Quando o sentimento transborda é necessário que vire verbo

O Facebook me trouxe uma lembrança hoje de um texto que escrevi em 2013 sobre meu pai e resolvi trazer pra cá. Não sei por que não tinha publicado aqui antes, enfim, essa porra de Facebook realmente fez um estrago danado no meu blog (nos nossos, né?), tirando dele a primazia de receber primeiro os textos que produzo – é um buraco negro que suga tudo, pqp! (ADENDO: eu tinha sim publicado no blog, à epoca. Tô ficando gagá, desculpem. Mas ainda assim, VTNC Facebook! )

Mas enfim, agora tá tudo certo. O texto é mais do que sobre meu pai, é sobre a necessidade de verbalizarmos sentimentos, de fazer o outro saber o quanto a gente se importa, se interessa, se preocupa. Foi escrito em agosto de 2013, dois anos depois de meu pai ter tido um AVC em Belo Horizonte – não lembro o que me levou a escrever o texto tanto tempo depois… aliás, lembro sim, mas xapralá! 🙂

Há uns dois anos, mais ou menos, meu pai teve um AVC. Foi em Belo Horizonte, onde ele visitava um casal de amigos. Logo que soube, fui de Brasília pra lá. Estava internado no hospital municipal de BH. O encontrei fragilizado como nunca vira antes. Guarda completamente baixa. Chorava muito, estava deprimido. Quando entrei na enfermaria e ele me viu, desabou em choro. O abracei, olhei em seus olhos e disse: “Tudo bem, pai. Deu tudo certo, você vai se recuperar. E estamos aqui pro que der e vier. Te amo muito, pai.” Nesse momento, me toquei: meu pai com mais de 70 anos e foi a primeira vez que eu disse a ele que o amava. E ele respondeu que também me amava, algo que não lembrava o velho já ter me dito. Choramos juntos.

Meu pai é um cara durão. Trabalhador, pouco estudo, grande sabedoria, coração ainda maior. Sei que me ama, sei que ama meus irmãos, mas não lembro dele ter dito isso claramente para nós em nossa vida adulta. Nunca verbalizou esse sentimento. Nunca disse claramente “eu te amo”. E isso fez uma falta danada. Por isso não canso de dizer aos meus filhos o quanto os amo. Porque quando o sentimento transborda é necessário que vire verbo.

Se não verbalizamos um sentimento para alguém, é como se ele não existisse. Pode ser verdadeiro e intenso para você, mas se fica entocado, é egoisticamente apenas seu. “No princípio era o verbo.” Somos humanos e uma das coisas que nos diferencia dos outros seres vivos é justamente a capacidade de verbalizar sentimentos. Ao fazê-lo, estabelecemos laços com o outro e deixamos claro o quanto ele é importante. É um ato de coragem, porque não é fácil traduzir em palavras o que está na mente e na alma. E sempre é possível que o outro não entenda, não aceite, não corresponda.

Demorei mais de 40 anos para dizer “eu te amo” a meu pai. E hoje, depois de um papo incrível com uma amiga mais incrível ainda, em que falamos de amor, sexo, família, trabalho, filhos, crise dos 40, a vida em geral, percebi que precisava dizer mais “eu te amo” para meu pai.

Pois é, coroa. Te amo. Muito.

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