4/20 – Um Artista do Mundo Flutuante – Kazuo Ishiguro

“Sabe, Obasan, você deve pensar seriamente em aceitar essa oferta e mudar para algum outro lugar agora. É uma grande oportunidade.

Mas estou aqui há tanto tempo, disse ela, e abanou com a mão a fumaça do cigarro.

Podia abrir um belo lugar novo, Obasan. No bairro de Kibashi, ou mesmo em Honcho. Pode ter certeza de que apareço por lá sempre que estiver passando.

A sra. Kawakami ficou calada um momento, como se ouvisse alguma coisa em meio ao ruído que os operários faziam lá fora. Então um sorriso se espalhou em seu rosto e ela disse: este bairro foi tão maravilhoso um dia. Você lembra, sensei?

Retribuí o sorriso, mas não disse nada. Claro, o velho bairro tinha sido ótimo. Todos tínhamos nos divertido e o espírito que permeava as brincadeiras e aquelas discussões nunca foi menos que sincero. Mas talvez esse mesmo espírito nem sempre tenha sido para o bem. Como muitas coisas atualmente, talvez seja melhor que aquele pequeno mundo tenha passado e não volte mais. Fiquei tentado a dizer isso à sra. Kawakami essa noite, mas percebi que seria falta de tato. Porque claramente o velho bairro era querido ainda em seu coração – a maior parte de sua vida e energia tinha sido investida ali -, e com certeza se pode compreender sua relutância em aceitar que tinha desaparecido para sempre.”

Trecho do livro Um Artista do Mundo Flutuante, de Kazuo Ishiguro (1986).

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