Macalé assombra Gotham City (mais uma vez)


(trailer de JARDS)

Poucas coisas emocionam tanto quanto ver um artista que vc admira de longa data ainda ser capaz de surpreender e tirar do eixo a plateia que for. Experimentei essa emoção hoje no Auditório do Ibirapuera, que teve sessão dupla de Jards Macalé: filme-poema musical do Eryk Rocha sobre o artista e depois um show com o próprio Jards e a banda Let’s Play That.

O filme usa as gravações do disco Jards (2011), com Luiz Melodia, Elton Medeiros, Frejat, Calcanhoto, Kassin, Victor Blignione, etc etc repassando carreira do cantor e compositor, para montar um painel onírico do aniversariante (Jards fez 70 anos este mês) e nos oferecer um pouco de sua rotina entre afinações, encontros, lembranças e o mar. O trailer taí em cima.

Mas quero mesmo é falar do show que veio em seguida.

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(Momento canalha com Walter Franco, um dos pontos altos da noite. Foto do meu camarada Ricardo Queiroz, com quem esbarrei por lá. Ele também publicou suas impressões do show, confira aqui)

Porra, meu caro, Tu tá afiado, hein? Desfiar quase duas dezenas de canções da maneira orgânica como tu fez em Canalha ou Soluços, divertir o público e a si mesmo, esquecendo letra, contando causos ou implicando com a molecada que dividia o palco, e deixar a plateia enbasbacada em boa parte do show… cara, não é pra qualquer um. E que final foi aquele? Os seis músicos mandando ver nas caixinhas de fósforo (a la Elton Medeiros) e vc humildemente pedindo ao público um presente de aniversário do além: que saíssemos todos cantando Juízo Final. Não sei se vc viu a cena – se perdeu depois busca no youtube, vai ter de tudo quanto é ângulo – foi um delírio em massa, meus olhos viram a maldade desaparecer e o amor vencer e se eternizar por aqueles efêmeros minutos. Todo mundo desfilando solenemente, descendo a rampa do auditório cantando, batucando onde dava, e depois transformando o saguão lá embaixo numa louvação ao bem querer. Foi feitiço dos bons – e vc o mago que conjurou.

Cantemos, pois!

Fazia tempo que nao ia num show que dá vontade de ficar trocando impressoes noite adentro sobre detalhes, o sentido cosmico daquele encontro, papo brabo pós-manguaça e fumacê, que vc aos 70 resgata pr’uma plateia cada vez mais jovem. Tenho certeza de que todos ali saíram querendo mais. Que escutem, baixem, comprem! Ei, vcs que homenagearam o Chorão do outro lado da rua com seus skates, numa ocupação bonita de se ver, saibam que a poesia e inconformismo do jovem ídolo (sobre)vive em muitas cabeças por aí! Não percam o foco!

Tu fez o teatro ficar (quase) em silêncio por mais de quatro minutos na interpretação única da composição do John Cage, cantou de costas sem parecer ofensivo, errou a letra, emendou, zoou, riu (de si mesmo até), pediu pra ser vaiado (em memória do show no Maracanazinho em 1969 – “São Paulo tambem sabe vaiar!”) e celebrou a dor canalha num dueto com Walter Franco, ovacionado de pé. Ave, Waly! Ave, Torquato! Ave, John Cage! Ave, Capinan! Ave, Chacal! Ave, Nelson! Ave, Elton Medeiros! Ave, Melodia! Ave, Walter Franco! Ave, Lanny! Estou aqui agora ouvindo seu primeiro disco, powertrio Macalé, Gordin e Moreno, Farinha do Desprezo é mode repeat – com direito a Vapor Barato só no sapatinho.

Sem mais. Segue o repertório do show (com respectivos links pra curtir o som, mas nas versões originais, porque nao encontrei bons videos com as do show…):

– Let’s Play That (do disco Jards Macalé, de 1972 – um dos melhores discos ja feitos por aqui!) – ouça

– Farinha do Desprezo (Jards Macalé, 1972) – ouça

– Revendo Amigos (Jards Macalé, 1972) – ouça

– Negra Melodia (Contrastes, 1977) – ouça

– Só Morto (Burning Night) (do compacto duplo de 1970, com o grupo Soma. Vai de 6:28 a 11:09 no video) – ouça

– Mal Secreto (Jards Macalé, 1972) – ouça

– Anjo Exterminador (Aprender a Nadar, 1974) – ouça

– Movimento dos Barcos (Jards Macalé, 1972) – ouça

– Vapor Barato (Jards Macalé, 1972) – ouça (com a Gal, que como bem lembrou Jards, foi quem introduziu o ‘graças a Deus’ na música, pra desespero do Waly. “Mas Gaaaaal, Deus não rima com dinheiro!!”)

– Pano Pra Manga (Let’s Play That, 1994 – com participação especial de Naná Vasconcelos) – ouça

– Gotham City (aqui o áudio original da apresentação no IV Festival Internacional da Canção de 1969, no Maracanãzinho, em que tomou uma vaia gigantesca e saiu do palco detonando a horda. Aquilo foi mais radical do que Bob Dylan ir ao festival Newport de Folk em 1965 com uma guitarra elétrica) – ouça

– 4’33 (John Cage) – ouça

– Último Desejo (só achei no show que fez na Ocupação Cultural do Canecão feita por alunos da UFRJ, em agosto de 2012) – ouça

– Dona de Castelo (Aprender a Nadar, 1974) – ouça

– Boneca Semiótica (Aprender a Nadar, 1974) – ouça

– Juízo Final (com Elton Medeiros na caixinha de fósforo, da trilha do filme) – ouça

– Soluços (compacto duplo, de 1970, com o grupo Soma) – ouça

– Canalha (vai a versão original do Walter Franco, enquanto ninguém sobe o encontro dele com Jards neste domingo no palco do auditório Ibirapuera) – ouça

– Farrapo Humano (Jards Macalé, 1972) – ouça

(Podia ter feito uma playlist, mas nao lembro como embedar ela)

Agora é esperar a galera que sacou seus celulares e afins antes, durante e principalmente depois do show
subir os vídeos pros youtube da vida e rechear mais o post mais tarde. Afinal, tenho a noite toda… 🙂

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2 respostas para Macalé assombra Gotham City (mais uma vez)

  1. noite mágica e redentora para esta SP tão dura com todos, Macalé manda cada vez mais às favas o rótulo preguiçoso de maldito e fez a platéia cantar a música brasileira….grande post Jorge…

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