Impressões do Teatro – Wislawa Szymborska #umpoemapordia

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,

a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.

As reverências individuais e coletivas:
a mão pálida sobre o peito ferido,
as mesuras da suicida
o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:
a fúria dá o braço à brandura,
a vítima lança um olhar doce ao carrasco,
o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.
A moral varrida com a aba do chapéu.
A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.

Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.

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Inferno dos vivos – Italo Calvino

– O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

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Minhas 7 Quedas – Paulo Leminski #umpoemapordia

minha primeira queda
não abriu o pára-quedas

daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda

da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda

nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda

na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo

Paulo Leminski foi poeta, escritor, crítico literário, tradutor e professor, nascido em Curitiba (PR). Foi casado com a também poeta Alice Ruiz. Escreveu letras para músicas gravadas por Caetano Veloso, Itamar Assumpção e A Cor do Som. Seu primeiro livro foi Catatau (prosa experimental), publicado em 1975.

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Mergulhe enquanto é tempo

“Não é tarefa fácil amar alguém. É preciso ter uma energia, uma generosidade, uma cegueira… Há até um momento, bem no início, em que é preciso saltar por cima de um precipício: se refletimos, não o fazemos.”
Sartre, em A Náusea (1938)
Foto: Devant Chez Mestre (1947) – Willy Ronis
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A Flor – Robert Creeley #umpoemapordia

Creio que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se em si mesma num minúsculo
botão imperceptível,
fazendo dor.

A dor é uma flor como aquela
como este,
como aquele,
como esta.

I think I grow tensions
like flowers
in a wood where
nobody goes.

Each wound is perfect,
encloses itself in a tiny
imperceptible blossom,
making pain.

Pain is a flower like that one,
like this one,
like that one,
like this one.

(Tradução: Vanderley Mendonça)

Robert Creely é um poeta e professor universitário americano, integrante da geração conhecida como ‘poetas da Black Mountain’ (anos 1950 e 1960) e também da Geração Beat. Privilegia em seus versos a percepção das coisas e os ritmos da fala. Sua poesia é minimalista, lacônica, direta. Seu primeiro livro, For Love – Poems 1950-1960, foi publicado em 1962.

 

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Instruções para esquivar o mau tempo – Paco Urondo

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas::: serão sempre nossos.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

(Paco Urondo, poeta argentino, escreveu este texto em meio à ditadura em seu país)

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Only – Nine Inch Nails

I’m becoming less defined
As days go by
Fading away
Well you might say
I’m losing focus
Kinda drifting into the abstract
In terms of how I see myself
Sometimes
I think I can see right through myself
Sometimes
I think I can see right through myself
Sometimes
I can see right through myself
Less concerned
About fitting into the world
Your world, that is
‘cause it doesn’t really matter
Any more
No, it doesn’t really matter
Any more
None of this really matters
Any more
Yes I am alone
But then again I always was
As far back as I can tell
I think maybe it’s because
Because you were never really real
To begin with
I just made you up
To hurt myself
I just made you up
To hurt myself
I just made you up
To hurt myself
And it worked
Yes it did
There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
Only only only
Well the tiniest little dot caught my eye
And it turned out to be a scab
And I had this funny feeling
Like I just knew it’s something bad
I just couldn’t leave it alone
I cut off that scab
It was a doorway trying to seal itself shut
But I climbed through
Now I’m somewhere
I am not supposed to be
And I can see things I know
I really shouldn’t see
And now I know why
Now I know why
Things aren’t as pretty
On the inside
There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
Only only only only only only?

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