Zen Passado – Parte 4: O Acidente

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”
(José Saramago)

Odeio quando dá ocupado. Você sabe que a pessoa está lá, ao alcance das frequências, mas não consegue falar. Tudo que você pensou em dizer fica engasgado.

Ocupado de novo.

Ah, foda-se.

– Chuvinha chata essa. Tenho que botar aquela parada na porta pra evitar de pingar aqui dentro. Vida de motorista e fumante é foda…

– São Paulo, terra da garoa…

– Já saímos de São Paulo. Eu moraria fácil aqui, nas franjas da megalópole. A gigante selva tecnológica pulsando ali adiante, aquela maçaroca de gente pra tudo quanto é lado, e vc aqui, curtindo horizonte, ar puro, mas dependente da selva. Tirando o seu sustento de lá. Morar em São Paulo hoje é meio como viver no próprio escritório.

Ar puro. Pode ser. Mas o ar tóxico das grandes cidades me moldou e não vivo mais sem ele. Sou um urbanóide que suga a energia dessa massa confusa de gente, concreto, carros… Quanto mais asfalto melhor. A seiva que me sustenta tiro da selva de pedra. Acho que isso me endureceu um pouco.

– E aí, ligou? Medinho da Mila dar bronca? Tu já foi menos zé-ruela.

– Só dá ocupado. Melhor assim, nem sei se tô a fim de falar com a Mila.

– Deixa quieto, uma hora ela liga.

Mila não liga pra ninguém. Mas tá sempre ligada. Se não está, te convence do contrário. Ela é senhora da situação. Sempre. Com um olhar, te desconcerta, muda o foco, te faz sentir um deus ou sofrer como o diabo. É fácil se deixar levar por esse olhar. Ele te envolve, reconforta, te dá esperança até. Sedução mode ON.

Ela é um arco-íris. E sempre que vemos um arco-íris, ele rouba a cena. Pela beleza estonteante e também pelo tesouro que parece oferecer. “Está aqui, venha pegar”, seus olhos convidam, fisgando interesses como quem cumprimenta conhecidos. E se você estiver na alça de mira dela, pow, já era.

Mila oferece a liberdade no paraíso. Não é pouca coisa.

– Cara, vou tirar um cochilo. Tá de boa aí dirigir sem minha co-pilotagem, né Valtinho?

– Sifudê… que co-piloto? Só fica olhando pela janela. Se eu for depender de você pra ficar acordado, tô fudido.

– Então não vai fazer diferença, certo? Tô meio chapado ainda… Qualquer coisa grita aí.

Disposição zero pra encarar essa parada. Deixa a Mila de lado e concentre-se no que pode dar certo, porra!

Valtinho parece confiante, essa parada em Goiânia vai ser o fim de um ciclo, início de outro. Vamos todos rir dessa fase. O absurdo de tudo é que tudo pode ser. E nada também. O arco-íris pode não ser um lugar tão mágico assim. O ciclo que se fecha pode ser nada mais do que um outro que se inicia. Os caminhos não se cruzam por acaso. As encruzilhadas são nirvanas…

Momentos mágicos estão em toda parte. Não são tão raros quanto nos fazem crer.

not much chance,
completely cut loose from
purpose,
he was a young man
riding a bus
through North Carolina
on the way to somewhere
and it began to snow
and the bus stopped
at a little cafe
in the hills
and the passengers
entered.
he sat at the counter
with the others,
he ordered and the
food arrived.
the meal was
particularly
good
and the
coffee.
the waitress was
unlike the women
he had
known.
she was unaffected,
there was a natural
humor which came
from her.
the fry cook said
crazy things.
the dishwasher.
in back,
laughed, a good
clean
pleasant
laugh.
the young man watched
the snow through the
windows.
he wanted to stay
in that cafe
forever.
the curious feeling
swam through him
that everything
was
beautiful
there,
that it would always
stay beautiful
there.
then the bus driver
told the passengers
that it was time
to board.
the young man
thought, I’ll just sit
here, I’ll just stay
here.
but then
he rose and followed
the others into the
bus.
he found his seat
and looked at the cafe
through the bus
window.
then the bus moved
off, down a curve,
downward, out of
the hills.
the young man
looked straight
foreward.
he heard the other
passengers
speaking
of other things,
or they were
reading
or
attempting to
sleep.
they had not
noticed
the
magic.
the young man
put his head to
one side,
closed his
eyes,
pretended to
sleep.
there was nothing
else to do-
just to listen to the
sound of the
engine,
the sound of the
tires
in the
snow.

8583374456_57d49b3c2b_z

– Ai, caralho!!!

– Porra, Valtinho, freia!!

– Tô freando, porra!! Tô freando!!!

Vi a batida em câmera lenta. Não fechei os olhos. Se estava chegando a minha hora, queria ver como seria.

(A íntegra, aqui)

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