“Sozinho, Corto repensou as palavras de Crânio. Tinha razão: aquela guerra distante provocava sua ressaca naqueles mares tranquilos. Os interesses contrapostos provocavam reações em cadeia que acabavam por envolver povos inocentes.
Mas agora tinha de pensar em si mesmo, decidir o que fazer da sua vida.
O Monge o havia acusado de não saber comandar, e afinal de contas era verdade, não lhe interessava mesmo; acusara-o de ser individualista e isso também era verdade. Mas por que deveria limitar-se a seguir uma corrente? Por que sujeitar-se a um esquema, a um exército, a um enquadramento? O perfume da vida sempre o havia guiado através das experiências, os países e os homens mais disparados. O jogo da vida era um jogo sutil, delicado, era jogado observando-se escrupulosamente as regras, mas com respeito. O respeito pela liberdade, tanto a própria como a dos outros, a liberdade de julgamento, mas sobretudo a de comportamento. As gaivotas voavam livres naquele céu alaranjado e turquesa, e o oceano se abria, convidativo, naquele horizonte infinito. A fantasia o arrastava para longe, longe daquela cabana, mas ainda teria que esperar um pouco.
(…) Eram loucos, mas tinham também toda a força de modificar suas vidas, de adapta-las a situações diversas, tendo sempre em vista um horizonte longínquo, incerto e nebuloso. Quem persegue um sonho não deseja, em realidade, a sua realização, mas quer somente poder continuar a sonhar. No horizonte daquele oceano haveria sempre uma outra ilha, para abrigar-se durante um tufão, ou para repousar e amar. Aquele horizonte aberto estaria sempre ali, como um convite permanente.”
“Um escritor, senhores, muito bem, o que escreves? Escrevia, sabem, sobre essa angústia de dentro. PARA AÍ. Senhores, eis aqui, um nada, um merda neste tempo de luta, enquanto nos despimos, enquanto caminhamos pelas ruas carregando no peito um grito enorme, enquanto nos matam, sim porque nos matam a cada dia, um merda escreve sobre o que o angústia, e é por causa desses merdas, desses subjetivos do baralho, desses que lutam pela própria tripa de vidro delicada, que nós estamos aqui mas chega, chega, morte à palavra desses anêmicos do século, esses enrolados que se dizem com Deus, Deus é esse ferro frio agora na tua mão, quente no peito do teu inimigo, Deus é essa bala, olhem bem. Deus é um fogo que vai queimar essas gargantas brancas, Deus é tu mesmo, homem, tu é que vais dispor do outro que te engole, e quem é que te engole, homem? Todos que não estão do teu lado te engolem, todos esses que se omitem, esses escribas rosados, verdolengos, esses merdas dessa angústia de dentro.”
“Sorriu compreensivamente – muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que tem em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar. Precisamente nesse ponto, o sorriso se dissipou – e vi-me diante se um jovem elegante e grosseirão, que passava um ou dois anos dos 30, e cuja maneira cerimoniosa se falar pouco faltava para ser absurda. Pouco antes de ele haver dito quem era, eu tivera a impressão de que ele escolhia as palavras com cuidado.
(…) Quando ele se afastou, voltei-me imediatamente para Jordan – constrangido a revelar-lhe a minha surpresa. Eu esperava que o Sr. Gatsby fosse um indivíduo de meia-idade, corpulento, robicundo.
“Quem é ele?, indaguei. “Você o sabe?””É apenas um homem chamado Gatsby.””De onde vem ele? É o que quero dizer. E o que é que ele faz?”
Bartleby, o escrivão – um dos contos dessa coletânea do Herman Melville, da editora Cultrix – é perfeito retrato do trabalhador comum sob as engrenagens da máquina de moer gente também conhecida como capitalismo.
“Conversamos pela primeira vez no Museu Nacional, em Nápoles, nas salas do piso térreo que contém a famosa coleção de bronzes de Herculano e Pompéia, aquele maravilhoso legado de arte antiga, cujas delicadas perfeições foram preservadas pela fúria catastrófica de um vulcão. Ele se dirigiu a mim primeiro, a respeito do celebrado Hermes em repouso que estávamos observando lado a lado. Disse as coisas certas sobre aquela peça inteiramente admirável. Nada profundo. Seu gosto era antes natural que cultivado. É óbvio que havia visto muitas coisas refinadas em sua vida, e as apreciava, mas não possuía o jargão do diletante ou do connaisseur… Falava como um cosmopolita inteligente, um cavalheiro limpo de toda afetação”
“Sabe, Obasan, você deve pensar seriamente em aceitar essa oferta e mudar para algum outro lugar agora. É uma grande oportunidade.
Mas estou aqui há tanto tempo, disse ela, e abanou com a mão a fumaça do cigarro.
Podia abrir um belo lugar novo, Obasan. No bairro de Kibashi, ou mesmo em Honcho. Pode ter certeza de que apareço por lá sempre que estiver passando.
A sra. Kawakami ficou calada um momento, como se ouvisse alguma coisa em meio ao ruído que os operários faziam lá fora. Então um sorriso se espalhou em seu rosto e ela disse: este bairro foi tão maravilhoso um dia. Você lembra, sensei?
Retribuí o sorriso, mas não disse nada. Claro, o velho bairro tinha sido ótimo. Todos tínhamos nos divertido e o espírito que permeava as brincadeiras e aquelas discussões nunca foi menos que sincero. Mas talvez esse mesmo espírito nem sempre tenha sido para o bem. Como muitas coisas atualmente, talvez seja melhor que aquele pequeno mundo tenha passado e não volte mais. Fiquei tentado a dizer isso à sra. Kawakami essa noite, mas percebi que seria falta de tato. Porque claramente o velho bairro era querido ainda em seu coração – a maior parte de sua vida e energia tinha sido investida ali -, e com certeza se pode compreender sua relutância em aceitar que tinha desaparecido para sempre.”
“Mas de súbito, ao espreitar mais e mais as profundidades, ele viu bem longe, lá embaixo, uma branca mancha vivente, não maior do que uma doninha branca, subindo com admirável celeridade e aumentando ao emergir, até que se virou, e então se viram claramente suas longas e arqueadas fileiras de dentes brancos e brilhantes, ascendendo do fundo indistinguível. Era a boca aberta de Moby Dick e sua curva mandíbula, estando seu vasto e sombreado corpanzil ainda semi-confundido com o azul do mar.”
Trecho de Moby Dick, livro do escritor americano Herman Melville.Os três últimos capítulos são de uma adrenalina que nunca tinha lido em lugar algum. Sem falar na abertura da obra, realmente uma das mais legais da literatura.Agora entendo a magnitude desse livro.
Marlon Brando em Apocalypse Now!, filme de Francis Ford Coppola.
I
Nós somos os homens ocos Os homens empalhados Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós! Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos, São quietas e inexpressas Como o vento na relva seca Ou pés de ratos sobre cacos Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram De olhos retos, para o outro reino da morte Nos recordam – se o fazem – não como violentas Almas danadas, mas apenas Como os homens ocos Os homens empalhados.
II
Os olhos que temo encontrar em sonhos No reino de sonho da morte Estes não aparecem: Lá, os olhos são como a lâmina Do sol nos ossos de uma coluna Lá, uma árvore brande os ramos E as vozes estão no frêmito Do vento que está cantando Mais distantes e solenes Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime Do reino de sonho da morte Que eu possa trajar ainda Esses tácitos disfarces Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas E comportar-me num campo Como o vento se comporta Nem mais um passo
– Não este encontro derradeiro No reino crepuscular
III
Esta é a terra morta Esta é a terra do cacto Aqui as imagens de pedra Estão eretas, aqui elas recebem A súplica da mão de um morto Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste O outro reino da morte: Despertando sozinhos À hora em que estamos Trêmulos de ternura Os lábios que beijariam Rezam a pedras quebradas.
IV
Os olhos não estão aqui Aqui os olhos não brilham Neste vale de estrelas tíbias Neste vale desvalido Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros Juntos tateamos Todos esquivos à fala Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser Que os olhos reapareçam Como a estrela perpétua Rosa multifoliada Do reino em sombras da morte A única esperança De homens vazios.
V
Aqui rondamos a figueira-brava Figueira-brava figueira-brava Aqui rondamos a figueira-brava Às cinco em ponto da madrugada
Entre a ideia E a realidade Entre o movimento E a ação Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino
Entre a concepção E a criação Entre a emoção E a reação Tomba a Sombra A vida é muito longa
Entre o desejo E o espasmo Entre a potência E a existência Entre a essência E a descendência Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino
Porque Teu é A vida é Porque Teu é o
Assim expira o mundo Assim expira o mundo Assim expira o mundo Não com uma explosão, mas com um gemido.
O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?
Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.
O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis. Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?
Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.
Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.
O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.
De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.
É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.
Escuta, isso é sério!
Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco.
Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.
Portanto, escute.
Isto é muito serio!
Isto é uma proposta aos trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!