O tolo – Neil Gaiman

fool

“Sabe o que é mais triste?”, disse ela. “O mais triste é que somos vocês.”

Fiquei calado.

“Na sua fantasia”, disse ela, “meu povo é como vocês. Só que melhor. Não morremos ou envelhecemos ou sofremos de dor ou frio ou sede. Nos vestimos mais elegantemente. Temos a sabedoria de longos tempos. E se queremos sangue, bem, não é muito diferente de quando vocês querem comida ou afeto ou luz do dia – e além disso, nos faz sair de casa. Cripta. Caixão. O que for.”

“E a verdade é?”, perguntei a ela.

“Que nós somos vocês,” disse ela. “Somos vocês com todos os problemas e todas as coisas que fazem vocês humanos – seus medos, solidão e confusão… nada disso melhora.”

“Mas somos mais frios que vocês. Mais mortos. Sinto falta da luz do dia e da comida e de saber como é tocar alguém e ter carinho. Eu lembro da vida, e de encontrar as pessoas como pessoas e não apenas como alimento ou coisas a serem controladas, e me lembro de como é sentir alguma coisa, qualquer coisa, alegria ou tristeza ou qualquer coisa…”

E então ela parou.

“Você está chorando?”, perguntei.

“Não choramos”, ela falou.

Como eu disse antes, ela é uma mentirosa.

(Uma das historias da coleção “15 Cartas Pintadas de um Tarô de Vampiro, Neil Gaiman em Coisas Frágeis)

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