Eles criaram perfeitas máquinas caça-atenção – e nós somos marionetes dedicadas

cacaniquel

Como a tecnologia sequestra as mentes das pessoas? Como o mágico faz, explorando nossos impulsos e vulnerabilidades. A partir daí, manipula da forma que quiser. Um ex-funcionário do Google, Tristan Harris, eticista de design e produtos, dá a senha: Google, Facebook, SnapChat, Linkedin, Whatsapp, Twitter, Netflix, todos sem exceção usam e abusam de truques para manter vc fisgado – e feliz.

A grande ferramenta desse pessoal são os celulares ‘esperto-fones’, eficientes máquinas caça-atenção, tubarões tecnológicos e algorítmicos que sabem como cercar, atacar e aprisionar uma vitím… quer dizer, cliente. A gente até suspeita disso, na verdade temos certeza, mas ainda temos a ilusão de ter o controle sobre a bagaça toda. Quer a real? Eles já dominam nossa privacidade, e agora avançam com tudo sobre nosso tempo. Somos marionetes, apertando botões, enviando mensagens e estabelecendo conexões que nem sempre realmente queremos fazer. Liberdade de escolha? Tem certeza? Isso me faz lembrar de uma cena do seriado Mr. Robot, na qual o protagonista questiona a nossa liberdade de escolha na sociedade capitalista:

O que tem a sociedade que te desaponta tanto?

Ah, eu não sei.

Seria o fato de que nós coletivamente pensávamos que o Steve Jobs era um grande cara, mesmo depois de sabermos que ele fez bilhões nas costas de crianças? Ou talvez seja porque parece que todos os nossos heróis sejam falsos? O mundo em si é um grande embuste, enchemos o saco um do outro com um monte de comentários de merda, nossas redes sociais falseando essa intimidade toda. Ou será que é porque votamos por isso? Não com nossas eleições fraudadas, mas com nossas coisas, nossa propriedade, nosso dinheiro. Não estou dizendo nada de novo, todos nós sabemos porque fazemos isso, não porque os livros de Jogos Vorazes nos deixam felizes, mas porque queremos ser sedados. Porque é doloroso não fingir, porque somos covardes. Foda-se a sociedade.

O design de sites, celulares e aplicativos hoje tem o mesmo efeito que uma máquina caça-níquel: oferece de tempos em tempos ‘prêmios’ aleatórios, que incentivam vc a voltar sempre. Se vc der uma olhadinha, já era, é irresistível abrir aquela mensagem ‘importante’ que ‘acabou’ de chegar. Pode ser seu ‘bilhete premiado’, pô! Pode ser o passe para um mundo melhor, o sinal esperado para iniciar a revolução, a promessa cumprida, o amor correspondido, a aprovação do mestre. Er, não foi dessa vez, né? Mas você voltará, como todo bom crente e súdito, a conferir e clicar e clicar. São ilusões, bro, apenas ilusões.

E enquanto estamos com a cara enfurnada no celular, a vida passa ao lado, discretamente. Já cai nessa, tô em ‘detox mode’ – isso há uns 6 anos era inimaginável. Mas depois de uma dolorosa epifania, decidi dar mais uma chance ao aleatório, à surpresa, ao acaso, à contemplação. Cara, compensa pacas!

Não nego as benesses do celular, pelo contrário, mas como bem diz Tristan, “precisamos que nossos smartphones, telas de notificações e navegadores sejam exoesqueletos para nossas mentes e relações interpessoais, colocando em primeiro lugar nossos valores, não nossos impulsos. O tempo das pessoas é valioso. E deveríamos protegê-lo com o mesmo rigor que a privacidade e outros direitos digitais”.

A revolução não só não será televisionada, como também não será tuitada, nem publicada no Facebook ou no Whatsapp. Se liga!

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Terapia da fumaça

“Eu acendo um cigarro; você sabe como é quando sua mente começa a girar em volta do mesmo círculo de problemas insolúveis – você fuma. Eu fumava um cigarro atrás do outro, num esforço de esfumaçar minha inteligência e fazer com que os problemas fossem embora.”

(Liev Tolstói, em A Sonata a Kreutzer, 1889)

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Flutue como uma borboleta, pique como uma abelha

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Muhammad Ali (1942-2016) foi um dos maiores nomes do esporte de todos os tempos e grande figura humana. Não à toa foi inspiração para Martin Luther King e Nelson Mandela em sua luta contra um adversário muito mais poderoso do que George Foreman ou Joe Frazier: o sistema. Ali, mesmo no auge do sucesso, não se omitiu como a maioria quando chega no topo. Pelo contrário, aproveitou os holofotes para golpear o racismo, a injustiça e os crimes do capitalismo.

“Flutue como uma borboleta, pique como uma abelha.”

Valeu, Ali

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We Are Twisted Fucking Sister! (documentário no Netflix)

Os caras surgiramno início dos anos 70, fazendo cover de Lou Reed e David Bowie, usando roupas de mulher (algumas emprestadas por mães e namoradas) e maquiagem, tocando nos muitos bares e clubes dos subúrbios de Long Island, NY, por até quatro horas.
Depois que começaram a tocar músicas próprias, com a chegada do cantor Dee Snider, viraram uma febre – eram divertidos, carismáticos e totalmente roquenrol. Eram o Grand Funk do Glam ou o NY Dolls do Metal. Ou como um reporter da revista inglesa Sounds diz no documentario, “pareciam açougueiros em drag”. Ate gravarem o primeiro disco, em 1981-82, eram considerados a maior e melhor banda de bar dos EUA.

Duraram até 1988, voltando dez anos depois, já como ectoplasmas de si mesmos e vagam por aí até hoje.

Me diverti muito vendo esse documentário do Twister Sister no Netflix, porque lembrei dos meus tempos de ‘metaleiro’ e de quando conheci a banda, em 83, quando dei de cara com o então recém lançado disco deles, You Can’t Stop Rock’n’Roll, numa seção de ‘novo rock’ de uma loja de discos em Paris. Comprei às cegas e não me arrependi. As letras basicamente falavam de choque de gerações, adultos x adolescentes, e o som era um metal básico, com Snider fazendo um bom vocal rascante, num tom quase debochado.
Acho que até meu pai conhece o som, de tanto que escutei nas alturas trancado no meu quarto, fazendo ‘air guitar’… 🙂

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Forever Young – Robin Wright

Versão da música do Bob Dylan pela atriz e diretora Robin Wright (House of Cards) que integra a trilha do filme O Congresso Futurista, inspirado na obra de ficção-científica do escritor polonês Stanislaw Lem. A música originalmente foi feita por Dylan para seu filho Jesse.

congressoNo filme, de produção franco-israelense, Robin interpreta a si mesmo, uma atriz de pouco mais de 40 anos anos que teve um grande sucesso na carreira e está em decadência, não conseguindo mais bons papéis. Ela recebe uma proposta final de um grande estúdio (Miramount – Miramax + Paramount), que quer escaneá-la e transformá-la numa atriz virtual. Boa parte do filme é animação, e tem um clima meio huxleyniano de Admirável Mundo Novo, em que parte da população vive em estado de alucinação, interpretando o personagem (real ou mitológico) de sua preferência.

O filme faz uma interessante reflexão sobre a efemeridade da carreira artística, o autoritarismo da indústria cinematográfica e o avanço das novas tecnologias no cinema. O filme estreou no Festival de Cannes de 2013.

Trailer do filme:

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Último Brinde – Ana Akhmátova #umpoemapordia

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

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Poema de 1934 da poeta ucraniana Anna Akhmátova que viveu entre 1889 e 1966. Foi perseguida por Stálin e proibida de publicar seus trabalhos por quase 30 anos. Foi expoente do movimento literário modernista russo, chamado acmeísmo, iniciado em 1910.

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O Boneco de Neve – Wallace Stevens #umpoemapordia

Há que ter um espírito de Inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros encrostados de neve;

E ter tido frio muito tempo
Para ver os zimbros encrespados com gelo,
Os abetos eriçados ao brilho distante

Do sol de Janeiro; e não pensar
Em qualquer desgraça no som do vento,
No som de algumas folhas,

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar deserto

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele mesmo nada, não vê
Nada que lá não está e sim o nada que é.

(Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos. O original, em inglês, aqui.)

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Primeiros Anos – Ferreira Gullar #umpoemapordia

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na Rua dos Prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam claras sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
E do meu quarto
eu ouvia o século XX
farfalhando nas árvores da quinta.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

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Projeto DH2Minutos une arte e militância por mais direitos

DH12

Tem um ditado popular zen que diz mais ou menos o seguinte: se você não tem tempo para meditar um minuto por dia, então medite dois.

O mesmo vale para um importante debate que volta e meia é negligenciado, menosprezado e até debochado nesses tempos estranhos que estamos vivendo: o dos direitos humanos. Pra muita gente, inclusive do nosso Congresso, essa é uma expressão desbotada, embaçada, que serve apenas para ‘proteger bandidos’ – quem nunca ouvi a infame frase “direitos humanos para humanos direitos”?

Pois então, se você não dá muita atenção para o tema, ou se o clima obscurantista atual te deixa meio deprê, achando que não adianta nada falar sobre direitos, é justamente nessa hora que você tem que botar a boca no trombone.

Daí que a Iara Pietricovsky, antropóloga, atriz e minha chefe no Inesc, teve uma daquelas ideias que enchem os olhos de qualquer um que atue nessa seara de luta por direitos. Ela resolveu unir teatro e militância, e o resultado é projeto Direitos Humanos em 2 minutos (DH2), do qual estou participando como assessor de comunicação, espalhando o trabalho aos quatro ventos. Serão 12 filmes curtos, entre 2 e 5 minutos, tratando de temas importantes como racismo, aborto, violência contra a mulher, preconceito de gênero e agendas importantes como clima, aquecimento global, mobilidade urbana e direitos territoriais.

O primeiro vídeo da série já está no ar: O Direito de Quem Ama, que fala sobre a violência contra as mulheres. Uma porrada e tanto!

Em cena estão a Iara e outra grande figura, Alexandre Ribondi, ator de primeira linha também, e um autor refinado – são deles os textos dos filmes. Aliás, que textos! Poesia pura!

Enfim, tá dado o recado. Aproveite para conhecer também a página do projeto no Facebook e o canal no Youtube

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Supershow 1969 – A última grande jam session dos anos 60

O filme Supershow, documentário de 1969, reuniu músicos de jazz, blues e rock durante dois dias numa fábrica abandonada a oeste de Londres. As gravações foram feitas durante as apresentações dos artistas para uma seleta plateia.

Participaram Stephen Stills, Roland Kirk, Eric Clapton, Buddy Guy, Led Zeppelin, Modern Jazz Quartet, Jack Bruce e Buddy Miles, entre muitos outros. Jimi Hendrix foi convidado, mas perdeu o vôo em Nova York e acabou ‘furando’.

Conheci esse filme nos tempos de faculdade. Alguém surgiu com o VHS, que era cópia da cópia da cópia, e ele foi circulando, sendo a atração principal de várias reuniões na casa de amigos. Ninguém sabia ao certo do que se tratava, quando onde por que, nada – o tal VHS não tinha informação alguma! Era um mistério – dos bons. Até então, o ‘supershow’ pra mim era Woodstock. Mas isto aqui é bem mais interessante.

No vídeo que escolhi pra publicar aqui temos uma escalação que resume bem o espírito do Supershow: Jack Bruce, baixista do grupo de rock Cream; Buddy Guy, guitarrista de blues; Roland Kirk, saxofonista de jazz; e o baterista Jimmy Hope e o tecladista Ron Burton, ambos do grupo de jazz de Kirk. A música é Stormy Monday, um clássico do blues.

O filme completo:

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