Para Sempre Teu, Caio F., um documentário careta pr’um escritor vigoroso

A gente está de costas quando vai, de frente quando vem e meio de egípcia quando fica.

caio fernando abreu

Neste domingo de Páscoa eu só tinha uma preocupação: não perder o documentário sobre o escritor Caio Fernando Abreu no Cine Brasília, que estava em sessão única às 17 horas. Era o último dia. Fiquei triste em ver a imensa sala vazia, mas enfim, literatura e poesia não estão mesmo na moda no Brasil atualmente (se é que estiveram algum dia).

Produção do Canal Brasil baseada no livro da jornalista Paula Dib, Para Sempre Teu, Caio F. tem direção de Candé Salles e roteiro da própria Dib. O resultado é um filme por demais careta para um autor tão forte. Acerta nas muitas entrevistas com amigos, ex-companheiros de trabalho e familares, que ajudam a montar o complexo mosaico da vida e obra de Caio Fernando Abreu, mas se equivoca ao incluir encenações dramáticas de fases da vida dele, com atores semelhantes ao autor, que acabam ficando deslocadas no contexto geral. E o texto final, raso e simplista sobre a atual situação do Brasil e do mundo, certamente não combina com profundidade filosófica urbana do Caio. Completamente dispensável.

A escolha de atores globais jovens para declamar trechos da obra do Caio tem altos e baixos. Mas é uma delícia ouvir esses trechos, principalmente o declamado por Alexandre Borges, o Nicholas Cage brasileiro (e isso não é um elogio…). Ele lê um poema inédito, sem título, que é de rara beleza. Em certo momento, o que parece ser o texto original aparece nas mãos de Borges, completo, datilografado. Não o encontrei publicado online, mas achei este trecho:

Teu amor, pensei, podia me salvar/ Mas não salvou. Teu amor não veio/ Por isso que morro um pouco nesta tarde suja.

Outro ponto alto do filme, pra mim, foi a inclusão da participação de Caio Fernando Abreu no programa Roda Viva, da TV Cultura, na entrevista de 1991 com a escritora Rachel de Queiroz. O trecho escolhido para figurar no documentário é o momento em que Caio se diz ‘constrangido’ por estar ali homenageando a escritora, por ela ter contribuído para o Golpe de 1964 no Brasil. O programa pode ser visto na íntegra aqui.

São duas intervenções do Caio em que ele questiona Rachel sobre sua participação no golpe de 64 e no apoio à ditadura.

O primeiro trecho:

Caio Fernando Abreu: Rachel, não a conhecia pessoalmente e tenho duas imagens suas tão contraditórias. Quando eu era criança, o meu pai comprava sempre O Cruzeiro e eu lia aquela última página que você escrevia. E me lembro até hoje de uma crônica que, na verdade, era um conto, chamada “Miss”. E o meu pai dizia assim: “Não leia essa mulher, ela é comunista”. E depois, anos mais tarde, na faculdade, já em 67, 68, eu andava com um livro seu embaixo do braço, acho que era O quinze. E um colega meu disse assim: “Não leia essa mulher, ela é uma reacionária”. [risos]

Rachel de Queiroz: Para você ver como é.

Caio Fernando Abreu: Tenta juntar na minha cabeça essas duas imagens.

Rachel de Queiroz: Pois é. Na verdade nem sou comunista nem sou reacionária, sou propriamente anarquista, sou só uma doce anarquista. É a minha posição há muitos anos.

Caio Fernando Abreu: E por que passou essa imagem de reacionária?

Rachel de Queiroz: Porque essa [imagem] de reacionária foi o patrulhamento [que criou], me opus violentamente a Getúlio [Vargas (1882-1954), governou o Brasil de 1930 a 1934; de 1934 a 1937; de 1937 a 1945 no Estado Novo (como ditador) e de 1951 a 1954 como presidente eleito pelo voto direto], a Jango [João Goulart foi eleito duas vezes consecutivas vice-presidente do Brasil, em 1955 e em 1960. Na segunda vez, assumiu a Presidência do país, em 1961, após Jânio Quadros renunciar. Foi deposto por golpe militar em 31 de março de 1964], a [Leonel] Brizola [(1922-2004) influente político gaúcho que, em 1961, liderou a resistência contra o veto dos militares à posse do vice-presidente João Goulart (que era seu cunhado) após a renúncia de Jânio Quadros]. E então o patrulhamento toma conta da gente e faz o serviço.

Caio Fernando Abreu: Algo a ver com a revolução de 64?

Rachel de Queiroz: 64, sim, até a ascensão do Costa e Silva [durante seu governo, a ditadura no Brasil se consolidou com o fechamento do Congresso Nacional e a edção do Ato Institucional nº 5 (AI-5). A repressão policial se intensificou contra todo grupo ou foco de oposição política]. Só fui solidária com a revolução até aquele ponto, esperando uma eleição com um presidente civil.

Caio Fernando Abreu: Mas você apoiou os militares?

Rachel de Queiroz: Sim, em 64 sim.

Caio Fernando Abreu: Por quê, Rachel?

Rachel de Queiroz: Porque eu abominava o janguismo [refere-se ao pensamento ou à ação política de João Goulart] e ainda hoje abomino o Brizola, que representa o janguismo, o Getúlio. Era uma expressão disso tudo…

Caio Fernando Abreu: Mas você não tinha noção das torturas, de todo o horror que aconteceu depois?

Rachel de Queiroz: Não, espera aí. A revolução que apoiei foi enquanto Castelo Branco era presidente [foi o primeiro presidente do regime militar instaurado pelo golpe de 1964] e ele não fez tortura nenhuma, a intenção dele era fazer eleições para um presidente civil.

Caio Fernando Abreu: Mas ele não conseguiu.

Rachel de Queiroz: Não conseguiu, ele foi praticamente deposto. Fez‑se aquela eleição do Costa e Silva, mas o Castelo foi praticamente deposto pelo grupo militar que era mais forte, e era o grupo reacionário do Costa e Silva.

E o segundo trecho, em que Caio se diz constrangido e encerra sua participação no programa:

Caio Fernando Abreu: Quero falar uma última coisa. Estou me sentindo muito constrangido de estar aqui.

Rachel de Queiroz: Por quê?

Caio Fernando Abreu: E a última coisa, não vou me tornar constrangedor. Por várias coisas que você falou, concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país, no meu ponto de vista. Compreendo que todos nós somos humanos, erramos, nos equivocamos e tal, mas estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem a um tipo de ideologia que profundamente desprezo.

Jorge Escosteguy: Caio, você tem que fazer perguntas, e não render homenagem, desculpe.

Caio Fernando Abreu: Está certo.

Jorge Escosteguy: A entrevistada é a escritora Rachel de Queiroz.

Caio Fernando Abreu: Só queria dizer isto: não tenho mais perguntas a fazer. Minha participação se encerra aqui.

Rachel de Queiroz: Gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas.

Caio Fernando Abreu: Respeito, tanto que me calo.

Rachel de Queiroz: Pois é, se as minhas posições são constrangedoras, acho as suas também muito constrangedoras para mim. E realmente estou sendo exigida a me pronunciar sobre esses temas que eu não gostaria de ser, para não ser descortês com você, de forma que é recíproca a nossa posição.

(A transcrição do programa, na íntegra, você pode ler aqui.)

Para Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu era o escritor da paixão. Ela transbordava em seus escritos e em seu jeito cativante, que fez amigos de fé por onde passou. Merecia um filme mais quente, mais urbano, mais… apaixonante.

Espero que sirva pelo menos para que a galera que gosta de compartilhar suas frases certeiras pela internet compre mais seus livros – Morangos Mofados, Pequenas Epifanias ou O Ovo Apunhalado, entre tantos outros. Descobrirão que têm material para publicar no Facebook pelo resto da vida.

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Hooded Kiss – Ben Christophers

A deep river flows of weathered sins and weathered souls
A kiss a hooded kiss in the seeds of desire
So grief heavenly grief my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

I heard the wind has blown a blessed lie and lovers pains
Over streets and wires underneath alien streams
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

A river flows
Of weathered souls
But I can see shipwreckers eyes
And all that cutting stingray smile
A kiss a hooded kiss for the one I love

I crossed a lonely road a beggar with sullen clouds in my head
And these lines in my face for every tear you’re away
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

A river flows
Of weathered souls
But I can see shipwreckers eyes
And all that cutting stingray smile
A kiss a hooded kiss for the one I love
Sweet heavenly sweet bringing my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all
A cutting stingray smile

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Re-Volt: corrida de carrinhos de controle remoto com o melhor trance e techno da década de 1990

revolt-game-coverSempre fui fã de jogos eletrônicos. Era ‘rato de fliperama’ nos tempos de escola, para desespero do meu pai, e sabia jogar em praticamente todas as máquinas. Nunca tive grana pra ter em casa um console como Atari, mas quando chegou a era dos PCs, tirei o atraso com vontade. Comprei meu primeiro computador em 93, o bom e velho 486 DX2 66, que me serviu basicamente para duas coisas: fazer frilas de jornalismo e jogar. Como tinha amigos na faculdade de informática da UFRJ, conseguia qualquer jogo que quisesse.

Jogos eletrônicos, a exemplo de seus co-irmãos de tabuleiro, precisam ser engenhosos e criativos para cair no gosto do público. E ter uma infinidade de possíveis finais – não à toa o xadrez é o rei dos jogos. No caso dos eletrônicos, essa inventividade pode ser seriamente prejudicada se não vier com visuais incríveis, jogabilidade perfeita e, claro, uma trilha sonora matadora, que te hipnotiza madrugada adentro. Se puder jogar online, com gente do mundo inteiro, melhor ainda.

Os jogos de corrida atraem tanto porque o final é sempre altamente imprevisível. Como numa corrida real, um vacilo e acabou. A adrenalina é alta semper. O ‘pré-histórico’ Indy 500 era genial; Mario Kart, brilhante. Mas Re-Volt é o estado da arte em termos não apenas de jogos de corrida como de jogos eletrônicos no geral. São carrinhos de controle remoto (sabe aqueles que o pessoal leva pra parques?) que disputam prêmios em cenários como o deck de um navio, as ruas da vizinhança, o interior de um supermercado ou de um museu. No meio do caminho há itens que você pegar e usar contra seus adversários – pode ser uma bola de ferro, um pulso eletromagnético, fogos de artifício ou poças de óleo.

Re-Volt foi lançado em 1999 para consoles e PC, e depois meio que sumiu. Reencontrei agora no meu celular Android e estou matando as saudades – das corridas, dos cenários divertidíssimos e a inesquecível trilha sonora, composta por músicas house, trance e techno. Claro que fui procurar no youtube e encontrei todas. Abaixo as minhas favoritas:

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Temporada 7 do RuPaul’s Drag Race: podcast #1 das vadias da 209

rupaulcast

E depois de semanas a fio assistindo ao programa da RuPaul nas noites de terça-feira, a galera que vem aqui em casa para esse compromisso drag resolveu criar enfim um podcast pra eternizar os brilhantes e polêmicos debates que rolam após cada episódio. Com vocês, o podcast das bitches da 209!

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Aos Predadores da Utopia – Lau Siqueira #umpoemapordia

dentro de mim
morreram muitos tigres

os que ficaram
no entanto
são livres

lau(Poema de Lau Siqueira, nascido em Jaguarão (RS) em 1957. Foi escrito em 1992 e publicado pela primeira vez em 1998. Em 2013, integrou a seleção de poesias da edição especial da revista Suplemento Literário, da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, dedicada à nova poesia brasileira produzida a partir de 1960, com comentários de poetas contemporâneos.)

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Não me cante canções do dia

Los amantes de Pon Neuf

“Não me cante canções do dia, pois o sol é inimigo dos amantes. Cante as sombras e a escuridão, cante as lembranças da meia-noite.”

Trecho de poema da poetisa grega Safo, que viveu no século 7 a.C. na cidade lésbia de Mitilene.

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Telefone – Gang 90 & Absurdettes

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
São três horas da manhã, você me chama
Com seu papo poesia me transcende
Oh meu amor
Isso é amor
Oh meu amor
Isso é amor
É amor… é amor…
Sua voz está tão longe ao telefone
Fale alto mesmo grite não se importe
Pra quem ama a distância não é lance
Nossa onda de amor não há quem corte
Oh meu amor
Isso é amor
Oh meu amor
Isso é amor
É amor… é amor…
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte
Oh meu amor
Isso é amor
Oh meu amor
Isso é amor

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A alquimia do texto literário

“Todo livro que permite a um leitor relacionar-se com ele postula uma questão moral. Ou melhor: se um leitor é capaz de ir além da superfície de determinado texto, tal leitor pode extrair de suas profundezas uma questão moral, mesmo que essa questão não tenha sido formulada pelo escritor com muitas palavras, pois sua presença implícita desperta no leitor, de qualquer modo, uma emoção à flor da pele, um pressentimento ou simplesmente uma lembrança de algo que conhecemos há muito tempo.

Por meio dessa alquimia, todo texto literário torna-se, em certo sentido, metafórico.”

chapeleiro(Alberto Manguel, ensaísta e escritor argentino, em À Mesa com o Chapeleiro Maluco – ensaios sobre corvos e escrivaninhas – ed. Companhia das Letras)

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Elegia – Aleksandr Pushkin #umpoemapordia

Dos anos loucos a alegria extinta,
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.
É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.

Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.
E sei que há gozos para mim guardados
Entre aflições, desgostos e cuidados:
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,
E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.

———

Элегиа

Безумных лет угасшее веселье
Мне тяжело, как смутное похмелье.
Но, как вино – печаль минувших дней
В моей душе чем старе, тем сильней.
Мой путь уныл. Сулит мне труд и горе
Грядушего волнуемое море.

Но не хочу, о други умирать;
Я жить хочу, чтоб мыслить и страдать;
И велаю, мне будут наслажденья
Меж горестей, забот и треволнеья:
Порой опять гармонией упьюсь,
Над вымыслом слезами обольюсь,
И может быть – на мой закат печальный
Влеснет любовь улыбкою прощальной.

pushkin(Alexandre Pushkin é poeta e dramaturgo russo, nascido em 1799 em Moscou, considerado um dos fundadores da moderna literatura russa. Inovou ao trazer temas populares a poemas e romances. Vários de seus poemas viraram óperas de Tchaikovsky, Rimski-Korsakov, Mussorgski, e faziam sucesso tanto na corte do tzares quanto entre o povo. Morreu aos 37 anos. Ao saber da morte de Pushkin, Gogol lamentou: ‘Que esquisito, a Rússia sem Pushkin!’ Foi enterrado às escondidas, por medo de revolta popular.)

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Felenko Yefe – Momo Wandel Soumah

momMúsica do cantor, compositor e saxofonista Momo Wandel Soumah, da República de Guiné, na África. Foi diretor do Circo Baobá, trupe itinerante de dançarinos, músicos e acrobatas. Misturava blues, jazz e música tradicional africana. Morreu em 2003. Aqui uma playlist com outras músicas de Momo Wandel.

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