O contrário de nada é nada – Mutantes

Muito tempo eu andei contra o vento
Mas agora é hora e mudar
Pois o contrário de nada é nada
E assim não se sai do lugar
Quando a cuca da gente se enrola
E se pergunta de que lado vai ficar
Eu sei que Deus está em todas as coisas
Mas contra não está
Se os gregos e troianos atacam
E seus pés já não tem onde pisar
E se você quiser saber onde eu fico é só me escutar
Rock’n’roll yeah! Rock’n’roll yeah!
Rock’n’roll yeah! Rock’n’roll yeah!
Quando a mente está em pleno silêncio
Não esta nessa, e muito menos naquela
É ai que você pode então escolher
Quem conhece bem o branco e o preto
Já viveu e já morreu no caminho
Está pronto para as cores do sol receber

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Os lados – Paulo Mendes Campos #umpoemapordia

Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.
Em campo de palavra, folha branca.

Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,
Sois em mim o lado irreal.

Há um lado em mim que é mudo.
Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.

Um lado vulgar em mim,
Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:

Abelhas desordenadas de meu beijo;
Sei usar com delicadez um telefone,
Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém.

Um animal em mim,
Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo…

Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio
Como um discurso,
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.

Há um lado em mim que está sempre no bar,
Bebendo sem parar.

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.

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Otis e Leon

Esses dois aniversariantes de hoje tiveram um papel muito importante na minha vida, desde a adolescência, entao fica aqui minha singela homenagem:

otisOtis Redding, cantor americano de blues/soul que conquistou meio mundo com sua voz carregada de emoção e repertório impecável, morto aos 27 anos num acidente de avião com os integrantes de sua banda de apoio, os Bar-Keys. Conheci ao fuçar a discoteca de um primo. Minhas canções favoritas: A Change is Gonna Come, These Arms Of Mine, Cigarettes and Coffee.

tolstoiLeon Tolstoi, escritor russo que conquistou meio mundo com romances históricos como Guerra e Paz e Anna Karenina que destrincharam a estupidez da guerra e a hipocrisia social, morto aos 82 anos numa pequena estação de trem no interior da Rússia, após fugir de casa (!) em busca de uma vida mais simples. Conheci ao fuçar a biblioteca de um tio. Meus livros favoritos: Guerra e Paz, A Morte de Ivan Ilitch.

“Todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa em mudar a si mesmo.”

“Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida. – Liev Tolstói em Guerra e Paz.”

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Baile dos Enforcados (fragmento) – Arthur Rimbaud

rimbaud

Na forca negra, amável maneta
Dançam, dançam os paladinos,
Os magros paladinos do diabo,
Os esqueletos dos Saladinos.

Compadre Belzebu puxa pela gravata
Seus fantoches que aos céus fazem negra careta,
E açoitando-os na cara a golpes de sapata,
Fá-los dançar ao som de velhas cançonetas!

Enlaçam-se na dança os braços e as canelas,
Órgãos negros ao vento, os seus furos expondo,
Esses peitos que outrora abraçaram donzelas
Se embatem lentamente em seu amor hediondo.

Já não gasta sandália o duro calcanhar!
A camisa de pele a maioria arranca;
O resto vê-se bem sem muito se acanhar.
Sobre as calvas, a neve aplica a touca branca;

Serve o corvo de pluma ao crânio a que se entrega;
De um magro queixo pende a carne nunca farta.
Dir-se-iam, a voltear em lúgubre refrega,
Campeões, hirtos, chocando armaduras de carta.

Hurra! o vento a assoviar no baile de esqueletos!
A negra forca muge – é um férreo órgão de uivos!
Lobos respondem, longe, em seus bosques de abetos
E o céu tem, no horizonte, a cor de infernos ruivos…

Vamos lá, balançai meus fúnebres farsantes
Que desfiam, fingindo, em dedos desconjuntos
Um rosário de amor nas vértebras hiantes:
Não estais num mosteiro, ó restos de defuntos!

Nessa dança macabra, eis que então, repentino,
Um esqueleto salta aos céus em alvoroço
Levado em seu afã, como um cavalo a pino;
E, sentindo inda a corda esticar-lhe o pescoço,

Crispa seus dedos sobre o fêmur que se solta
Com gritos que são mais chacotas e risadas,
E assim como o bufão que ao picadeiro volta,
Chocalha-se no baile ao canto das ossadas.

Na forca negra, o amável maneta,
Dançam, dançam os paladinos,
Os paladinos do capeta,
Esqueletos de Saladinos.

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A arte de jejuar (por Herman Hesse, em Sidarta)

– Que sabes fazer?
– Sei pensar, sei esperar, sei jejuar.
– E que valor tem esses conhecimentos? O jejum, por exemplo. Para que serve o jejum?
– Para quem nao tiver o que comer, o jejum será a coisa mais inteligente que se possa fazer. Se, por exemplo, Sidarta não tivesse aprendido a suportar o jejum estaria obrigado a aceitar hoje mesmo um serviço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome o forçaria a fazê-lo. Assim, porém, Sidarta pode aguardar os acontecimentos com toda calma. Não sabe o que é impaciência. Para ele não existem situações embaraçosas. Sidarta pode aguentar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir-se dela.

(Trecho de Sidarta, livro de Herman Hesse, 1922)

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Nada Acontece Duas Vezes – Wislawa Szymborska #umpoemapordia

Nada acontece duas vezes
e nem acontecerá. Por este motivo
nasceremos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo que fossemos os mais estúpidos
alunos do mundo na escola,
não vamos repetir
nenhum inverno, nenhum verão.

Nenhum dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos do mesmo jeito,
duas mesmas trocas de olhar.

Ontem, que alguém pronunciou
teu nome alto perto de mim,
foi como se uma rosa me tivessem
atirado por uma janela aberta.

Hoje, que estamos juntos,
virei o rosto para a parede.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor? Talvez uma pedra?

Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?
Se és – então tens de passar.
Se passarás – então será bela.

Sorridentes, abraçados,
tentaremos buscar um acordo,
mesmo que sejamos diferentes
como dois pingos de água limpa.

Captura de Tela 2016-08-26 às 13.56.59Poema de Wislawa Szymborska, autora, crítica literária e tradutora polonesa que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Foi do Partido Comunista polonês, e por isso foi muito criticada, por seu apoio ao regime stalinista na URSS. Rompeu com o partido em 1966. A Companhia das Letras editou um livro de poesias dela.

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Learn to Fly – Twinemen

Deep inside a hole
At the bottom of a well
I think you understand it
Yes we’ve all been there

There’s nowhere left to go
At the bottom of a hole
When the wheels are coming off
And the walls come in around you

Spread your wings and fly
It’ll probably astound you
When you’re in the air
No one can find you

Prepare for flight
You prepare for flying
You prepare for the flight
Learn to fly
Learn to fly
Learn to fly

All the distant shores don’t know
All the places that you’ve seen
All the storms below
The places that you’ve been

It’s higher in the air
It’s so high
Reflections of light
Reflexes of flight

All the distant shores don’t know
All the places that you’ve seen
All the storms below
The places that you’ve been

All the distant shores don’t know
All the things that you’ve been told
From influential guests
The advisor gave his best

Do you mind if I suggest
I think that I should say
If you wanna live this life
Learn to fly

Learn to fly

Learn to fly
Learn to fly
Learn to fly

(Twinemen foi criada após a morte do Mark Sandman, líder do grupo Morphine. Os integrantes remanescentes decidiram continuar tocando juntos, convidaram a Laurie Sargent pra assumir os vocais e gravaram três discos espetaculares. Mês passado, escrevi aqui sobre outra banda ligada ao Mark Sandman e seu grupo Morphine, Treat Her Right – uma banda legal dos anos 80, que deu origem a uma banda maneira dos anos 90, que por sua vez gerou outro grupo phueda nos anos 2000. Um ciclo e tanto. Abaixo, um show de 2002 do Twinemen, em Chicago)

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A cena musical de Blockhead

Conheci esse Blockhead hoje graças ao algoritmo do Youtube, que oferece todo dia uma lista diferente de artistas pra gente conferir. E como bom expedicionário musical que sou, cliquei pra ver qual era do som desse artista de hip hop/trip hop de Nova York. Pra que, não consigo mais parar de ouvir.
É bom que se diga, meu aleatorismo tá afinado, quase sob controle (como se fosse possível, mas enfim…), com algumas premissas básicas que me guiam pela selva de vídeos do Youtube, a salvo de obviedades e armadilhas sonoras.
No caso The Music Scene (2009), a música foi o último aspecto de minha rendição ao Blockhead. Antes, seguindo a teoria de que disco bom tem capa legal, fui fisgado pela arte do disco, com animais em um cenário urbano meio que sendo retomado pela natureza, parecendo indicar que o artista vislumbra uma cena musical em processo de transformação, de resgate do primordial da música – melodia, harmonia, arranjos. Também curti o cuidado com que a descrição do artista foi escrita, revelando um pouco do seu processo de criação, e os comentários ao vídeo, em boa parte agregando informações sobre o Blockhead, seu som e trabalhos anteriores.
Pois então, eis a fórmula de meus encontros com tais fortuitas sonoridades. E desde que adotei esse, digamos, código de conduta online, descobri muita coisa boa e evitei grandes furadas (principalmente aquelas incensadas por certos modismos e elogios panfletários).
O disco completo:

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Big Medice – Treat Her Right

Treat Her Right é uma bandinha maneira dos anos 80 que gerou outra bandinha maneira nos anos 90 (a Morphine). Em comum, além do vocalista e baixista Mark Sandman e o baterista Billy Conway, uma sonoridade meio blues, meio rockabilly, com pegada roquenrol e clima vudu-entorpecido do pântano mais próximo.

Quando comprei esse LP por algumas merrecas anos atrás no Rio numa loja que estava liquidando todas as bolachas pra abrir espaços pros CDs, não tinha a menor ideia do que estava levando pra casa. Gostei pacas, mas não encontrava mais nada deles, frustração da porra – eram tempos pré-internet, e minhas habilidades de expedicionário musical ainda eram bem insipientes. Anos depois, gloria gloria, conheci Morphine e conectei de prima com o som, claro. Memória afetiva-musical ativada aos primeiros acordes.

E hoje, graças às minhas avançadas técnicas de aleatorismo aplicadas aos robozinhos algorítmicos do Youtube, me deparei novamente com esse som. Isso é mágica, bebê. Prazeres aleatórios me interessam.

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Hard Time Killing Floor Blues – RL Burnside

Hard time’s is here
An ev’rywhere you go
Times are harder
Than th’ever been befo’

You know that people
They are driftin’ from do’ to do’
But they can’t find no heaven
I don’t care where they go

People, if I ever can get up
Off a-this old hard killin’ flo’
Lord, I’ll never get down
This low no mo’

Well, you hear me singin’
This old lonesome song
People, you know these hard times
Can’t last us so long

You know, you’ll say you had money
You better be sho’
But these hard times gon’ kill you
Just drive a lonely soul

RL(canção composta por Skip James e gravada originalmente em 1931 para a Paramount nos Estados Unidos em discos de 78 rpm. Skip foi retratado por Wim Wenders para a série The Blues. Esta versão de RL Burnside faz parte do disco Wish I Was in Heaven Sitting Down, de 2000, em que as músicas ganharam toques eletrônicos e de hip hop.)

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