Segredos pregados por aí

“(…) Agora não tenho mais segredos. Já estão todos pregados por aí.”

(de O Último Suspiro do Mouro, de Salman Rushdie)

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Quem procura muito, nada encontra – Herman Hesse

(…) talvez procuras demais, que de tanta busca, não tens tempo para encontrar coisa alguma.
– Por quê? – perguntou Govinda.
– Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó Venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.”

(Trecho de Sidarta, livro de Hermann Hesse, de 1922)

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Aos que virão depois de nós – Bertold Brecht #umpoemapordia

Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertolt Brecht (1898-1956)

(tradução: Manuel Bandeira)

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Não se mate – Carlos Drummond de Andrade #umpoemapordia

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

(Poema do livro Reunião – 10 livros de poesia. São Paulo: José Olympio, 1969. p. 26)

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Documentário Cuba Jazz revela os caminhos dos novos talentos musicais da ilha – e do próprio país

Ontem fui a uma sessão especial no Cine Brasília, para assistir ao documentário “Cuba Jazz”, produção brasileira que nos oferece um retrato atualíssimo da música cubana, centrado no jazz, bem como da situação do país, sem a estereotipia típica que muitos insistem em usar sempre que o assunto é a ilha caribenha.

“O novo cenário do jazz cubano é algo surpreendente. É uma juventude muito potente, muito interessada em música, muito interessada na vida. Ou seja, o foco principal pode parecer que é o jazz, mas a gente está falando da vida, do cotidiano”, afirmou Max Alvim em entrevista à rádio EBC, um dos diretores do filme, presente ontem na sessão no Cine Brasília, que estava lotado. Por várias vezes a plateia aplaudiu o filme entusiasmadamente – uma delas durante a forte interpretação de Besame Mucho pela cantora Daymé Arocena (ouça abaixo).

Outro que chama atenção pelo talento e consciência político-artística é o trompetista Yasek Manzano, que parece saber bem o que quer para sua vida como artista: “Há muitos compositores que se apoiam em coisas predeterminadas e em imitações, buscando com isso o êxito. Isso é perdoável? O fato é que é questionável”. Para ele, o importante é saber juntar o feio com o belo, para conseguir “a magia, algo como uma supernova que pode levá-lo a qualquer lugar”.

Todos os entrevistados – jovens e veteranos músicos, jornalistas, pesquisadores, produtores musicais – têm consciência exata das benesses e dos revezes que a música, a cultura, a vida cubana sofreram com a Revolução Cubana de 1959. O saldo, no entanto, é amplamente positivo. A começar pelo incentivo prioritário que a Cuba revolucionária deu à educação musical. Em Cuba, ao contrário da maioria dos outros países, um músico pode viver apenas de sua música. Uma vida simples, mas sem ter que fazer concessões além daquelas necessárias para o desenvolvimento da arte. Isso é algo e tanto.

Com inúmeras e excelentes escolas de música pelo país, Cuba conseguiu unir de maneira exemplar a educação clássica com a popular – ainda que isso não tenha sido exatamente planejado. Ainda bem. É justamente esse acordo informal entre o mundo da academia com o mundo da rua, numa mistureba no caldeirão de povos, culturas, medos, bloqueios econômico-políticos, ameaças e contrabando, que a música cubana floresceu e ganhou uma excelência admirada por todos. No Mundo Novo das Américas, só são páreo para a riqueza rítmica e melódica da música cubana as dos Estados Unidos e a do Brasil. Nós, infelizmente, temos um diferencial a meu ver bem negativo. Enquanto entre americanos e cubanos a preocupação com a educação musical formal dos jovens é uma preocupação institucional dos dois países, nós brasileiros vamos mais no improviso.

Ah, imagina se o Brasil tivesse um décimo da preocupação com a educação musical de seus jovens como Cuba e Estados Unidos, o quanto isso não fertilizaria a nossa produção cultural /  musical. Cuba e Estados Unidos dão a base musical clássica a seus jovens, para q possam então alçar voos criativos sem limites. Os moleques misturam essa boa base com muita rua, folclore e cultura popular, acrescentam sua personalidade, e o resultado é de invejar – e parte desse sucesso entre os jovens cubanos pode ser admirado no documentário Cuba Jazz.

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Žižek: A lição da vitória de Corbyn

Toda a esquerda brasileira, os movimentos sociais, coletivos, ONGs etc do campo progressista, com raras exceções, precisam ler com urgência e entender que o caminho que trilham é tão autoritário quanto o que combatem…

Além desse texto do Zizek, outro muito interessante que vai na mesma linha é o da Camila Spósito, que li no site Outras Palavras. Alguns trechos:

“Triste é o papel daqueles que, tendo se proposto a mudar o mundo, tornam-se incapazes de buscar alternativas e se limitam a imitar, com sinal trocado, a atitude do opressor.”

(…)

“A esquerda tem que deixar de ser reativa e abandonar padrões mentais que empacam a análise política na identificação da “culpa” do opressor, ou vai perder mais uma vez a chance de ser a voz porta-voz da nova sociedade que se anuncia, confirmando, por ação ou omissão, a tendência sombria de ser a vítima histórica.”

Precisa desenhar?

Blog da Boitempo

PorSlavoj Žižek.

O inesperado sucesso de Jeremy Corbyn e do Labour Party nas urnas inglesas deixou vermelha de vergonha a sabedoria cínica predominante entre os pretensos especialistas políticos. Até mesmo aqueles que se diziam simpatizar com Corbyn, mas que se esquivavam com a desculpa de que “Sim, eu votaria nele, mas a realidade é que ele é inelegível, o povo está muito manipulado e amedrontado, o momento ainda não é ideal para um lance tão radical.”

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Veteranos: Faces da Segunda Guerra Mundial

Livro do fotógrafo ucraniano Sasha Maslov publicado recentemente apresenta retratos e entrevistas com veteranos da Segunda Guerra Mundial – de todos os lados do conflito. Maslov os fotografou em suas respectivas casas e registrou as histórias de como eles entraram no maior conflito do século passado e como sobreviveram. São mais de 50 personagens russos, americanos, poloneses, indianos, chineses, gregos, alemães, franceses, finlandeses, eslovenos, austríacos e canadenses contando suas experiências, sonhos e frustrações.

“Percebi que precisava procurar mais e mais vozes e mais e mais lugares para fazer justiça à diversidade das experiências dessa geração”, afirma Maslov, que descobriu que “principalmente nos países menores, os veteranos são imensamente orgulhosos de papel que desempenharam na guerra e têm grande participação nas comunidades locais”.

Aqui alguns depoimentos dos veteranos.

O livro Veteranos: Faces da Segunda Guerra Mundial pode ser comprado aqui.

Fonte: PDN Online

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