Zen Passado – parte 3: O Feitiço

Nada fixa alguma coisa tão intensamente na memória como o desejo de esquecê-la. (Michel de Montaigne)

Não sei há quanto tempo conheço Valtinho. Uns 10 anos? Por aí.

Não sei avaliar se uma década é tempo suficiente pra considerar alguém como ‘amigo’. Ou se faz a menor diferença. Tem gente que conheço há mais tempo e nem por isso é mais amigo meu do que ele. A gente tem coisas boas em comum – roquenrol, mulheres, estrada – e diferenças abissais. O cara é um dínamo, sempre ligado em 220; eu sou devagar, quase distraído. Não fui sempre assim, a vida me desacelerou. Ainda bem. Acho que pirava se continuasse naquele pique. Tempos loucos. Mas agora eu tô sussa. Mais focado. Tentando, pelo menos. A estrada vai me fazer bem.

Conheci Valtinho num trampo que fiz assim que cheguei a São Paulo. Me apresentou a cidade, ajudou até a arrumar um bom apê pra alugar. Sempre fala mais do que ouve, e isso me irrita um pouco, mas aprendi a lidar. É só deixar ele desenvolver suas teorias e fazer uma observação vez ou outra, e pronto: o ‘papo’ rende a noite toda. Gosta da ‘night’, como eu. Dormir é para os fracos, dizemos.

Fazia tempo que não o via. Ele nas paradas dele, eu nas minhas. Nos reencontramos quando conheci Mila. Não tirava o olho dela na Mercearia quando Valtinho chegou, percebeu e mandou:

– Cara, conheço ela. Quer que te apresente?

– Não seria má ideia.

– Só tem uma coisa: é casada. Mas parece que está sozinha hoje. E gosta de dar umas ‘voadas’, se é que me entende…

– Sem problemas. Também estou. Só não quero confusão… Mas uma cervejinha descompromissada não tira pedaço de ninguém. Agora, se ela tiver a voz que eu imagino que ela tem, cara, não me responsabilizo.

– Hahahahaha, tá certo. Guentaí, taradão.

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E em minutos estávamos os três – e mais um cara que estava investindo nela, mas logo dispensado – trocando ideia, rindo até. No final da noite, só eu e ela, tomando a saideira, olho no olho, bar fechando. Acabamos lá em casa. O feitiço começou ali.

Mais uma furada patrocinada pelo Valtinho. Só não sei ainda se me arrependo ou não…

– Vai dizer que não tá um dia perfeito pra viajar? Estrada vazia, nuvens segurando a onda do sol, beise a la vontê, roquenrol do bom e do melhor, esse carrão… Porra, isso que é vida!

– uh-hum… Por enquanto, tudo certo. Já tá na hora de começar a me preocupar.

– Sifuder, só te ponho na boa. E mesmo quando não rola suave a gente se diverte!

– Se não tiver mulher envolvida, pode até ser.

– Deixa de ser ingrato. E a Mila? Coloquei aquele mulherão na sua mão, cara! E ela curtiu também.

– Ô se curtiu…

Esqueci de ligar pra Mila. E agora não tem sinal. Bosta de operadora. Nem saímos direito de São Paulo ainda, caralho. Não devia estar nessa pilha. Já tinha batido o martelo de que não cairia nessas ciladas novamente. Ainda mais com uma mulher casada. Mal casada, mas enfim… Ela quer segurança. Mas quem não quer? Eu estava mais interessado me perder naquele cheiro… naquelas coxas… Acabei perdendo foi a cabeça.

Perdemos os dois. Mila também mergulhou fundo. Tanto que o marido sacou. E eles se separaram. Mas Valtinho me disse que voltaram. Ela nunca me disse. Nem precisava. Ela muda o tom da voz quando está segura. Naquela noite na Mercearia parecia insegura. Ou mais franca. E eu embarquei. Sinceridade, ainda que fingida, me interessa. O resto a gente dá um jeito.

Das últimas vezes que vi Mila, já a tratava como amiga. Tentei, pelo menos. E ela não mudou de postura, sempre em seu altar, olhando de cima pra baixo. Mas essa de amiguinho não rolou. Soava falso. Teve uma tarde que andamos, sob garoa, pelo centro da cidade, como velhos amigos de 20 anos que nunca fomos. Fotografamos, rimos, tomamos café. E voltamos em silêncio. Um silêncio cúmplice. Quando nossos olhos se esbarraram em meio a um metrô lotado na Sé, havia um vazio intimidante. Só trocamos (poucas) palavras quando nos despedimos. Ficamos de se ver. Não rolou mais.

Aí ela liga. Saco, não deveria me importar.

– Cara, vc está nas nuvens, hein?

– Total. A mente voa na estrada. Sabe, se eu pudesse, viveria de um lado pro outro, rodando por aí sem destino. Cigano roots. Mas…

– Mas você não tem culhão pra encarar. Confessa.

– É. Pode ser.

– Sabe o que eu acho? Que a gente, quando chega à beira de um despenhadeiro, não tem muita escolha. Ou pula e deixa o abismo te engolir ou senta e vê a vida passar. Eu não me arrependo de ter mergulhado nos poços que encontrei pelo caminho. Me fortaleceram! Eu quero é mais! Bora fumar outro.

– Vai aí, vou ficar no Marlborão. Foda é mergulhar num poço e encontrar uma poça… Se não acaba contigo, te aleija.

– Aleija não, te redefine. Errar não é o problema, o problema é repetir. Porra, tanta confusão diferente por aí e você perdendo tempo com erro antigo? Nem fudendo!

A auto-ajuda de boteco do Valtinho está fazendo efeito. Ele está certo. Não temos tempo a perder. Com certeza vou cometer muito erro ainda.

Agora tem sinal. Vou ligar.

(A íntegra, aqui)

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