Mergulhe enquanto é tempo

“Não é tarefa fácil amar alguém. É preciso ter uma energia, uma generosidade, uma cegueira… Há até um momento, bem no início, em que é preciso saltar por cima de um precipício: se refletimos, não o fazemos.”
Sartre, em A Náusea (1938)
Foto: Devant Chez Mestre (1947) – Willy Ronis
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A Flor – Robert Creeley #umpoemapordia

Creio que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se em si mesma num minúsculo
botão imperceptível,
fazendo dor.

A dor é uma flor como aquela
como este,
como aquele,
como esta.

I think I grow tensions
like flowers
in a wood where
nobody goes.

Each wound is perfect,
encloses itself in a tiny
imperceptible blossom,
making pain.

Pain is a flower like that one,
like this one,
like that one,
like this one.

(Tradução: Vanderley Mendonça)

Robert Creely é um poeta e professor universitário americano, integrante da geração conhecida como ‘poetas da Black Mountain’ (anos 1950 e 1960) e também da Geração Beat. Privilegia em seus versos a percepção das coisas e os ritmos da fala. Sua poesia é minimalista, lacônica, direta. Seu primeiro livro, For Love – Poems 1950-1960, foi publicado em 1962.

 

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Instruções para esquivar o mau tempo – Paco Urondo

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas::: serão sempre nossos.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

(Paco Urondo, poeta argentino, escreveu este texto em meio à ditadura em seu país)

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Only – Nine Inch Nails

I’m becoming less defined
As days go by
Fading away
Well you might say
I’m losing focus
Kinda drifting into the abstract
In terms of how I see myself
Sometimes
I think I can see right through myself
Sometimes
I think I can see right through myself
Sometimes
I can see right through myself
Less concerned
About fitting into the world
Your world, that is
‘cause it doesn’t really matter
Any more
No, it doesn’t really matter
Any more
None of this really matters
Any more
Yes I am alone
But then again I always was
As far back as I can tell
I think maybe it’s because
Because you were never really real
To begin with
I just made you up
To hurt myself
I just made you up
To hurt myself
I just made you up
To hurt myself
And it worked
Yes it did
There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
Only only only
Well the tiniest little dot caught my eye
And it turned out to be a scab
And I had this funny feeling
Like I just knew it’s something bad
I just couldn’t leave it alone
I cut off that scab
It was a doorway trying to seal itself shut
But I climbed through
Now I’m somewhere
I am not supposed to be
And I can see things I know
I really shouldn’t see
And now I know why
Now I know why
Things aren’t as pretty
On the inside
There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
Only only only only only only?

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Sete Poemas do Pássaro – Orides Fontela #umpoemapordia

I
O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.

II
Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno.

III
Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o vôo
que nos sustenta.

IV
O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos. Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.

V
Este pássaro é reto;
arquiteta o real e é o real mesmo.

VI
Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.

VII
Na luz do vôo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.

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A melhor animação de todos os tempos

animacao2As imagens não me saem da cabeça. Cada cena da animação O Conto dos Contos, do russo Yuri Norstein, é delicadamente estruturada numa teia onírica, te envolvendo num universo mágico, poético, sublime. Poderia gerar angústia, porque se você não é russo provavelmente ignora boa parte das referências culturais ali apresentadas. Mas o fascínio é maior. E que luz é essa que o Norstein consegue?! Transforma todos os espectadores em insetos, hipnotizados pelos muitos pontos luminosos de seu trabalho – no sentido literal e figurado.

Sério, estou sendo hiperbólico de propósito, porque o que eu vi ontem na última sessão do primeiro dia da Mostra de Animação Russa, no CineSesc, está além do que eu possa descrever. Não à toa o cara é considerado um dos melhores animadores de todos os tempos, uma espécie de Tarkovski do gênero, e O Contos dos Contos, que é de 1979, foi agraciado com diversos prêmios internacionais, sendo considerado uma das melhores animações já feitas – inclusive por seus colegas americanos (o que é um feito e tanto, considerando que ainda estávamos na Guerra Fria)

A história não tem uma coerência narrativa aparente, sendo pontuada por diversas referências da cultura russa e da história do próprio autor – memórias de infância dele, por exemplo. Este texto que encontrei no The Guardian faz uma análise bem boa da animação.

Mas enfim, veja o filme abaixo. Sugiro por em tela cheia e ver num ambiente mais escuro possível, para que haja o contraste necessário. A iluminação dele é coisa mais linda de se ver!

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Somos seres múltiplos (entrevista com Jonathan Franzen)

“Quando o discurso se torna polarizado, e na internet isso acontece rapidamente, não é permitido ter duas opiniões sobre a mesma coisa. Você precisa ter uma única opinião. Há uma simplificação radical online, que é parte da polarização. Isso vai contra os seres múltiplos que realmente somos. E acho que, se você falar pessoalmente com as pessoas que ficam triturando online, elas vão admitir que têm sentimentos muito mais conflitantes do que aqueles que lhes são permitido expressar por lá. A internet é um reino do terror, se você não disser exatamente o que deve dizer, vão lhe machucar. E isso tanto na direita quanto na esquerda.”

Trecho da entrevista de Jonathan Franzen, publicada sexta (23/3) n’O Globo. Franzen é autor do ensaio “Tarde demais para salvar o mundo?”, publicado na edição 28 da revista Serrote, lançada no último sábado (24/3).

E um trecho do ensaio:

“Kierkegaard, em Ou-Ou: um fragmento de vida”, zomba do ‘homem ocupado’, para quem manter-se atarefado é uma forma de evitar o autorreconhecimento honesto. Você pode (…) se dar conta de que se sente solitário (…), ou que precisa refletir sobre o que seu nível de consumo está causando ao planeta, porém no dia seguinte tem um milhão de pequenas coisas a fazer. Enquanto não houver um fim para essas pequenas coisas, você nunca vai (…) confrontar as grandes questões. Escrever ou ler um ensaio não é a única forma de parar e se perguntar quem você é de fato e qual o significado de sua vida, mas é uma boa maneira. E, considerando o marasmo risível da Copenhague de Kierkegaard se comparada ao nosso tempo, esses tuítes subjetivos e mensagens postadas às pressas não parecem tão ensaísticos. Assemelham-se mais a uma maneira de evitar o que um ensaio de verdade talvez nos obrigasse a encarar. Passamos os dias lendo nas telinhas coisas que jamais nos darámos ao trabalho de ler num livro impresso e reclamamos porque nos sentimos ocupados demais.”

(Só achei o ensaio completo em inglês, no Guardian)

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