Movimento dos barcos – Jards Macalé (com Maria Bethânia de brinde)

Tô cansado
E você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais

Que passa ao largo
Do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
Às coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

jards(Música do disco O Q Eu Faço É Música, de 1998. É uma composição de Jards Macalé em parceria com Capinan. O disco traz outras interessantes parcerias, com Glauber Rocha, Torquato Neto, Waly Salomão e Vinícius de Moraes)

PS. E achei a Maria Bethânia cantando essa música de maneira irresistível, não sem antes recitar Ultimatum, do Álvaro de Campos (texto de 1917).

Ultimatum – Álvaro de Campos

” Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas,
charlatão da sinceridade e tu da juba socialista
e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles
e a todos que sejam como eles, todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa,
inútil luxo, megalomania triunfante
e tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular,
que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vós que representais o mundo, homens altos,
passai por baixo do meu desprezo.
Passai aristocratas de tanga de ouro, passai frouxos.
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa descascar batatas simbólicas
fechem-me isso tudo a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter somente isso à minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande,
nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova.
O mundo tem sede de que se crie.
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores,
desprezo o que seja menos que descobrir um novo mundo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos,
fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.”

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