Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.
(Ana Cristina Cesar)
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.
(Ana Cristina Cesar)
Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
(Miguel Torga)
O texto e a foto abaixo foram publicados hoje num site X por uma pessoa Y (não publico os nomes porque não sei se estão sendo ou podem ser processados e tal) para discutir a falta de diversidade no meio publicitário. Estava gerando uma boa discussão quando de repente a publicação sumiu, foi retirada do ar. Hmmm, estranho não. Enfim, de qualquer forma, um colega me enviou uma copia e resolvi republicar porque é um assunto que precisamos discutir e muito.
(e vendo essa foto, agora entendo porque as peças publicitárias brasileiras têm mais ruivos do que na Irlanda… )

Sabe, passei muito tempo vendo a imagem da equipe da agência de publicidade F/Nazca e pensei: os caras realmente não conseguem enxergar o óbvio. Postada no dia 5 de dezembro, a foto celebra o título de agência com os clientes mais satisfeitos do mercado brasileiro. A grande equipe retratada não traz, aparentemente, nenhum negro entre a centenas de funcionários e isso é um retrato bastante fiel das agências do país.
Para quem não sabe, a F/Nazca é uma das maiores agências de publicidade do Brasil e cuida de contas de empresas gigantescas como Ambev (Skol e Guaraná Antártica) e Sadia. Entre prêmios e campanhas de grande alcance não há como se negar a importância e qualidade da agência, porem diante da imagem é difícil defender.
Agora, porque ninguém fala sobre isso? Simples, não há espaço para falar sobre isso. Quando se trabalha com publicidade o mercado é muito restrito, e eu mesmo, assinando esse texto, corro sérios riscos de nunca mais conseguir fazer trabalhos com a agência, algo que já fiz algumas vezes.
Temos um medo constante de criticar, interna ou publicamente os nossos locais de trabalho e com isso seguimos coniventes com um sistema completamente racista e machista. Não é possível afirmar com certeza, mas posso dizer que há uma grande chance da maioria das mulheres da imagem serem da área comercial ou de atendimento. Sim, ainda existem cargos majoritariamente masculinos e femininos dentro das agências e no caso delas o foco são as funções onde é preciso ser “bela, recatada e do lar”.
O recente caso da Alezzia Móveis é mais um dos muitos casos onde o machismo, sexismos e o racismo impera na publicidade e quando olhamos para a foto da F/Nazca conseguimos entender um pouco mais o porquê.
“As pessoas podem mudar o que quiser. E isso significa qualquer coisa no mundo. As pessoas estão correndo em suas pequenas trilhas – eu sou uma delas. Mas temos todos que parar de seguir nossa pequena trilha de rato. As pessoas podem fazer qualquer coisa – isso é algo que estou começando a aprender. As pessoas estão por aí fazendo coisas ruins umas às outras. Isso porque elas foram desumanizadas. Chegou a hora de tomar a humanidade de volta para o centro do ringue e segui-la por um tempo. Cobiça, não leva a lugar algum. Isso deveria estar escrito num imenso cartaz no Times Square. Sem as pessoas você é nada.”
O Facebook me trouxe uma lembrança hoje de um texto que escrevi em 2013 sobre meu pai e resolvi trazer pra cá. Não sei por que não tinha publicado aqui antes, enfim, essa porra de Facebook realmente fez um estrago danado no meu blog (nos nossos, né?), tirando dele a primazia de receber primeiro os textos que produzo – é um buraco negro que suga tudo, pqp! (ADENDO: eu tinha sim publicado no blog, à epoca. Tô ficando gagá, desculpem. Mas ainda assim, VTNC Facebook! )
Mas enfim, agora tá tudo certo. O texto é mais do que sobre meu pai, é sobre a necessidade de verbalizarmos sentimentos, de fazer o outro saber o quanto a gente se importa, se interessa, se preocupa. Foi escrito em agosto de 2013, dois anos depois de meu pai ter tido um AVC em Belo Horizonte – não lembro o que me levou a escrever o texto tanto tempo depois… aliás, lembro sim, mas xapralá! 🙂
Há uns dois anos, mais ou menos, meu pai teve um AVC. Foi em Belo Horizonte, onde ele visitava um casal de amigos. Logo que soube, fui de Brasília pra lá. Estava internado no hospital municipal de BH. O encontrei fragilizado como nunca vira antes. Guarda completamente baixa. Chorava muito, estava deprimido. Quando entrei na enfermaria e ele me viu, desabou em choro. O abracei, olhei em seus olhos e disse: “Tudo bem, pai. Deu tudo certo, você vai se recuperar. E estamos aqui pro que der e vier. Te amo muito, pai.” Nesse momento, me toquei: meu pai com mais de 70 anos e foi a primeira vez que eu disse a ele que o amava. E ele respondeu que também me amava, algo que não lembrava o velho já ter me dito. Choramos juntos.
Meu pai é um cara durão. Trabalhador, pouco estudo, grande sabedoria, coração ainda maior. Sei que me ama, sei que ama meus irmãos, mas não lembro dele ter dito isso claramente para nós em nossa vida adulta. Nunca verbalizou esse sentimento. Nunca disse claramente “eu te amo”. E isso fez uma falta danada. Por isso não canso de dizer aos meus filhos o quanto os amo. Porque quando o sentimento transborda é necessário que vire verbo.
Se não verbalizamos um sentimento para alguém, é como se ele não existisse. Pode ser verdadeiro e intenso para você, mas se fica entocado, é egoisticamente apenas seu. “No princípio era o verbo.” Somos humanos e uma das coisas que nos diferencia dos outros seres vivos é justamente a capacidade de verbalizar sentimentos. Ao fazê-lo, estabelecemos laços com o outro e deixamos claro o quanto ele é importante. É um ato de coragem, porque não é fácil traduzir em palavras o que está na mente e na alma. E sempre é possível que o outro não entenda, não aceite, não corresponda.
Demorei mais de 40 anos para dizer “eu te amo” a meu pai. E hoje, depois de um papo incrível com uma amiga mais incrível ainda, em que falamos de amor, sexo, família, trabalho, filhos, crise dos 40, a vida em geral, percebi que precisava dizer mais “eu te amo” para meu pai.
Pois é, coroa. Te amo. Muito.
Foi-se um grande poeta. Na morte de Clarice Lispector, Gullar escreveu:
“as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.”
Verdade. Mas a gente depende, poeta. Precisamos de mais poesia, hoje e sempre!
Descanse em paz.
#umpoemapordia

Como skatista, Tommy Guerrero era conhecido por um estilo mais largadão e descontraído, e assim conquistou fãs e sucesso na costa oeste dos Estados Unidos nos anos 80, fazendo parte de um time de skatistas profissionais da Califórnia. O tempo passa, e ele decide descambar pra seara da música, trocou os skates por violões. Começou tocando em pequenos grupos de São Francisco, depois se meteu em carreira solo, e vou te falar, tá fazendo bonito, com um estilo de música que vai do rock e jazz pro hip hop e funk.
Já gravou oito discos (um deles, Perpetual, foi lançado apenas digitalmente em 2015), dos quais escutei uns três com prazer entre ontem (em casa, quando o descobri por minhas navegações aleatórias pelo youtube) e hoje (no trabalho). Soul Food Taqueria (2003) tem mais elementos eletrônicos e de hip hop, Loose Grooves & Bastard Blues (1998, o primeirão) é mais cru e violeiro, já indicando os caminhos por onde seguiria, e o meu favorito (até o momento), Lifeboats and Follies (2011), que tá aí embaixo na íntegra, que é uma mistureba das boas de referências e muito bem gravado e editado. Destaquei uma das músicas do disco que mais me chamou a atenção, Que S’est-il Passe – seja pela boa batida latina e parceria suingada entre órgão e baixo, seja pelo divertido vídeo de turista no verão mediterrâneo.
Fotos de Yung Cheng Lin, também conhecida como 3cm. Mais fotos em seu Flickr.
Três coisas pra mim no mundo
Valem bem mais do que o resto
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto
O gesto é a voz do proibido
Escrita sem deixar traço
Chama, ordena, empurra, assusta
Vai longe com pouco espaço
É o passo, é o gesto, é o grito
É o gesto, é o grito, é o passo
O passo começa o vôo
Que vai do chão pro infinito
Pra mim que amo estrada aberta
Quem prende o passo é maldito
É o grito, é o passo, é o gesto
É o passo, é o gesto, é o grito
O grito explode o protesto
Se a boca já não dá espaço
Que guarde o que há pra ser dito
É o grito, é o passo, é o gesto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o passo, é o gesto, é o grito.
