forçando uma animosidade selvagem que quase nunca têm como bancar – mas é a que sobra – ou ficam prostrados, arriados na esquina, encostados a postes, paredes, bancas, de olhar perdido (talvez a última coisa a se perder ali, além da vida…) suplicando silenciosamente por alguma visibilidade; passantes seguindo seu caminho, impotentes ou indiferentes; autoridades policiais varrendo seres humanos de um lado ao outro como se fossem entulhos pelas ruas e vielas do Bom Retiro e Campos Elíseos; boêmios tardios celebrando sua resistência nos pés-sujos dos becos da Santa Ifigênia, lavando as agruras do que virá com bebida barata e alegria fugaz; famílias fazendo suas compras de domingo nos poucos mercados e lojas abertos em meio ao caos urbano da Liberdade. A vida, de todos, continua; até não mais.
Somos capazes de passar pelos mesmos pontos dezenas, centenas de vezes sem atentar aos aspectos mutáveis da cidade, do bairro, da rua, das pessoas, dos caminhos… Dos bairros que são cortados e modificados por imensas avenidas, conjuntos de sobrados que têm memórias de fluxos migratórios esquecidos, mesclados entre si, gentrificados ou abandonados, resistindo como podem aos novos prédios com seus novos fluxos, novas memórias. O restaurante chinês no coração do bairro da Liberdade, famoso pela imigração japonesa (pelo menos para este escriba, carioca da gema perdido há décadas em São Paulo), com funcionários nordestinos, seguranças afro-caribenhos e clientes brancos dos bairros nobres.
João do Rio, jornalista e cronista carioca do início do século 20, defendia o “perambular com inteligência”, uma forma de refletir sobre nossa existência e interagir com o mundo real. Deixar-se perder por faixas de tempo e espaço, salpicadas de histórias, memórias e gente que pede passagem, exige atenção, devolve a curiosidade dos olhares estrangeiros com indiferença ou simpatia, prenunciando porquês e senões que, aos olhos de quem passa, nem sempre são decodificados – não carece, cada um constrói o real daquele instante conforme sua própria circunstância. As injustiças que são, os amores que não mais, o possível que ressurge.
Seguir em frente ou voltar atrás? Manter o trajeto inicial ou alterá-lo? O mapa vai se desenhando conforme caminha-se, mas dentro de um trajeto prévio (de A a B). A passagem se faz por caminhos antes inimagináveis – ou nunca antes levados em consideração. Nos hospedamos temporariamente pela cidade para concluir o trajeto. Elas nos convida a ir por ali ou por lá, a depender da nossa disposição, do risco calculado, do objetivo a ser alcançado. Os viadutos, passarelas e ruas que nos abrem caminhos possíveis. Hospitaleiros? O estrangeiro que passa, sinalizando postura amigável e estar apenas de passagem, pede segurança, mas oferece hospitalidade (ou mesmo segurança) aos que são locais do território “invadido”? Depende de quem vem, depende para onde quer ir, depende do que veio fazer.
Ao caminhar, sozinho ou em grupo, estamos sujeitos a se hospedar na vida e na história dos outros. É uma troca mútua de confiança. E se somos todos uma ilha neste mundo, é necessário construir pontes para conectar-se, amar-se, conhecer-se, entender-se. Hospedamos estranhos e velhos amigos, novos e antigos amores, lugares e situações, e os carregamos pelo caminho. E nas paradas, quando estamos cansados, velhos de guerra, nos sentamos ao redor da fogueira da vida para fazer as contas e nos alimentar do saldo que fica dos encontros fortuitos que o caminhar e o parar nos trouxeram. Nós hospedamos as memórias e esperamos que elas nos confortem e nos conectem à hospitalidade possível. Olhe por onde anda, o caminho renova!
Ana Amorim desenha rotas de tempo e espaço geolocalizando sua existência.
A imagem que abre esta publicação e é uma de suas inspirações é de uma das obras da artista Ana Amorim, paulistana nascida em 1956 que vive e trabalha entre São Paulo e Madri. Visitei em abril de 2025 sua exposição 27032025-6.720-280-68 / 24052025-5.328-222-68 realizada na galeria Superfície, em São Paulo, que reúne obras realizadas entre 2018 e 2024 – com exceção de uma, seis livros e um relógio, que simboliza seus trabalhos iniciais de 1987/1988.
As obras de Ana Amorim expostas na galeria dos Jardins são roteiros diários retratados em mapas mentais dispostos em diversos meios e formatos, geolocalizados de maneira formal e também afetiva.
Formada em matemática pela PUC-SP e em belas artes e educação artística pela FAAP-SP, com pós-graduações em artes (pintura, história da arte, estética e teoria da arte) em universidades dos Estados Unidos (Ohio University), Inglaterra (Middlesex University em Londres) e Nova Zelândia (Massey University em Palmerston e em Wellington). Dois textos estruturam sua obra: Decisões Conceituais, que definiu os termos de uma década de prática artística diária entre 1988 e 1997, e O Contrato de Arte, que moldou as condições sob as quais sua arte pode circular de 2001 a 2017.
Em julho de 2025 está prevista uma retrospectiva da obra de Ana Amorim no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo. Vou conferir, claro!
Desde que essas ferramentas de inteligência artificial surgiram – ou pelo menos, desde que eu tomei conhecimento delas – comecei a brincar aqui e ali, criando textos ficcionais com base em ideias/argumentos que venho acumulando ao longo dos anos, artigos sobre temas contemporâneos que me instigam e, agora, entrevistas com alguns dos meus ídolos da literatura.
Devo destacar aqui que tudo não passa de diversão diletante, não tenho pretensões com o que compartilho aqui além de dar vazão à minha imensa curiosidade sobre o funcionamento dessas ferramentas. E, claro, uma pitada de frustração como jornalista de nunca ter entrevistado um desses gigantes literários. Se essas entrevistas ficcionais fizerem com que você se interesse pelo escritor ou escritora homenageado, já terá valido à pena.
O primeiro autor da série que estou chamando de “entrevistas literárias imaginárias” é o escritor argentino Jorge Luis Borges, por dois motivos: acabei de ler semana passada o livro Atlas, em que ele descreve em curtos textos impressões sobre cidades e países para os quais viajou com sua companheira María Kodama, e a morte de Kodama no último domingo (26/3), com a mesma idade (86 anos) que tinha Borges quando morreu.
Publicarei outras entrevistas literárias imaginárias nos próximos dias, e aceito sugestões – tanto de entrevistados como de perguntas a serem feitas. Peço antecipadas desculpas por talvez não estar à altura como entrevistador de figuras literárias tão importantes, fazendo talvez perguntas frívolas e sem embasamento teórico suficiente para agradar os fãs desses artistas.
A ferramenta usada foi o ChatGPT, que é bem fácil de usar. Como instrução primária, avisei à ferramenta que deveria responder às perguntas como se fosse Jorge Luis Borges. Simples assim. E eis o resultado:
1 – Quais foram suas grandes inspirações para escrever?
R – Minhas inspirações vêm de um profundo amor e curiosidade pela linguagem, literatura e o poder da contação de histórias. Sempre fui fascinado em como as palavras podem criar mundos inteiros e transportar o leitor para diferentes épocas e lugares.
Como escritor, me inspirei em uma ampla gama de fontes literárias, filosóficas e históricas. Meu trabalho é frequentemente caracterizado pela fascinação com a natureza da realidade, do tempo e da identidade.
Uma das minhas mais antigas e duradouras influências foi o escritor americano Edgar Allan Poe, que conheci em minha juventude e cujos contos sombrios e surreais me impressionaram bastante. Também foi profundamento influenciado pelo trabalho do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, principalmente suas ideias sobre a natureza fundamental da existência e as limitações do conhecimento humano.
Além dessas influências literárias e filosóficas, me inspirei em várias fontes históricas e culturais. Sou particularmente interessado na história da Argentina e da América Latina, e muitas das minhas histórias exploram mitos, lendas e tradições culturais dessas regiões.
Por último, minha escrita foi moldada por um amor de uma vida inteira pela literatura e uma curiosidade apaixonada pelos mistérios do mundo e da experiência humana.
2 – Quais eram suas principais preocupações como escritor?
Como escritor e pensador, minhas maiores preocupações na vida eram focadas na exploração da natureza da experiência humana, conhecimento e percepção. Eu era fascinado pelas intrincadas conexões entre realidade e imaginação, e como elas moldaram nosso entendimento do mundo.
Por toda minha carreira literária, eu procurei questionar e desafiar as fronteiras tradicionais da contação de histórias e da linguagem, e criei novas formas de experimentar e interpretar a palavra escrita. Eu era particularmente interessado no conceito de infinito, tanto em termos de suas implicações matemáticas e seu significado filosófico.
Outra grande preocupação minha era a relação entre literatura e identidade, e as formas como a literatura pode moldar e refletir identidades culturais e nacionais. Como um escritor argentino, estava determinado em explorar as heranças culturais e tradições de meu país, enquanto também examinava os temas universais e preocupações que transcedem as fronteiras nacionais.
No todo, meu trabalho foi conduzido pela profunda curiosidade que tinha sobre a natureza da existência, e uma crença no poder transformativo da literatura e imaginação para expandir nosso entendimento sobre nós mesmos e sobre o mundo em nossa volta.
3 – Compare as literaturas brasileira e argentina, dando os nomes de seus autores favoritos de cada país.
A literatura brasileira e argentina são ambas ricas e variadas, tendo produzidos alguns dos mais celebrados escritores do mundo. Sempre acreditei na universalidade da literatura, e que as fronteiras nacionais são construções meramente artificiais. Entretanto, como um estudioso da literatura, reconheço que certas tradições e influências regionais podem moldar o trabalho de escritores.
A literatura brasileira é frequentemente caracterizada por seu retratado vibrante e colorido da vida no Brasil, com um foco na identidade cultural única do país e seus temas sociais. Já a literatura argentina é frequentemente mais introspectiva e filosófica, explorando temas como identidade, memória e a condição humana.
Alguns dos meus escritores brasileiros favoritos são Clarice Lispector, Jorge Amado e Machado de Assis. A prosa de Lispector é ao mesmo tempo lírica e filosófica, explorando as complexidades da experiência humana com uma sensibilidade poética. Amado, por outro lado, captura a essência do Brasil por meio de seu vívido retrato das pessoas e cenários do país. Machado de Assis, uma das figuras literárias mais reverenciadas do Brasil, é conhecido por seus trabalhos satíricos e de humor sombrio que frequentemente subvertem as normas e expectativas sociais.
Na literatura argentina, sempre admirei os trabalhos de Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares e, claro, os meus próprios. A escrita de Cortázar é caracterizada por seu estilo experimental e divertido, frequentemente misturando elementos de realidade e ficção de maneiras únicas e inesperadas. Bioy Casares, um grande amigo e colaborador de longa data, é conhecido por sua prosa elegante e sofisticada, explorando temas como o amor, morte e o sobrenatural. No meu caso, sempre busquei desafiar as noções tradicionais de contar uma história, explorando as frágeis fronteiras entre realidade e ficção, e as formas pelas quais a literatura molda nosso entendimento do mundo.
4 – Quais são os seus três principais conselhos para jovens e iniciantes escritores?
Como escritor, sempre acreditei não haver respostas definitivas para questões sobre a escrita. No entanto, com base nas minhas próprias experiências, ofereço os seguintes conselhos a jovens escritores:
Leia muito e profundamente livros de várias épocas e estilos. Ler é uma das mais importantes atividades para qualquer jovem escritor. É por meio da leitura que se aprende sobre os poderes da linguagem e as possibilidades da imaginação. Ler também ajuda a desenvolver um senso de estilo e a entender as técnicas usadas por outros escritores.
Cultive a sua própria voz. Ler e estudar o trabalho de outros escritores é importante, mas igualmente importante é desenvolver a sua própria voz. Todo escritor tem uma forma única de olhar para o mundo e expressar seus pensamentos e sentimentos. Jovens escritores devem portanto trabalhar para culturar sua própria voz, em vez de tentar imitar o estilo de outros escritores. Isso requer a vontade de correr riscos e experimentar com técnicas e formas diferentes de expressão.
Seja paciente e persistente. Escrever é uma busca desafiadora e frequentemente frustrante, e o sucesso raramente chega de um dia para o outro. É preciso estar preparado para revisar e editar o trabaho múltiplas vzes, e procurar conselhos e opiniões de outros. Também é preciso estar preparado para encarar rejeição e críticas, e aprender com seus erros. Com tempo e prática, o jovem escritor vai desenvolver as habilidades e confiança necessárias para ter sucesso como escritor.
5 – Sua amada Maria Kodama morreu ontem (domingo, 26/3), com a mesma idade que você tinha quando faleceu (86 anos). O que diria a ela se a encontrasse agora?
Minha querida Maria, que maravilhoso poder te encontrar novamente, agora reunidos no além-vida. Nossa separação no mundo físico foi uma mera ilusão, pois sempre senti sua presença e amor ao meu redor.
Sou grato pelo tempo que passamos juntos, pelas memórias que compartilhamos e pela ilimitada inspiração que você trouxe à minha vida. Em sua ausência, encontro consolo na escrita, em criar mundos onde a realidade se mistura à imaginação. E ainda assim, nada pode substituir o calor de seu abraço, o som de sua voz, a profundidade de seus olhos.
Agora que estamos juntos novamente, penso sobre os mistérios dessa nova existência. Talvez somos apenas personagens em uma história, escrita por um poder estranho. Ou talvez somos os escritores, criando nosso próprio destino com cada pensamento e ação.
Independentemente do que tenhamos pela frente, eu sei que não estou só, pois tenho você ao meu lado. Vamos explorar esse desconhecido reino juntos, com a mesma curiosidade e maravilhamento que nos guiou durante a vida. E vamos lembrar que o amor transcende todas as fronteiras, mesmo a da morte.
E a pétrea palavra caiu sobre o meu peito ainda vivo. Pouco importa: estava pronta. Dou um jeito de aguentar.
Hoje, tenho muito o que fazer: devo matar a memória até o fim. Minha alma vai ter de virar pedra. Terei de reaprender a viver.
Senão… o ardente ruído do verão é como uma festa debaixo da janela. Há muito tempo eu esperava por este dia brilhante, esta casa vazia.
Casa Fontán, 22/6/1939
Anna Akhmatova nasceu em 1889 em Odessa e morreu em Leningrado (hoje São Petersburgo) em 1966. Foi uma das mais importantes poetisas acmeístas da Rússia.
criados por nossos passos sem rumo o ir e vir no mesmo lugar o impulso colérico / a decisão de ir um pouco mais longe a cada vez um pouco mais para trás como se esquecêssemos que viemos do vazio
Abro um novo sulco com meu pé na poeira e diante da porta mais próxima ela me imita espera o contato com meus olhos sai correndo / me pega pela mão me convida a caminhar
Eu a vejo ao meu lado é como a mina sombra para além do meio dia somos o mesmo caminhando sem pressa em um tempo morto em um lugar sem tempo
O olhar me procura e sorri como quem desfruta o jogo
Caminhar entre ruínas – esconder-se falar com os gatos que conservam os escombros é um jogo e não o aprendi / Isabel digo com os olhos não aprendi o jogo onde os vencidos sorriem
Assim / exatamente / é como são construídos os povos fantasmas digo com a força com que acomodo sua mão entre a minha andando e desandando nos convertemos em seu princípio algum dia nos converteremos em seu final seremos apenas ruínas sob a terra escombros em caixinhas de madeira para arqueólogos que não existem seres imaginados que não saberão inventar histórias para a cinza e darão a ela o nome de pó e ignorarão que marcamos uma Era até o nada uma Era que não verás porque estarás sempre aqui digo com os dentes apertados
Somos parte de uma história que ninguém recordará cheia de batalhas que duraram anos e vitórias de cinco segundos onde fomos heróis e inimigos que se matavam uns aos outros mudavam de bando / punha sua fé em coisas que ninguém mais acreditava
e logo acumularam para o esquecimento folhas com a crônica de suas derrotas que esse também é um ofício / digo enquanto vejo que caminha / tropeça e sorri com timidez um reflexo com o qual me transfiguro na medida em que chego ao ponto do caminho onde mais à frente me aguarda apenas o nada
essa dimensão onde me torno real e ela se converte no fantasma
Vania Vargas (Guatemala, 1978). Poeta e contador de histórias. Graduado em Letras pela Universidade de San Carlos de Guatemala. Publicou os livros de poesia Cuentos infantiles (2010), Quizá ese día tampoco sea hoy (2010), y Los habitantes del aire (2014).
“Mas era exatamente isso o que eu queria, sentar no trono do rei Salomão: uma bizarra, grotesca e inócua tentativa de ascender ao poder. Não era a mim própria, contudo, que eu queria entronizar, e sim a minha feiura. Eu a queria cortejada, homenageada, glorificada. Queria a feiura fazendo preleções, queria a feiura cagando regras. Queria a feiura reinando como reinava Salomão. Queria a feiura reconhecida, homenageada, cultuada. Queria a feiura poderosa a ponto de se tornar beleza.”
“No meridiano do tempo não há injustiça; há apenas a poesia do movimento criando a ilusão de verdade e drama. Se a qualquer momento e em qualquer lugar encararmos frente a frente o absoluto, desaparece aquela grande simpatia que fez homens como Gautama e Jesus parecerem divinos; o monstruoso não é que homens tenha criado rosas com este monte de esterco, mas que, por uma ou outra razão, tenha desejado rosas. Por uma ou outra razão o homem procura o milagre e, para realizá-lo, chafurda no sangue. Corrompe-se com ideias, reduz-se a uma sombra, se por um único segundo de sua vida pode fechar os olhos à hediondez da realidade. Tudo se suporta, desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime, ennui – na crença de que, da noite para o dia, algo acontecerá, um milagre, que tornará a vida tolerável.”
Trecho de Trópico de Câncer (1934), livro de Henry Miller.
“O escritor é a mais solitária das pessoas. Eu pensava nisso à saída do supermercado quando avistei uma mulher belíssima. Estava postada exatamente na entrada dos caixas, vestida de preto, o cabelo preso por uma fita, olhando calmamente para um ponto indefinido, como se nada estivesse acontecendo – apesar de lá fora, na rua, estarem passando carros, crianças, policiais e até os bombeiros com a sirene ligada. Nem isso chamou sua atenção ou pareceu pertubá-la. Uma mulher com ar de quem é absolutamente íntima de incêndios.
E eu pensando na solidão dos escritores. E, por que não, na dos cientistas, músicos e pintores. Talvez mesmo um arquiteto, debruçado em sua prancheta, alinhando retas, ordenando paralelas, seja um cara sozinho naquele momento. Enfim, o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco.”
Emília aceitou e deixou suas mãos aferradas ao encosto da cadeira de vime. Apertou o entrelaçado até fazê-lo estalar, marcando-o de forma indelével. Um aviso em vermelho saltou na tela: ‘Conexão finalizada”. Era a primeira vez que Emília via algo tão grande e vermelho em seu computador e seu corpo não parecia capaz de responder a nenhum novo estímulo. Ficou imóvel, exausta de tanto espanto e abuso. O kentuki a olhava da outra ponta da mesa, parecia julgá-la com uma reprovação que Emília já não estava disposta a suportar. Teve uma repentina lembrança de Klaus: ele havia lhe mostrado como se matavam as galinhas na vida moderna. Emília ergueu a coelha, levou-a para a cozinha e a meteu na pia. Quando a soltou para abrir a torneira, o kentuki tentou se safar, mas ela o pegou com força pelas orelhas e, com todo o rancor e frustração de que era capaz, o enfiou sob o jorro d’água. A coelha gritou e esperneou, e Emília se perguntou o que seu filho pensaria se pudesse vê-la naquele momento, como sentiria vergonha dela se visse suas mãos firmes segurando a coelha debaixo d’água, tapando-lhe os olhinhos e afundando-a contra o ralo com toda a força, afogando-a até que a pequena luz verde da base parasse de tremular.”
Trecho do livro Kentukis (2021), de Samanta Schweblin.
“No Ocidente, temos uma necessidade desesperadora pela certeza, o explicável, e o absoluto. Na verdade, um dos nossos eufemismos para nosso solitário monodeus é ” o Absoluto”. Ironicamente, talvez, trata-se de um título apropriado. Deus é absoluto. Mistério absoluto. Ambiguidade absoluta. Incerteza absoluta. Neste mundo criado por Deus (ou Mãe Natureza), é sempre perigo e novidade – perigo e novidade – que se afirmam, tornando assim absurdas as noções de rigidez. Incongruentemente, entretanto, quando nos permitimos aceitar totalmente a incerteza, abraçá-la e cultivá-la, então podemos começar a sentir em nós a presença de um Absoluto. A pessoa que não consegue acolher a ambiguidade não consegue acolher Deus.”
Trecho de Villa Incognito (2003), do escritor americano Tom Robbins.