Sete Poemas do Pássaro – Orides Fontela #umpoemapordia

I
O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.

II
Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno.

III
Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o vôo
que nos sustenta.

IV
O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos. Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.

V
Este pássaro é reto;
arquiteta o real e é o real mesmo.

VI
Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.

VII
Na luz do vôo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.

Anúncios
Publicado em poesia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

A melhor animação de todos os tempos

animacao2As imagens não me saem da cabeça. Cada cena da animação O Conto dos Contos, do russo Yuri Norstein, é delicadamente estruturada numa teia onírica, te envolvendo num universo mágico, poético, sublime. Poderia gerar angústia, porque se você não é russo provavelmente ignora boa parte das referências culturais ali apresentadas. Mas o fascínio é maior. E que luz é essa que o Norstein consegue?! Transforma todos os espectadores em insetos, hipnotizados pelos muitos pontos luminosos de seu trabalho – no sentido literal e figurado.

Sério, estou sendo hiperbólico de propósito, porque o que eu vi ontem na última sessão do primeiro dia da Mostra de Animação Russa, no CineSesc, está além do que eu possa descrever. Não à toa o cara é considerado um dos melhores animadores de todos os tempos, uma espécie de Tarkovski do gênero, e O Contos dos Contos, que é de 1979, foi agraciado com diversos prêmios internacionais, sendo considerado uma das melhores animações já feitas – inclusive por seus colegas americanos (o que é um feito e tanto).

A história não tem uma coerência narrativa aparente, sendo pontuada por diversas referências da cultura russa e da história do próprio autor – memórias de infância dele, por exemplo. Este texto que encontrei no The Guardian faz uma análise bem boa da animação.

Mas enfim, veja o filme abaixo. Sugiro por em tela cheia e ver num ambiente mais escuro possível, para que haja o contraste necessário. A iluminação dele é coisa mais linda de se ver!

Publicado em animação, arte, filmes | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Somos seres múltiplos (entrevista com Jonathan Franzen)

“Quando o discurso se torna polarizado, e na internet isso acontece rapidamente, não é permitido ter duas opiniões sobre a mesma coisa. Você precisa ter uma única opinião. Há uma simplificação radical online, que é parte da polarização. Isso vai contra os seres múltiplos que realmente somos. E acho que, se você falar pessoalmente com as pessoas que ficam triturando online, elas vão admitir que têm sentimentos muito mais conflitantes do que aqueles que lhes são permitido expressar por lá. A internet é um reino do terror, se você não disser exatamente o que deve dizer, vão lhe machucar. E isso tanto na direita quanto na esquerda.”

Trecho da entrevista de Jonathan Franzen, publicada sexta (23/3) n’O Globo. Franzen é autor do ensaio “Tarde demais para salvar o mundo?”, publicado na edição 28 da revista Serrote, lançada no último sábado (24/3).

E um trecho do ensaio:

“Kierkegaard, em Ou-Ou: um fragmento de vida”, zomba do ‘homem ocupado’, para quem manter-se atarefado é uma forma de evitar o autorreconhecimento honesto. Você pode (…) se dar conta de que se sente solitário (…), ou que precisa refletir sobre o que seu nível de consumo está causando ao planeta, porém no dia seguinte tem um milhão de pequenas coisas a fazer. Enquanto não houver um fim para essas pequenas coisas, você nunca vai (…) confrontar as grandes questões. Escrever ou ler um ensaio não é a única forma de parar e se perguntar quem você é de fato e qual o significado de sua vida, mas é uma boa maneira. E, considerando o marasmo risível da Copenhague de Kierkegaard se comparada ao nosso tempo, esses tuítes subjetivos e mensagens postadas às pressas não parecem tão ensaísticos. Assemelham-se mais a uma maneira de evitar o que um ensaio de verdade talvez nos obrigasse a encarar. Passamos os dias lendo nas telinhas coisas que jamais nos darámos ao trabalho de ler num livro impresso e reclamamos porque nos sentimos ocupados demais.”

(Só achei o ensaio completo em inglês, no Guardian)

Publicado em comportamento, internet | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

O Quarto Branco – Charles Simic #umpoemapordia

O óbvio é difícil de
provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias

selvagens. Entrávamos
em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores.
O medo e o fascínio me
mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua,
disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.

O sol apontava uma ou duas
coisas que tinham sobrevivido
intactas na longa noite.
As coisas mais simples,

difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo
que as pessoas chamam “perfeito”.

Deuses disfarçados de
grampos de cabelo, espelho de mão,
um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são,
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

(tradução: Carlos Machado)

Clique aqui para o original em inglês.

Poeta sérvio-americano, nascido em 1938 em Belgrado, da ex-Iugoslávia. É também tradutor e ensaísta. Seus primeiros poemas foram publicados em 1959 e seu primeiro livro, What the Grass Says, em 1967. Em 1990 ganhou o Prêmio Pulitzeer com o livro The World Doesn’t End. Seu trabalho tem traços surrealistas, com ênfase no absurdo e fantástico nas situações cotidianas.
Publicado em poesia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

A lua, quando ela roda

Rotação completa da lua vista do Lunar Reconnaissance Orbiter, satélite da Nasa.

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , | Deixe um comentário

O mundo estava no rosto da amada – Rainer Maria Rilke #umpoemapordia

O mundo estava no rosto da amada –
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução: Augusto de Campos)

Publicado em poesia | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Mas depois da revolução…

Manifesto (2015) – Jules Rosefeldt

Publicado em civilização, poesia | Marcado com | Deixe um comentário