Zen passado – parte 2: A Viagem

estrada

– Por que você insiste em ficar ouvindo esse blá blá blá todo no rádio logo de manhã?

– Esses caras aí me fazem companhia. Melhor do que ouvir a barulheira do trânsito. Já já acaba o sinal e a gente põe um som. Trouxe uns CDs legais, suficientes pra viagem toda. E de mais a mais, não é mais ‘de manhã’. Já tá quase na hora do almoço. Comeu alguma coisa?

– Comi nada. Para em uma biboca qualquer pr’eu comprar um salgado e depois almoçamos na estrada. Aliás, prá onde estamos indo mesmo?

– Porra, como assim, cara? Esqueceu? Bebeu pra caralho ontem, hein?

Ainda estou zonzo, sonado. Vontade de fumar um cigarrinho pra rebater o resto de café frio que engoli antes do Valtinho chegar. Não deu pra tirar o gosto de guarda-chuva da boca. É, bebi um bocado ontem. Cerveja, uísque, rolou uma tequila no final, acho. Galera mandou ver na farinha, mas segurei a onda. Tô fora. She don’t lie, bro…

Valtinho dirige como um louco. Muda de pista como quem muda de estação no rádio. Pior que faz tudo dentro do limite de velocidade, mas isso não garante porra nenhuma. Bater a 90 km/h aqui na Marginal dá pra acabar virado dentro do Tietê. Mas não me sinto inseguro. De alguma forma, confio no Valtinho. Ou no carro. Ou na providência. Minha hora não pode ter chegado. Tenho uns assuntos a tratar ainda. Deus é justo. E verdadeiro.

– Pegou aquela mina?

– Que mina?

– A do balcão?

– É filha do Pedrão. Sem chance. Mas rendeu um bom peep-show. Gostosa demais.

– Podicre. Comia fácil. Em Goiânia tem mulher pra caramba, dizem. A gente pode se dar bem lá…

– Todo lugar tem mul… Goiânia?!?

– Ah, vai se fuder. Você tá me zoando. Vou parar no posto pra abastecer e tu come algo. Pá-pum, beleza?

Valtinho é um babaca, mas é camarada. Já me quebrou galhos inacreditáveis, mas também já me colocou em mega-furadas. E agora, qual vai ser? Ele parecia entusiasmado ontem à noite. Sorria como um vencedor, estava exultante. Pagou a birita e ainda deu gorjeta gorda. Nunca vi ele fazendo isso. Ontem convenceria qualquer um a qualquer coisa. Tenho até medo de lembrar o que combinamos…

Eu estava no ritmo de sempre. Fumando sem parar, encostado no balcão. Escutava Valtinho falar sem parar e aproveitada suas idas ao banheiro ou ao balcão pra pegar mais um poderoso uíscão para observar alguma mina interessante. Mas Mila não saía da minha cabeça. Ainda não sai. Me enfeitiçou de tal maneira que olho outras mulheres e e é ela quem acaba aparecendo. No início pensei que fosse apenas uma boa foda, hit and run, mas a filhadaputa me pegou de jeito. É vudu. Ou coisa pior.

– Mila ligou ontem.

– Ah é? E aí?

– Não sei, não falei com ela. Tava dormindo.

– Tu dorme que nem um urso. Precisa se tratar. Qualquer dia não acorda mais. Já pensou? Morrer de tanto dormir?

– Nem tenho dormido tanto. Por que Goiânia?

– Porque a parada vai rolar lá. Cara, relaxa. Aproveita a viagem. Gostou do carro? Peguei ontem.

– Não vou nem perguntar onde pegou…

– Tá de boa, meu bom. É de uma tia minha. Nunca usa. Pedi emprestado por alguns dias. Prometi devolver com tanque cheio e pneus novos.

– Você é um gentleman…

– Sou mesmo. E aí, vambora?

– Preciso comprar cigarro.

– Se não morrer de tanto dormir, do cigarro tu não escapa.

– Tománocu.

Tenho que ligar pra Mila. O que será que ela queria tarde da noite? Vai ficar puta quando souber que vou ficar um tempo fora. Ela desdenha mas gosta do encaixe que temos. Fomos feitos um pro outro. Se não fosse casada, acho até que eu sossegava o facho. Porra nenhuma, sou caso perdido.

Como vou explicar essa ida à Goiânia? Arrumei um trampo temporário? Depois de tanto tempo desempregado, não recusaria nem em Macapá. Não, Macapá acho que não. Mas Goiânia… Já estive lá. Quente pracaralho. E realmente tem mulher bonita. Mas não tava afim de viajar agora. Ok, minha vida em São Paulo não tá nenhuma maravilha, mas pelo menos gosto da cidade. E tenho esperanças de que ela um dia goste de mim também. A cidade, não a Mila. Essa não gosta de ninguém.

– Por que a gente não vai de avião pra Goiânia?

– E perder a oportunidade de dirigir esta belezinha na estrada? Nem fudendo.

– Pelo menos a gente chegaria mais rápido e resolveria a parada o quanto antes.

– A parada só vinga quando a gente chega. Então… curte o som e acende o beise.

(A íntegra, aqui)

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