Cabra marcado por matar

No livro O Compadre de Ogum, que faz parte da obra Os Pastores da Noite, de Jorge Amado, um dos personagem explica a certa altura que quando se mata alguém, acrescenta-se o peso do morto às costas do assassino. E ele vai carregar esse peso pro resto da vida.

Um dia depois de atingirmos 10 mil mortos, o jornal O Globo fez uma bela homenagem, colocando o nome de cada uma das vítimas na capa da edição do dia 11, em parceria com o projeto Inumeráveis.

Uma semana depois, já temos mais de 15 mil mortes no país – todas pesando às costas do pior presidente que o Brasil já teve. E muitas mais virão com a pandemia de coronavírus completamente fora de controle no país, graças à indigência política, intelectual, humana desse ser ignóbil que ocupa a Presidência da República.

Cada morte provocada pela pandemia de coronavírus no Brasil ficará indelevelmente marcada na figura de Bolsonaro. Mas ele é tão tosco, tão sem noção, tão vil, tão limitado, que é capaz de nem reparar no imenso peso que carregará para o resto de sua vida…

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Acordai – José Gomes Ferreira

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

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Voodoo Chile – All Them Witches

O algoritmo do Youtube tá mandando muito bem!

Agora me indicou esse som do All Them Witches, que é uma recriação de um clássico do Hendrix.

A música faz parte da coletânea Electric Ladyland Redux (2015), com versões e recriações das faixas desse que foi o terceiro e último álbum de estúdio do Jimi Hendrix.

Também participam dessa coletânea bandas como Earthless, Superchief e Mos Generator. Bom pacas!

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Um discurso histórico na premiação do Oscar 2020

Joaquin Phoenix e Rooney Mara
Joaquin Phoenix e Rooney Mara após cerimônia do Oscar 2020. Foto: Greg Williams

“Penso que é assim que chegamos ao nosso melhor: quando apoiamos uns aos outros. Não quando cancelamos uns aos outros por nossos erros passados, mas quando ajudamos uns aos outros a crescer. Quando educamos uns aos outros, quando guiamos uns aos outros para a redenção.”

Joaquin Phoenix, 2020 (leia aqui a íntegra do discurso, em inglês)

Foto: Joaquin Phoenix e Rooney Mara comendo hamburguer vegano após a premiação no Oscar 2020, por Greg Williams.

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O Que É – Erich Fried

É um absurdo
diz a razão
É o que é
diz o amor
É azar
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desespero
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É imprudente
diz a cautela
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor
(Tradução: Vanderley Mendonça)
Erich Fried, poeta austríacoErich Fried (1921-2988) foi um poeta, tradutor e ensaísta austríaco, descendente de judeus. É considerado um dos principais representantes da poesia política da Alemanha e grande tradutor de Shakespeare para o alemão, por conseguir transmitir os jogos de linguagem do dramaturgo inglês. Traduziu também obras de T. S. EliotDylan ThomasGraham GreeneSylvia Plath e John Synge. Seu único romance é O Soldado e uma Menina, de 1960, e seu mais famoso livro de poemas é Es ist was es ist (1983).
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Impressões do Teatro – Wislawa Szymborska #umpoemapordia

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,

a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.

As reverências individuais e coletivas:
a mão pálida sobre o peito ferido,
as mesuras da suicida
o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:
a fúria dá o braço à brandura,
a vítima lança um olhar doce ao carrasco,
o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.
A moral varrida com a aba do chapéu.
A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.

Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.

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Inferno dos vivos – Italo Calvino

– O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

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