“Normal é uma ilusão. O que é normal para a aranha, é caos para a mosca” – Morticia Addams
“Normal é uma ilusão. O que é normal para a aranha, é caos para a mosca” – Morticia Addams
Quem fala que sou esquisito hermético
É porque não dou sopa estou sempre elétrico
Nada que se aproxima nada me é estranho
Fulano sicrano e beltrano
Seja pedra seja planta seja bicho seja humano
Quando quero saber o que ocorre à minha volta
Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
Experimento tudo nunca me iludo
Quero crer no que vem por aí beco escuro
Me iludo passado presente futuro
Reviro na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo sentir de todas as maneiras
É a chave de ouro do meu jogo
De minha mais alta razão
Na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão
Флейта-позвоночник
(dedicado a Lila Brik)
A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila, veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos na flauta de minhas próprias vértebras.
(Tradução: Haroldo de Campos)
(As outras três partes do poema estão aqui)
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…
Em um Universo que já tem 10 ou 15 bilhões de anos, estamos constantemente esbarrando em surpresas. (Carl Sagan)
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
“Porque ninguém vai dormir nosso sonho”

(Imagem do filme A Terceira Geração, de 1979)
Rainer Werner Fassbinder em entrevista à Frank Ripploh:
Ripploh: Um homem pode ser classificado em muitas categorias diferentes: democrata, tirano, cristão, desobediente, anarquista, liberal, conservador etc. Como é que você se descreve?
Fassbinder: Eu sou um anarquista romântico.
Eis, enfim, os vídeos de dois dos pontos altos do show de ontem do Jards Macalé no Auditório Ibirapuera: Walter Franco no palco mandando ver ‘Canalha’ e a galera saindo do teatro cantando Juízo Final, do Nelson Cavaquinho.
O sol….há de brilhar mais uma vez
A luz….há de chegar aos corações
Do mal….será queimada a semente
O amor…será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer
(trailer de JARDS)
Poucas coisas emocionam tanto quanto ver um artista que vc admira de longa data ainda ser capaz de surpreender e tirar do eixo a plateia que for. Experimentei essa emoção hoje no Auditório do Ibirapuera, que teve sessão dupla de Jards Macalé: filme-poema musical do Eryk Rocha sobre o artista e depois um show com o próprio Jards e a banda Let’s Play That.
O filme usa as gravações do disco Jards (2011), com Luiz Melodia, Elton Medeiros, Frejat, Calcanhoto, Kassin, Victor Blignione, etc etc repassando carreira do cantor e compositor, para montar um painel onírico do aniversariante (Jards fez 70 anos este mês) e nos oferecer um pouco de sua rotina entre afinações, encontros, lembranças e o mar. O trailer taí em cima.
Mas quero mesmo é falar do show que veio em seguida.

(Momento canalha com Walter Franco, um dos pontos altos da noite. Foto do meu camarada Ricardo Queiroz, com quem esbarrei por lá. Ele também publicou suas impressões do show, confira aqui)
Porra, meu caro, Tu tá afiado, hein? Desfiar quase duas dezenas de canções da maneira orgânica como tu fez em Canalha ou Soluços, divertir o público e a si mesmo, esquecendo letra, contando causos ou implicando com a molecada que dividia o palco, e deixar a plateia enbasbacada em boa parte do show… cara, não é pra qualquer um. E que final foi aquele? Os seis músicos mandando ver nas caixinhas de fósforo (a la Elton Medeiros) e vc humildemente pedindo ao público um presente de aniversário do além: que saíssemos todos cantando Juízo Final. Não sei se vc viu a cena – se perdeu depois busca no youtube, vai ter de tudo quanto é ângulo – foi um delírio em massa, meus olhos viram a maldade desaparecer e o amor vencer e se eternizar por aqueles efêmeros minutos. Todo mundo desfilando solenemente, descendo a rampa do auditório cantando, batucando onde dava, e depois transformando o saguão lá embaixo numa louvação ao bem querer. Foi feitiço dos bons – e vc o mago que conjurou.
Cantemos, pois!
Fazia tempo que nao ia num show que dá vontade de ficar trocando impressoes noite adentro sobre detalhes, o sentido cosmico daquele encontro, papo brabo pós-manguaça e fumacê, que vc aos 70 resgata pr’uma plateia cada vez mais jovem. Tenho certeza de que todos ali saíram querendo mais. Que escutem, baixem, comprem! Ei, vcs que homenagearam o Chorão do outro lado da rua com seus skates, numa ocupação bonita de se ver, saibam que a poesia e inconformismo do jovem ídolo (sobre)vive em muitas cabeças por aí! Não percam o foco!
Tu fez o teatro ficar (quase) em silêncio por mais de quatro minutos na interpretação única da composição do John Cage, cantou de costas sem parecer ofensivo, errou a letra, emendou, zoou, riu (de si mesmo até), pediu pra ser vaiado (em memória do show no Maracanazinho em 1969 – “São Paulo tambem sabe vaiar!”) e celebrou a dor canalha num dueto com Walter Franco, ovacionado de pé. Ave, Waly! Ave, Torquato! Ave, John Cage! Ave, Capinan! Ave, Chacal! Ave, Nelson! Ave, Elton Medeiros! Ave, Melodia! Ave, Walter Franco! Ave, Lanny! Estou aqui agora ouvindo seu primeiro disco, powertrio Macalé, Gordin e Moreno, Farinha do Desprezo é mode repeat – com direito a Vapor Barato só no sapatinho.
Sem mais. Segue o repertório do show (com respectivos links pra curtir o som, mas nas versões originais, porque nao encontrei bons videos com as do show…):
– Let’s Play That (do disco Jards Macalé, de 1972 – um dos melhores discos ja feitos por aqui!) – ouça
– Farinha do Desprezo (Jards Macalé, 1972) – ouça
– Revendo Amigos (Jards Macalé, 1972) – ouça
– Negra Melodia (Contrastes, 1977) – ouça
– Só Morto (Burning Night) (do compacto duplo de 1970, com o grupo Soma. Vai de 6:28 a 11:09 no video) – ouça
– Mal Secreto (Jards Macalé, 1972) – ouça
– Anjo Exterminador (Aprender a Nadar, 1974) – ouça
– Movimento dos Barcos (Jards Macalé, 1972) – ouça
– Vapor Barato (Jards Macalé, 1972) – ouça (com a Gal, que como bem lembrou Jards, foi quem introduziu o ‘graças a Deus’ na música, pra desespero do Waly. “Mas Gaaaaal, Deus não rima com dinheiro!!”)
– Pano Pra Manga (Let’s Play That, 1994 – com participação especial de Naná Vasconcelos) – ouça
– Gotham City (aqui o áudio original da apresentação no IV Festival Internacional da Canção de 1969, no Maracanãzinho, em que tomou uma vaia gigantesca e saiu do palco detonando a horda. Aquilo foi mais radical do que Bob Dylan ir ao festival Newport de Folk em 1965 com uma guitarra elétrica) – ouça
– 4’33 (John Cage) – ouça
– Último Desejo (só achei no show que fez na Ocupação Cultural do Canecão feita por alunos da UFRJ, em agosto de 2012) – ouça
– Dona de Castelo (Aprender a Nadar, 1974) – ouça
– Boneca Semiótica (Aprender a Nadar, 1974) – ouça
– Juízo Final (com Elton Medeiros na caixinha de fósforo, da trilha do filme) – ouça
– Soluços (compacto duplo, de 1970, com o grupo Soma) – ouça
– Canalha (vai a versão original do Walter Franco, enquanto ninguém sobe o encontro dele com Jards neste domingo no palco do auditório Ibirapuera) – ouça
– Farrapo Humano (Jards Macalé, 1972) – ouça
(Podia ter feito uma playlist, mas nao lembro como embedar ela)
Agora é esperar a galera que sacou seus celulares e afins antes, durante e principalmente depois do show
subir os vídeos pros youtube da vida e rechear mais o post mais tarde. Afinal, tenho a noite toda… 🙂