Zen Passado – parte 5: O Velho

A dor é estranha. Um gato matando um pássaro, um acidente de carro, um incêndio… A dor chega, BANG, e lá está, senta em você. É real. E para qualquer um olhando, você parece abobalhado. Como se você de repente se transformasse num idiota. Não há cura para ela a menos que você conheça alguém que entenda como você se sente, e saiba como ajudar.

(Charles Bukowski)

 

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Foi uma pancada e tanto. Colamos no carro da frente.

Como isso foi acontecer? Só Valtinho pode responder. Quando acordei, mal tive tempo de retesar a musculatura pra absorver o impacto. Rodopiamos pela pista, junto com o carro da frente, até pararmos no acostamento. Fiquei zonzo, mas me mantive consciente. Uma dor lancinante me invadiu o pescoço. Olhei pro lado e vi Valtinho com os olhos vidrados, limpando o sangue do rosto.

– Caraca, que foi isso??

– Uma batida, ao que parece… tudo bem aí? Tá inteiro?

– Acho que quebrei o nariz. E você?

– Quase fui decapitado, mas escapei por pouco. Vamos sair daqui.

Confiro a integridade dos ossos e saio do carro. O motorista da frente está possesso, gesticula como um louco, puto com a manobra que a gente fez. Seguro o cara a duras penas.

Os carros ficaram bem zoados. Apesar a força do choque, ambos os motores ainda funcionam. Dá pra seguir viagem.

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Trocamos telefones com o outro motorista, já mais calmo, e consultamos o seguro do carro pra pegar algumas coordenadas. Saio pra procurar um lugar pra lavar a cabeça e tomar uma água. Não estávamos mais na estrada principal. Valtinho, não sei porque cargas d’água, entrou em alguma vicinal, não saberia dizer exatamente onde. Bem em frente ao acidente tem uma pequena igreja, onde um corpo está sendo velado. Todos que ali estavam saem para ver a batida. Conseguimos mais atenção que o morto.

Um senhor de benguala se aproxima devagar. Para ao meu lado, escarra displicentemente e me encara. Não diz uma palavra. Me olha como se já nos conhecêssemos. Seus olhos são duros, quase opacos. Parecem congelados. Meu deu certa aflição e desvio o olhar.

– Há vida apesar da morte…

E escarra de novo. Por um instante vi no velho algo xamânico. Ele parece estar olhando além, por entre os carros, nossos corpos, as nuvens. Não senti vontade – ou melhor, necessidade – de conversar com ele, estávamos num estado de comunicação além da palavra, eu simplesmente entendia sua presença. Isso bastou. Senti a dor do pescoço amainar. Yo no creo, pero…

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O velho balbucia algo, não deu pra entender, e se cala. Ficou ali, ora me encarando, ora olhando para o céu. As nuvens dissiparam, acabou a chuva. Valtinho retorna do bar, onde lavou o rosto. Ainda havia sangue em uma de suas narinas.

– Por que saímos da estrada?

– Cara, era rapidinho, só ia passar na casa de um camarada. Você não ia nem perceber, quando acordasse já estaríamos de volta à estrada… porra, que merda! Destruí o carro!

– Pelo menos ainda anda. Só acho que não chega a Goiânia.

– Não mesmo, vamos ter que voltar.

– E a parada?

– Já era…

O velho dá meia-volta e retorna ao velório. As demais pessoas o seguem.

Me acostumei com as frustrações. Minha vida tem sido uma sequência ininterrupta delas. Algumas tiro de letra. Outras são mais foda de absorver. Ficam lá no fundo, latejando discretamente, o suficiente apenas para me lembrar que existem. Finjo que não é comigo e sigo em frente. Se perturbam demais, tomo um porre, arrumo uma foda descompromissada ou durmo. Nos sonhos, sem as algemas da consciência, as frustrações são até divertidas. Pareço ter mais controle sobre elas quando estamos no universo inconsciente. Algumas até desistem de me perturbar depois que as embaralho com minhas pirações internas, loucuras e taras inconscientes… Sou mais eu e minhas neuras.

A volta pra casa está estranha. O cair da tarde é deslumbrante mas eu e Valtinho nem percebemos. Estamos bem amuados. Não sem razão, claro.

– Que velho esquisito aquele. O que vocês conversaram?

– Nada, ele mal falou.

– Tu viu que tinha um velório rolando em frente ao local do acidente?

– É, aquilo sim foi bizarro. Não sei se teria espaço pra mais dois defuntos ali…

– Tu achou que a gente ia morrer?

– A gente vai morrer. Só não foi agora.

Valtinho dirige mais devagar agora, certamente com medo de estourar o carro de vez no meio daquele fim de mundo. Não acendeu um baseado sequer, como fez sistematicamente a cada 100km na ida. Eu penso no velho e naquele olhar petrificado. Não saberia decifrar sua presença, nem como ela me afetou. Há coisas que simplesmente são.

Não vou mais ligar pra Mila.

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada

Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada

(Aqui a íntegra da novela Zen Passado)

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