Zen Passado – parte 6: A Volta

Foto: Jorge Henrique Cordeiro
(Foto: O Escriba)

Nada na geladeira. Saco, esqueci de pedir pro Valtinho me deixar no mercado. Vou me virar com esse pão por enquanto. Depois desço pra comprar alguma coisa. Pão e cigarros, dieta boa essa. Preciso descansar. O dia foi pra lá de confuso. O acidente, a parada que foi pras cucuias, aquele velho bizarro, Mila… Tô ficando obsessivo com essa mulher, melhor deixar o beque pra depois.

Que horas são? Acho que dá tempo de pegar um rango lá no bar do Pedrão. Amanhã abasteço a geladeira pra ‘guentar a semana.

O bar do Pedrão foi onde conheci boa parte dos meus amigos paulistas. Frequento desde que cheguei por estas bandas. O clima é ótimo, a filha do Pedrão é linda e o som de responsa. A comida também não é ruim. Vem servida e o preço é honesto. Quem trabalha por perto sabe e prestigia. Isso contribui pra diversidade do lugar. Tem de tudo: músicos, pedreiros, estudantes, desgarrados como eu que não têm lugar melhor pra ir e a moçada que vaga a cidade em busca de novos picos descolados pra comentar depois no ‘feice’ sobre ‘o lugar incrível que ninguém conhece’. Mas justiça seja feita: é essa moçada que dá o tempero de noite alternativa ao bar do Pedrão. Frequentam um tempo, indicam a conhecidos, trazem novas figuras, e o público se renova.

E tem o roquenrol de primeira, que Pedrão, como bom colecionador de bandas 60-70, nunca deixa faltar. Certa vez levei um CD com uns sons do Traffic que garimpei pela web e ele perdeu a linha. Deixou o bar de lado e veio pra mesa, trocar ideia sobre ‘a idade do ouro do rock’, como ele coloca sem margem para contra-argumentações. E ainda apresentou uma caninha das boas.

Chego com o bar ainda meio vazio. Cumprimento Pedrão, sua filha, um ou outro conhecido que já devoram a prata da casa, carne assada no molho de pimentão, e me ajeito numa mesa qualquer. Peço o de sempre e uma cerveja. Como boas-vindas, Pedrão coloca a minha preferida do Traffic. O que posso querer mais da vida?

A filha do Pedrão está cada dia mais gata. Ela sabe disso, mas não é afetada. Conversa com todo mundo, sempre sorrindo. Não precisa provar nada a ninguém. E curte roquenrol. Mina perfeita.

Plínio, um chegado que sempre encontro no bar, aparece pouco depois.

– Faaala ae, meu? Tudo certo? Que cara é essa?

– Nào tive o melhor dos dias. E aí, qual a boa?

– Tô só passando pra tomar uma antes de colar ali no Jazz. Vamos?

– Até seria uma, mas fica pra próxima. Vou bater um rango, curtir um som por aqui mesmo e depois vazar. Quem tá tocando hoje?

– Uns cubanos, dos bons. Já tá bombando na porta. E o Valtinho?

– Cara, nem me fala no Valtinho… rei das furadas.

– Hahahahaha, você também não aprende! Cara, se ele diz que tem uma boa, desconfie. Sempre!

– É, vou tentar lembrar disso da próxima vez.

Recebo uma mensagem no celular. Do Valtinho. Não morre mais.

Cara, olha o estado do meu nariz!! Ficou pior do que o carro! kkk

 

Foto: Jorge Henrique Cordeiro

– Quem é esse? Atropelado?

– É o Valtinho, acabou de me mandar. Na verdade, ele atropelou um carro. Tava com ele. Na estrada, indo pra Goiânia. Longa história…

Nem tão longa assim. Chegou meu rango. E a Mila também. Porra, só me faltava essa.

– E aí, tudo?

– Tudo.

– Te liguei ontem, você não atendeu…

– É, eu vi, mas não deu pra retornar.

– Tudo bem. Posso me sentar?

– Claro, esse é meu amigo Plínio.

– Olá, tudo?

Mila está vestida com seu sorriso franco de filme de terror. É sincero demais pra ser coisa boa. Mas é irresistível. Meu camarada não tira os olhos dela – e de seu decote, discreto porém insinuante. Ela corresponde com o olhar e ergue o copo pra ele encher. Sua linguagem corporal é perfeita. Como um gato, se movimenta com elegância, nos mínimos detalhes, como se calculasse milimetricamente a beleza de cada gesto. Parece uma pintura em movimento.

Termino de comer e os dois já parecem íntimos. Falam amenidades e Mila ri alto, exagerando na entonação para parecer interessada. Ela não costuma errar nos botes que dá.

Peço mais uma cerveja e, enquanto Mila vai ao banheiro, Plínio se mostra empolgado. Como num ‘deja-vu’, sei exatamente o que ele vai dizer.

– Ajeitadinha essa tua amiga, hein?

– Total. Vai fundo.

– Não tá contigo?

– Não… somos conhecidos apenas.

– Vou convidar pro Jazz. Será que ela topa?

– Por que você não tenta?

Dou uma força pra Plínio fazer o convite. Falo do Jazz e Mila comenta algo sobre o lugar. Plínio diz que pretende ir lá e pergunta se ela não quer ir.

Mila topa, claro. Finge estar chateada porque não vou e dá uma daquelas gargalhadas com empolgação calculada, do nada. Ao saírem, noto que está usando uma daquelas calças justas que torneiam coxas, batatas e bunda. Indo é um espetáculo como poucos. Nunca fiquei tão feliz em vê-la se distanciando.

Chega de furadas. Uma parece chamar a outra, num ciclo incessante. Posso não evitar 100% as roubadas, mas adquirimos um bom desconfiômetro com o tempo. O meu tá tinindo, eu é que insisto. Como as portas trancadas daquele sonho… Só mais uma, só mais uma. Cara, a porta trancada não vai abrir, a roubada não vai virar o tesouro no fim do arco-íris.

Não posso ficar dependendo das paradas do Valtinho. Não têm rendido tanta grana assim e são esporádicas. Tenho que trampar, com carteira assinada, seguro saúde, ticket restaurante. Sair da merda pelo caminho mais entediante. Amanhã vou bater perna pra procurar emprego. Só não volto a dar aulas. Não tenho mais saco.

O último cigarro da noite tem um sabor especial. Acompanho a fumaça dançar pelo ar, guardo a guimba pr’alguma emergência e apago a luz. Os demônios que vão se acumulando durante o dia estão em polvorosa. Se agitam sob o teto empoeirado. Hora de dar um ‘defrag‘ geral na mente, arrumar os caixotinhos de frustrações, neuras, sonhos, ansiedades e preocupações.

O diabo está na desordem.

Boa noite, meus pequeninos companheiros diabólicos. Me acordem como anjos.

(A íntegra, aqui)

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