Somos seres múltiplos (entrevista com Jonathan Franzen)

“Quando o discurso se torna polarizado, e na internet isso acontece rapidamente, não é permitido ter duas opiniões sobre a mesma coisa. Você precisa ter uma única opinião. Há uma simplificação radical online, que é parte da polarização. Isso vai contra os seres múltiplos que realmente somos. E acho que, se você falar pessoalmente com as pessoas que ficam triturando online, elas vão admitir que têm sentimentos muito mais conflitantes do que aqueles que lhes são permitido expressar por lá. A internet é um reino do terror, se você não disser exatamente o que deve dizer, vão lhe machucar. E isso tanto na direita quanto na esquerda.”

Trecho da entrevista de Jonathan Franzen, publicada sexta (23/3) n’O Globo. Franzen é autor do ensaio “Tarde demais para salvar o mundo?”, publicado na edição 28 da revista Serrote, lançada no último sábado (24/3).

E um trecho do ensaio:

“Kierkegaard, em Ou-Ou: um fragmento de vida”, zomba do ‘homem ocupado’, para quem manter-se atarefado é uma forma de evitar o autorreconhecimento honesto. Você pode (…) se dar conta de que se sente solitário (…), ou que precisa refletir sobre o que seu nível de consumo está causando ao planeta, porém no dia seguinte tem um milhão de pequenas coisas a fazer. Enquanto não houver um fim para essas pequenas coisas, você nunca vai (…) confrontar as grandes questões. Escrever ou ler um ensaio não é a única forma de parar e se perguntar quem você é de fato e qual o significado de sua vida, mas é uma boa maneira. E, considerando o marasmo risível da Copenhague de Kierkegaard se comparada ao nosso tempo, esses tuítes subjetivos e mensagens postadas às pressas não parecem tão ensaísticos. Assemelham-se mais a uma maneira de evitar o que um ensaio de verdade talvez nos obrigasse a encarar. Passamos os dias lendo nas telinhas coisas que jamais nos darámos ao trabalho de ler num livro impresso e reclamamos porque nos sentimos ocupados demais.”

(Só achei o ensaio completo em inglês, no Guardian)

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O Quarto Branco – Charles Simic #umpoemapordia

O óbvio é difícil de
provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias

selvagens. Entrávamos
em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores.
O medo e o fascínio me
mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua,
disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.

O sol apontava uma ou duas
coisas que tinham sobrevivido
intactas na longa noite.
As coisas mais simples,

difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo
que as pessoas chamam “perfeito”.

Deuses disfarçados de
grampos de cabelo, espelho de mão,
um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são,
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

(tradução: Carlos Machado)

Clique aqui para o original em inglês.

Poeta sérvio-americano, nascido em 1938 em Belgrado, da ex-Iugoslávia. É também tradutor e ensaísta. Seus primeiros poemas foram publicados em 1959 e seu primeiro livro, What the Grass Says, em 1967. Em 1990 ganhou o Prêmio Pulitzeer com o livro The World Doesn’t End. Seu trabalho tem traços surrealistas, com ênfase no absurdo e fantástico nas situações cotidianas.
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A lua, quando ela roda

Rotação completa da lua vista do Lunar Reconnaissance Orbiter, satélite da Nasa.

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O mundo estava no rosto da amada – Rainer Maria Rilke #umpoemapordia

O mundo estava no rosto da amada –
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução: Augusto de Campos)

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Mas depois da revolução…

Manifesto (2015) – Jules Rosefeldt

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Face a Face – Cacaso #umpoemapordia

São as trapaças da sorte
são as graças da paixão
pra se combinar comigo
tem que ter opinião

Morena quando repenso
no nosso sonho fagueiro
o céu estava tão denso
inferno tão passageiro
uma certeza me nasce
e abole todo o meu zelo
quando me vi face a face
fitava o meu pesadelo
estava cego o apelo
estava solto o impasse
sofrendo nosso desvelo
perdendo no desenlace
no rolo feito novelo
até o fim do degelo
até que a morte me abrace

São as desgraças da sorte
são as traças da paixão
quem quiser casar comigo
tem que ter bom coração

Morena quando relembro
aquele céu escarlate
mal começava dezembro
já ia longe o combate
uma lambada me bole
uma certeza me abate
a dor querendo que eu morra
o amor querendo que eu mate
estava solta a cachorra
que mete o dente e não late

No meio daquela zorra
perdendo no desempate
girando feito piorra
até que a mágoa escorra
até que a raiva desate

(Cacaso)

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Anfiguri – Vinicius de Moraes #umpoemapordia

Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.

Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.

Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.

Vida, quem me dera…
Amor, dura pouco…
Poesia, ai!…

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