À Garrafa – José Paulo Paes #umpoemapordia

Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,

numa explosão
de diamantes.

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Devenir, Devir – Waly Salomão #umpoemapordia

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

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O Corvo, poema de Poe, narrado por grandes vozes

Há 204 anos, nascia em Boston (EUA) um dos grandes da literatura mundial: Edgar Allan Poe. Pra celebrar, garimpei no Youtube algumas narrações do poema O Corvo. Só isso, e nada mais… 🙂

por Christopher Walken

por James Earl Jones (a voz de Darth Vader)

por Vincent Price (na legenda, a tradução para o português feita por Fernando Pessoa

por John de Lancie

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Documentário sobre Ziggy Stardust, de David Bowie

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Animação com a biografia do James Brown

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Não vás tão gentilmente nessa boa noite escura – Dylan Thomas #umpoemapordia

Não vás tão gentilmente nessa boa noite escura

(Dylan Thomas)

Não vás tão gentilmente nessa boa noite escura,
Os velhos deveriam arder e bradar ao fim do dia;
Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura.

Os homens sábios, em seu fim, sabem com brandura,
O porquê a fala de suas palavras estava vazia,
Nâo vão tão gentilmente nessa boa noite escura.Os homens bons, ao adeus, gritando como a alvura
De seus feitos frágeis poderia ter dançado em uma verde baía,
Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura.

Os homens selvagens que roubaram e cantaram o sol na altura,
E aprenderam, tarde demais, que o lamento toma sua via,
Não vão tão gentilmente nessa boa noite escura.

Os homens graves, perto da morte, enxergam com olhar que perfura,
O olho quase cego a brilhar como meteoro, então, cintilaria,
Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura.

E você, meu pai, do alto e acima de tudo que perdura,
Maldiga, abençoe, com sua lágrima triste, eu pediria:
Não vá tão gentilmente nessa boa noite escura,
Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura

(Tradução: Rodrigo Suzuki Cintra)

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Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

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Major Tom em Saturno

A matemática e a poesia tem as mesmas raízes. (M.C. Escher)

Imagem de Saturno tirada pela sonda Cassini

Essa foto de Saturno, tirada pela sonda Cassini em agosto passado, quando passava a 2,4 milhões de quilômetros do planeta, é de tirar o fôlego. Passei um bom tempo olhando pra ela e pensando na frase do Arthur C. Clarke: “Há 2 possibilidades: ou estamos sozinhos no Universo ou não estamos sozinhos. Ambos os casos são aterrorizantes.” Realmente, estar sozinho nesse espaço infinito é tão estranho quanto imaginar outras milhares formas de vidas se desenvolvendo em insondáveis planetas galáxias afora…

Lá no cantinho esquerdo da imagem, vemos uma das muitas luas de Saturno, Tétis, que na mitologia grega era uma titânide, filha de Urano e Geia, representada por uma jovem que passeia pelo mundo numa concha de marfim, puxada por cavalos brancos. Os milhares de anéis que vemos na imagem são compostos de gelo, poeira estelar e rochas de variados tamanhos. Fazem sombras no planeta porque o sol Cassini tirou a foto no contraluz do sol. Leia mais sobre essa passagem da Cassini por Saturno no blog Bad Astronomy, da Slate.

Parabéns, Cassini, você é uma baita fotógrafa!

E ao ver a foto, imediatamente me veio à mente a música Space Oddity, do Bowie – sobre o astronauta Major Tom que decide vagar pelo universo para todo sempre…

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Sonho ou realidade? Importa?

A chance de estarmos sonhando neste exato momento é mais provável do que ganhar na loteria ou morrer inesperadamente num acidente de carro. Muito mais ainda do que coisas teoricamente possíveis, como um macaco escrever as obras completas de Shakespeare ao bater aleatoriamente numa máquina de escrever ou objetos desaparecerem pelo efeito conhecido como “encapsulamento quântico”. De todas essas possibilidades, estar sonhando quando pensamos estar acordados é bem mais provável – bizarro, não? O que é real, o que é sonho?

Mas faz alguma diferença? Para Jan Westerhoff, professor de filosofia da Universidade de Durham e pesquisador de metafísica e filosofia indo-tibetana, nem um pouco. O  que vale mesmo são as experiências que tiramos do sonho-realidade:

“Mesmo se eu estiver sonhando agora mesmo, ainda serei capaz de planejar minha vida, à causa seguirá o efeito, e ações ainda terão conseqüências. E claro, essas conseqüências serão apenas conseqüências-sonho, mas dado que estabelecemos anteriormente que eu não teria a capacidade de dizer “de dentro” se estou sonhando ou não, porque me preocuparia sobre isso?

O mundo das experiências ainda é o mesmo, e isso é tudo que importa, no final das contas.”

Westerfhoff discute a questão “o que é real?” no livro Realidade: Uma Introdução Bem Curta‘, sob a luz de argumentos da filosofia, física e ciência cognitiva. ”

Vale lembrar que tudo que vemos no mundo, com exceção da natureza, é fruto do mundo das ideias, que veio à realidade por meio da nossa imaginação e criatividade…

Um sonho dentro de um sonho
(Edgar Allan Poe)

Tome este beijo sobre a têmpora
e, partindo de ti agora,
muito a dizer nesta franca hora
Você não está errado, quem diria
que meus sonhos têm sido o dia;

Ainda se a esperança fosse um açoite
em um dia, ou numa noite,
numa visão, ou em ninguém
É isso então o que está aquém?

Tudo o que vejo, tudo o que suponho
É só um sonho dentro de um sonho.

As ondas quebram e fico no meio
de uma praia atormentada
e eu seguro em minhas mãos
uns grãos de areia dourada –
Quão poucos! E como se vão
Pelos meus dedos para o nada,
enquanto eu choro, enquanto eu choro!

Ó Deus! Eu Vos imploro:
Não posso mantê-los em minha teia?
Ó Deus! Posso eu proteger
das duras ondas um grão de areia?

Será que tudo o que vejo e suponho
É só um sonho dentro de um sonho?

 

A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

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100 músicas de J.J. Cale

JJ

J.J. Cale é um dos meus músicos favoritos. Guru de Eric Clapton, é um guitarrista ‘low profile’, sem muito virtuosismo, mas muito preciso, cada nota parece estar no lugar certo sempre. Tira um som tranquilo, daqueles para se curtir num fim de tarde, saca?

Achei esta playlist com 100 músicas dele hoje lá no Youtube. E compartilho aqui. Bom som pra nós!

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Tarde fria

“Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.”

(Rubem Braga, em A Traição das Elegantes)

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