Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.
(tradução Haroldo de Campos)
Basta-me um mínimo:
lasca de pão,
gota de leite
e, céu acima,
nuvens alvíssimas.
(tradução Haroldo de Campos)
“E o amor saltou sobre nós como um gato preto salta de um beco escuro…”
o amor em sua ilusão
é como o fumo que se queima
e sabe em seu fogo
a existência.
mas enquanto se esvai,
atribui à boca que o traga
sua permanência.
o amor em sua metafísica
canta como os galos
que sabem alvorecer a manhã
mas tornam ao sono
na esperança de que o
próprio canto os desperte.
(Poema de Flávio Morgado publicado em seu primeiro livro, Um Caderno de Capa Verde, de 2013, pela editora 7 Letras)
Bem-vindos à nausea online, azeda como um prato de arroz vencido que como por entre fileiras de formigas ativas e baratas à espreita.
Que caiam restos de meu banquete para celebrarmos, nas frestas de um castelo em ruínas, a derrota dos renegados.
Pois também vou festejar, pequeninas companheiras insones.
Em zigue-zague altivo, o mendigo ultrajante lhes oferece o grão.
O labirinto é sua casa! Ocupem!
Fanfarras às alturas!
Em meu pulmão respiro a fumaça toxica de mais um consolo indigente. Alimento dos desesperados.
Que venha a avalanche!
Deixemos as pedras rolarem por todo canto.
Somos ínfimos e inatingíveis para tudo que pesa e destroça.
Se colocam a lâmina enferrujada em nosso peito, com o dedo nos lábios peçamos silêncio e empurremos o punhal ao fundo, para que encontre a sólida rocha que bombeia sangue arenoso.
Pragas que somos, sobreviveremos a mais uma noite.
Somos nela invisíveis.
Zumbizemos até a aurora.
E mastiguemos as pedras pela eternidade na fria correnteza que nos levará além.

(imagem do filme Os Amantes, de Louis Malle – 1958)
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
“Esvazie sua mente… seja disforme, como a água. Você coloca água num copo, ela se torna o copo. Coloca água numa garrafa, ela se torna a garrafa, você coloca água num bule, ela se torna o bule. A água pode fluir ou pode colidir. Seja água, meu amigo… ”
(Bruce Lee)
“Crianças exibem suas cicatrizes como medalhas. Amantes a usam como segredos a serem revelados. Uma cicatriz é o que acontece quando a palavra se torna carne. É fácil exibir feridas, as orgulhosas cicatrizes de guerra. O difícil é ter espinhas.”