Xingamento

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Frank Zappa em Montreux 1971

Estava eu garimpando o Youtube pra ter uma madrugada mais musical e eis que encontro esta preciosidade. É o show do Frank Zappa citado na música Smoke on the Water, do Deep Purple, durante o qual o cassino de Montreux pegou fogo. Não é que acharam o áudio do show?!?

No finalzinho da apresentação dá para escutar o barulho do incêndio comendo o teatro e tal. Louvado seja quem descobriu e, principalmente, quem colocou no Youtube!!

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Zen Passado – parte 6: A Volta

Foto: Jorge Henrique Cordeiro
(Foto: O Escriba)

Nada na geladeira. Saco, esqueci de pedir pro Valtinho me deixar no mercado. Vou me virar com esse pão por enquanto. Depois desço pra comprar alguma coisa. Pão e cigarros, dieta boa essa. Preciso descansar. O dia foi pra lá de confuso. O acidente, a parada que foi pras cucuias, aquele velho bizarro, Mila… Tô ficando obsessivo com essa mulher, melhor deixar o beque pra depois.

Que horas são? Acho que dá tempo de pegar um rango lá no bar do Pedrão. Amanhã abasteço a geladeira pra ‘guentar a semana.

O bar do Pedrão foi onde conheci boa parte dos meus amigos paulistas. Frequento desde que cheguei por estas bandas. O clima é ótimo, a filha do Pedrão é linda e o som de responsa. A comida também não é ruim. Vem servida e o preço é honesto. Quem trabalha por perto sabe e prestigia. Isso contribui pra diversidade do lugar. Tem de tudo: músicos, pedreiros, estudantes, desgarrados como eu que não têm lugar melhor pra ir e a moçada que vaga a cidade em busca de novos picos descolados pra comentar depois no ‘feice’ sobre ‘o lugar incrível que ninguém conhece’. Mas justiça seja feita: é essa moçada que dá o tempero de noite alternativa ao bar do Pedrão. Frequentam um tempo, indicam a conhecidos, trazem novas figuras, e o público se renova.

E tem o roquenrol de primeira, que Pedrão, como bom colecionador de bandas 60-70, nunca deixa faltar. Certa vez levei um CD com uns sons do Traffic que garimpei pela web e ele perdeu a linha. Deixou o bar de lado e veio pra mesa, trocar ideia sobre ‘a idade do ouro do rock’, como ele coloca sem margem para contra-argumentações. E ainda apresentou uma caninha das boas.

Chego com o bar ainda meio vazio. Cumprimento Pedrão, sua filha, um ou outro conhecido que já devoram a prata da casa, carne assada no molho de pimentão, e me ajeito numa mesa qualquer. Peço o de sempre e uma cerveja. Como boas-vindas, Pedrão coloca a minha preferida do Traffic. O que posso querer mais da vida?

A filha do Pedrão está cada dia mais gata. Ela sabe disso, mas não é afetada. Conversa com todo mundo, sempre sorrindo. Não precisa provar nada a ninguém. E curte roquenrol. Mina perfeita.

Plínio, um chegado que sempre encontro no bar, aparece pouco depois.

– Faaala ae, meu? Tudo certo? Que cara é essa?

– Nào tive o melhor dos dias. E aí, qual a boa?

– Tô só passando pra tomar uma antes de colar ali no Jazz. Vamos?

– Até seria uma, mas fica pra próxima. Vou bater um rango, curtir um som por aqui mesmo e depois vazar. Quem tá tocando hoje?

– Uns cubanos, dos bons. Já tá bombando na porta. E o Valtinho?

– Cara, nem me fala no Valtinho… rei das furadas.

– Hahahahaha, você também não aprende! Cara, se ele diz que tem uma boa, desconfie. Sempre!

– É, vou tentar lembrar disso da próxima vez.

Recebo uma mensagem no celular. Do Valtinho. Não morre mais.

Cara, olha o estado do meu nariz!! Ficou pior do que o carro! kkk

 

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

– Quem é esse? Atropelado?

– É o Valtinho, acabou de me mandar. Na verdade, ele atropelou um carro. Tava com ele. Na estrada, indo pra Goiânia. Longa história…

Nem tão longa assim. Chegou meu rango. E a Mila também. Porra, só me faltava essa.

– E aí, tudo?

– Tudo.

– Te liguei ontem, você não atendeu…

– É, eu vi, mas não deu pra retornar.

– Tudo bem. Posso me sentar?

– Claro, esse é meu amigo Plínio.

– Olá, tudo?

Mila está vestida com seu sorriso franco de filme de terror. É sincero demais pra ser coisa boa. Mas é irresistível. Meu camarada não tira os olhos dela – e de seu decote, discreto porém insinuante. Ela corresponde com o olhar e ergue o copo pra ele encher. Sua linguagem corporal é perfeita. Como um gato, se movimenta com elegância, nos mínimos detalhes, como se calculasse milimetricamente a beleza de cada gesto. Parece uma pintura em movimento.

Termino de comer e os dois já parecem íntimos. Falam amenidades e Mila ri alto, exagerando na entonação para parecer interessada. Ela não costuma errar nos botes que dá.

Peço mais uma cerveja e, enquanto Mila vai ao banheiro, Plínio se mostra empolgado. Como num ‘deja-vu’, sei exatamente o que ele vai dizer.

– Ajeitadinha essa tua amiga, hein?

– Total. Vai fundo.

– Não tá contigo?

– Não… somos conhecidos apenas.

– Vou convidar pro Jazz. Será que ela topa?

– Por que você não tenta?

Dou uma força pra Plínio fazer o convite. Falo do Jazz e Mila comenta algo sobre o lugar. Plínio diz que pretende ir lá e pergunta se ela não quer ir.

Mila topa, claro. Finge estar chateada porque não vou e dá uma daquelas gargalhadas com empolgação calculada, do nada. Ao saírem, noto que está usando uma daquelas calças justas que torneiam coxas, batatas e bunda. Indo é um espetáculo como poucos. Nunca fiquei tão feliz em vê-la se distanciando.

Chega de furadas. Uma parece chamar a outra, num ciclo incessante. Posso não evitar 100% as roubadas, mas adquirimos um bom desconfiômetro com o tempo. O meu tá tinindo, eu é que insisto. Como as portas trancadas daquele sonho… Só mais uma, só mais uma. Cara, a porta trancada não vai abrir, a roubada não vai virar o tesouro no fim do arco-íris.

Não posso ficar dependendo das paradas do Valtinho. Não têm rendido tanta grana assim e são esporádicas. Tenho que trampar, com carteira assinada, seguro saúde, ticket restaurante. Sair da merda pelo caminho mais entediante. Amanhã vou bater perna pra procurar emprego. Só não volto a dar aulas. Não tenho mais saco.

O último cigarro da noite tem um sabor especial. Acompanho a fumaça dançar pelo ar, guardo a guimba pr’alguma emergência e apago a luz. Os demônios que vão se acumulando durante o dia estão em polvorosa. Se agitam sob o teto empoeirado. Hora de dar um ‘defrag‘ geral na mente, arrumar os caixotinhos de frustrações, neuras, sonhos, ansiedades e preocupações.

O diabo está na desordem.

Boa noite, meus pequeninos companheiros diabólicos. Me acordem como anjos.

(A íntegra, aqui)

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Dor Elegante – Itamar Assumpção e Paulo Leminski

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

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Zen Passado – parte 5: O Velho

A dor é estranha. Um gato matando um pássaro, um acidente de carro, um incêndio… A dor chega, BANG, e lá está, senta em você. É real. E para qualquer um olhando, você parece abobalhado. Como se você de repente se transformasse num idiota. Não há cura para ela a menos que você conheça alguém que entenda como você se sente, e saiba como ajudar.

(Charles Bukowski)

 

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Foi uma pancada e tanto. Colamos no carro da frente.

Como isso foi acontecer? Só Valtinho pode responder. Quando acordei, mal tive tempo de retesar a musculatura pra absorver o impacto. Rodopiamos pela pista, junto com o carro da frente, até pararmos no acostamento. Fiquei zonzo, mas me mantive consciente. Uma dor lancinante me invadiu o pescoço. Olhei pro lado e vi Valtinho com os olhos vidrados, limpando o sangue do rosto.

– Caraca, que foi isso??

– Uma batida, ao que parece… tudo bem aí? Tá inteiro?

– Acho que quebrei o nariz. E você?

– Quase fui decapitado, mas escapei por pouco. Vamos sair daqui.

Confiro a integridade dos ossos e saio do carro. O motorista da frente está possesso, gesticula como um louco, puto com a manobra que a gente fez. Seguro o cara a duras penas.

Os carros ficaram bem zoados. Apesar a força do choque, ambos os motores ainda funcionam. Dá pra seguir viagem.

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Trocamos telefones com o outro motorista, já mais calmo, e consultamos o seguro do carro pra pegar algumas coordenadas. Saio pra procurar um lugar pra lavar a cabeça e tomar uma água. Não estávamos mais na estrada principal. Valtinho, não sei porque cargas d’água, entrou em alguma vicinal, não saberia dizer exatamente onde. Bem em frente ao acidente tem uma pequena igreja, onde um corpo está sendo velado. Todos que ali estavam saem para ver a batida. Conseguimos mais atenção que o morto.

Um senhor de benguala se aproxima devagar. Para ao meu lado, escarra displicentemente e me encara. Não diz uma palavra. Me olha como se já nos conhecêssemos. Seus olhos são duros, quase opacos. Parecem congelados. Meu deu certa aflição e desvio o olhar.

– Há vida apesar da morte…

E escarra de novo. Por um instante vi no velho algo xamânico. Ele parece estar olhando além, por entre os carros, nossos corpos, as nuvens. Não senti vontade – ou melhor, necessidade – de conversar com ele, estávamos num estado de comunicação além da palavra, eu simplesmente entendia sua presença. Isso bastou. Senti a dor do pescoço amainar. Yo no creo, pero…

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O velho balbucia algo, não deu pra entender, e se cala. Ficou ali, ora me encarando, ora olhando para o céu. As nuvens dissiparam, acabou a chuva. Valtinho retorna do bar, onde lavou o rosto. Ainda havia sangue em uma de suas narinas.

– Por que saímos da estrada?

– Cara, era rapidinho, só ia passar na casa de um camarada. Você não ia nem perceber, quando acordasse já estaríamos de volta à estrada… porra, que merda! Destruí o carro!

– Pelo menos ainda anda. Só acho que não chega a Goiânia.

– Não mesmo, vamos ter que voltar.

– E a parada?

– Já era…

O velho dá meia-volta e retorna ao velório. As demais pessoas o seguem.

Me acostumei com as frustrações. Minha vida tem sido uma sequência ininterrupta delas. Algumas tiro de letra. Outras são mais foda de absorver. Ficam lá no fundo, latejando discretamente, o suficiente apenas para me lembrar que existem. Finjo que não é comigo e sigo em frente. Se perturbam demais, tomo um porre, arrumo uma foda descompromissada ou durmo. Nos sonhos, sem as algemas da consciência, as frustrações são até divertidas. Pareço ter mais controle sobre elas quando estamos no universo inconsciente. Algumas até desistem de me perturbar depois que as embaralho com minhas pirações internas, loucuras e taras inconscientes… Sou mais eu e minhas neuras.

A volta pra casa está estranha. O cair da tarde é deslumbrante mas eu e Valtinho nem percebemos. Estamos bem amuados. Não sem razão, claro.

– Que velho esquisito aquele. O que vocês conversaram?

– Nada, ele mal falou.

– Tu viu que tinha um velório rolando em frente ao local do acidente?

– É, aquilo sim foi bizarro. Não sei se teria espaço pra mais dois defuntos ali…

– Tu achou que a gente ia morrer?

– A gente vai morrer. Só não foi agora.

Valtinho dirige mais devagar agora, certamente com medo de estourar o carro de vez no meio daquele fim de mundo. Não acendeu um baseado sequer, como fez sistematicamente a cada 100km na ida. Eu penso no velho e naquele olhar petrificado. Não saberia decifrar sua presença, nem como ela me afetou. Há coisas que simplesmente são.

Não vou mais ligar pra Mila.

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada

Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada

(Aqui a íntegra da novela Zen Passado)

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Harlem Shake no Bar do Biu

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A histérica

Dizaê, Maria Rita Kehl:

De fato, uma histérica pode facilmente identificar-se como alguém que blefa – não o tempo todo, não enquanto o sintoma está em pleno funcionamento, mas quando alguma coisa falha e ela se depara com o vazio por trás do semblante. Qual o blefe da histérica? sobretudo, o blefe do amor. Ao se fazer toda entrega, toda objeto para o desejo do outro, ela aposta no outro para que lhe indique algo a respeito do ser. ‘Eu me dou toda, embrulho para presente a minha castração para que o homem, com seu desejo (e sua potência fálica), me faça uma mulher’. A mulher dele. Este é um blefe muito caro aos psicanalistas, e não são raros os que acreditam nele. Mas custa caro à histérica, que “escolhe” (no sentido que se atribui a uma escolha de neurose) renunciar ao que se possa construir pela via do ter – uma vida, um nome próprio, um destino, uma história – para apostar tudo na via do ser. Ser o falo para o outro. Feita esta manobra, a histérica aposta tudo num amor que ela pode exigir que seja excessivo, a fim mascarar o ódio se ela sente por tentar ficar o tempo todo, para o outro, do lado da castração. Do lado da que nada sabe, da bobinha que (finge que) acredita que o homem amado detenha o falo e o saber. Da que depende de que o outro lhe diga, etc.A histérica blefa que ama. Ela vai cair fora na primeira oportunidade, ou na primeira decepção – quando vier a perceber que o homem não tem nada a lhe esclarecer sobre quem ela é, já que só pode lhe devolver (caso esteja apaixonado) o efeito de sua própria mentira.

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Zen Passado – Parte 4: O Acidente

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”
(José Saramago)

Odeio quando dá ocupado. Você sabe que a pessoa está lá, ao alcance das frequências, mas não consegue falar. Tudo que você pensou em dizer fica engasgado.

Ocupado de novo.

Ah, foda-se.

– Chuvinha chata essa. Tenho que botar aquela parada na porta pra evitar de pingar aqui dentro. Vida de motorista e fumante é foda…

– São Paulo, terra da garoa…

– Já saímos de São Paulo. Eu moraria fácil aqui, nas franjas da megalópole. A gigante selva tecnológica pulsando ali adiante, aquela maçaroca de gente pra tudo quanto é lado, e vc aqui, curtindo horizonte, ar puro, mas dependente da selva. Tirando o seu sustento de lá. Morar em São Paulo hoje é meio como viver no próprio escritório.

Ar puro. Pode ser. Mas o ar tóxico das grandes cidades me moldou e não vivo mais sem ele. Sou um urbanóide que suga a energia dessa massa confusa de gente, concreto, carros… Quanto mais asfalto melhor. A seiva que me sustenta tiro da selva de pedra. Acho que isso me endureceu um pouco.

– E aí, ligou? Medinho da Mila dar bronca? Tu já foi menos zé-ruela.

– Só dá ocupado. Melhor assim, nem sei se tô a fim de falar com a Mila.

– Deixa quieto, uma hora ela liga.

Mila não liga pra ninguém. Mas tá sempre ligada. Se não está, te convence do contrário. Ela é senhora da situação. Sempre. Com um olhar, te desconcerta, muda o foco, te faz sentir um deus ou sofrer como o diabo. É fácil se deixar levar por esse olhar. Ele te envolve, reconforta, te dá esperança até. Sedução mode ON.

Ela é um arco-íris. E sempre que vemos um arco-íris, ele rouba a cena. Pela beleza estonteante e também pelo tesouro que parece oferecer. “Está aqui, venha pegar”, seus olhos convidam, fisgando interesses como quem cumprimenta conhecidos. E se você estiver na alça de mira dela, pow, já era.

Mila oferece a liberdade no paraíso. Não é pouca coisa.

– Cara, vou tirar um cochilo. Tá de boa aí dirigir sem minha co-pilotagem, né Valtinho?

– Sifudê… que co-piloto? Só fica olhando pela janela. Se eu for depender de você pra ficar acordado, tô fudido.

– Então não vai fazer diferença, certo? Tô meio chapado ainda… Qualquer coisa grita aí.

Disposição zero pra encarar essa parada. Deixa a Mila de lado e concentre-se no que pode dar certo, porra!

Valtinho parece confiante, essa parada em Goiânia vai ser o fim de um ciclo, início de outro. Vamos todos rir dessa fase. O absurdo de tudo é que tudo pode ser. E nada também. O arco-íris pode não ser um lugar tão mágico assim. O ciclo que se fecha pode ser nada mais do que um outro que se inicia. Os caminhos não se cruzam por acaso. As encruzilhadas são nirvanas…

Momentos mágicos estão em toda parte. Não são tão raros quanto nos fazem crer.

not much chance,
completely cut loose from
purpose,
he was a young man
riding a bus
through North Carolina
on the way to somewhere
and it began to snow
and the bus stopped
at a little cafe
in the hills
and the passengers
entered.
he sat at the counter
with the others,
he ordered and the
food arrived.
the meal was
particularly
good
and the
coffee.
the waitress was
unlike the women
he had
known.
she was unaffected,
there was a natural
humor which came
from her.
the fry cook said
crazy things.
the dishwasher.
in back,
laughed, a good
clean
pleasant
laugh.
the young man watched
the snow through the
windows.
he wanted to stay
in that cafe
forever.
the curious feeling
swam through him
that everything
was
beautiful
there,
that it would always
stay beautiful
there.
then the bus driver
told the passengers
that it was time
to board.
the young man
thought, I’ll just sit
here, I’ll just stay
here.
but then
he rose and followed
the others into the
bus.
he found his seat
and looked at the cafe
through the bus
window.
then the bus moved
off, down a curve,
downward, out of
the hills.
the young man
looked straight
foreward.
he heard the other
passengers
speaking
of other things,
or they were
reading
or
attempting to
sleep.
they had not
noticed
the
magic.
the young man
put his head to
one side,
closed his
eyes,
pretended to
sleep.
there was nothing
else to do-
just to listen to the
sound of the
engine,
the sound of the
tires
in the
snow.

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– Ai, caralho!!!

– Porra, Valtinho, freia!!

– Tô freando, porra!! Tô freando!!!

Vi a batida em câmera lenta. Não fechei os olhos. Se estava chegando a minha hora, queria ver como seria.

(A íntegra, aqui)

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Aedh Deseja os Tecidos dos Céus – William Butler Yeats

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

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Zen Passado – parte 3: O Feitiço

Nada fixa alguma coisa tão intensamente na memória como o desejo de esquecê-la. (Michel de Montaigne)

Não sei há quanto tempo conheço Valtinho. Uns 10 anos? Por aí.

Não sei avaliar se uma década é tempo suficiente pra considerar alguém como ‘amigo’. Ou se faz a menor diferença. Tem gente que conheço há mais tempo e nem por isso é mais amigo meu do que ele. A gente tem coisas boas em comum – roquenrol, mulheres, estrada – e diferenças abissais. O cara é um dínamo, sempre ligado em 220; eu sou devagar, quase distraído. Não fui sempre assim, a vida me desacelerou. Ainda bem. Acho que pirava se continuasse naquele pique. Tempos loucos. Mas agora eu tô sussa. Mais focado. Tentando, pelo menos. A estrada vai me fazer bem.

Conheci Valtinho num trampo que fiz assim que cheguei a São Paulo. Me apresentou a cidade, ajudou até a arrumar um bom apê pra alugar. Sempre fala mais do que ouve, e isso me irrita um pouco, mas aprendi a lidar. É só deixar ele desenvolver suas teorias e fazer uma observação vez ou outra, e pronto: o ‘papo’ rende a noite toda. Gosta da ‘night’, como eu. Dormir é para os fracos, dizemos.

Fazia tempo que não o via. Ele nas paradas dele, eu nas minhas. Nos reencontramos quando conheci Mila. Não tirava o olho dela na Mercearia quando Valtinho chegou, percebeu e mandou:

– Cara, conheço ela. Quer que te apresente?

– Não seria má ideia.

– Só tem uma coisa: é casada. Mas parece que está sozinha hoje. E gosta de dar umas ‘voadas’, se é que me entende…

– Sem problemas. Também estou. Só não quero confusão… Mas uma cervejinha descompromissada não tira pedaço de ninguém. Agora, se ela tiver a voz que eu imagino que ela tem, cara, não me responsabilizo.

– Hahahahaha, tá certo. Guentaí, taradão.

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E em minutos estávamos os três – e mais um cara que estava investindo nela, mas logo dispensado – trocando ideia, rindo até. No final da noite, só eu e ela, tomando a saideira, olho no olho, bar fechando. Acabamos lá em casa. O feitiço começou ali.

Mais uma furada patrocinada pelo Valtinho. Só não sei ainda se me arrependo ou não…

– Vai dizer que não tá um dia perfeito pra viajar? Estrada vazia, nuvens segurando a onda do sol, beise a la vontê, roquenrol do bom e do melhor, esse carrão… Porra, isso que é vida!

– uh-hum… Por enquanto, tudo certo. Já tá na hora de começar a me preocupar.

– Sifuder, só te ponho na boa. E mesmo quando não rola suave a gente se diverte!

– Se não tiver mulher envolvida, pode até ser.

– Deixa de ser ingrato. E a Mila? Coloquei aquele mulherão na sua mão, cara! E ela curtiu também.

– Ô se curtiu…

Esqueci de ligar pra Mila. E agora não tem sinal. Bosta de operadora. Nem saímos direito de São Paulo ainda, caralho. Não devia estar nessa pilha. Já tinha batido o martelo de que não cairia nessas ciladas novamente. Ainda mais com uma mulher casada. Mal casada, mas enfim… Ela quer segurança. Mas quem não quer? Eu estava mais interessado me perder naquele cheiro… naquelas coxas… Acabei perdendo foi a cabeça.

Perdemos os dois. Mila também mergulhou fundo. Tanto que o marido sacou. E eles se separaram. Mas Valtinho me disse que voltaram. Ela nunca me disse. Nem precisava. Ela muda o tom da voz quando está segura. Naquela noite na Mercearia parecia insegura. Ou mais franca. E eu embarquei. Sinceridade, ainda que fingida, me interessa. O resto a gente dá um jeito.

Das últimas vezes que vi Mila, já a tratava como amiga. Tentei, pelo menos. E ela não mudou de postura, sempre em seu altar, olhando de cima pra baixo. Mas essa de amiguinho não rolou. Soava falso. Teve uma tarde que andamos, sob garoa, pelo centro da cidade, como velhos amigos de 20 anos que nunca fomos. Fotografamos, rimos, tomamos café. E voltamos em silêncio. Um silêncio cúmplice. Quando nossos olhos se esbarraram em meio a um metrô lotado na Sé, havia um vazio intimidante. Só trocamos (poucas) palavras quando nos despedimos. Ficamos de se ver. Não rolou mais.

Aí ela liga. Saco, não deveria me importar.

– Cara, vc está nas nuvens, hein?

– Total. A mente voa na estrada. Sabe, se eu pudesse, viveria de um lado pro outro, rodando por aí sem destino. Cigano roots. Mas…

– Mas você não tem culhão pra encarar. Confessa.

– É. Pode ser.

– Sabe o que eu acho? Que a gente, quando chega à beira de um despenhadeiro, não tem muita escolha. Ou pula e deixa o abismo te engolir ou senta e vê a vida passar. Eu não me arrependo de ter mergulhado nos poços que encontrei pelo caminho. Me fortaleceram! Eu quero é mais! Bora fumar outro.

– Vai aí, vou ficar no Marlborão. Foda é mergulhar num poço e encontrar uma poça… Se não acaba contigo, te aleija.

– Aleija não, te redefine. Errar não é o problema, o problema é repetir. Porra, tanta confusão diferente por aí e você perdendo tempo com erro antigo? Nem fudendo!

A auto-ajuda de boteco do Valtinho está fazendo efeito. Ele está certo. Não temos tempo a perder. Com certeza vou cometer muito erro ainda.

Agora tem sinal. Vou ligar.

(A íntegra, aqui)

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