Morre Harvey Pekar, o cronista da vida comum

O inquieto Harvey Pekar finalmente vai descansar. O quadrinista morreu hoje, aos 70 anos, em sua casa em Cleveland, Ohio (EUA) – ele sofria de câncer na próstata, asma e depressão. O jornal da cidade fez uma bela homenagem a ele, vale dar uma lida.

O universo das HQs perde assim o seu Mark Twain, o cronista das vidas ordinárias, que revelava o quão complexa pode ser a vida do mais comum dos cidadãos. Ele próprio não tinha uma vida das mais emocionantes: era arquivista, colecionador/crítico diletante de jazz e teórico de quadrinhos. Passou 10 anos elaborando suas ideias sobre HQs até finalmente por a mão na massa, com a providencial ajuda de Robert Crumb, também amante de jazz e quadrinista underground. Dessa parceria saiu a HQ American Splendor, série autobiográfica focada no dia-a-dia de Pekar e seus amigos. A revista continua sendo editada nos Estados Unidos – não mais desenhada por Crumb.

Harvey era um provocador, um tipo socrático que realmente incomodava. Dave Letterman que o diga, o entrevistou três vezes (se não me engano) e em todas elas saiu do sério – clique aqui para vê-las, e também outros vídeos no youtube. Veja uma das entrevistas, a minha preferida, em que Harvey Pekar entra no estúdio com uma camiseta em defesa dos funcionários da NBC que estavam em greve!

Em 2003, fizeram um filme sobre sua vida e obra, Esplendor Americano (vendedor do prêmio do júri do festival de Sundance) com o excelente Paul Giamatti encarnando Pekar, numa atuação brilhante. Como todo bom ator, Paul se transforma no personagem mesmo não sendo nada parecido com ele. Veja o trailer:

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O último trabalho de Pekar foi uma adaptação gráfica do livro Working, de Louis ‘Studs’ Terkel, sobre a rotina dos trabalhadores americanos na década de 1970. Na Amazon é possível bisbilhotar algumas páginas do livro – clique aqui.

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Sob o céu de Brasília

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Ainda não abri minha conta Pro no Flickr mas agora que estou pegando o jeito com a minha nova câmera, não vai ter outro jeito. Quero registrar minha terceira passagem por Brasília e meu encanto por esse céu que não acaba mais. Batizei o projeto de Sob o Céu de Brasília, que você pode acompanhar aqui. Tem poucas fotos ainda, mas aos poucos vou atualizando. Um incentivo e tanto pra eu, a partir de agora, circular pela cidade com a G11, será minha companheira inseparável, afinal de contas, nunca se sabe quando o céu do Planalto Central irá nos surpreender – e olha, ele sempre surpreende.

Todas as fotos estarão sob a licença Creative Commons e poderão ser baixadas, usadas, acho que até modificadas (ter que ver lá), desde que dada a fonte, ok? Be my guest!

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Górki Facts


(Trecho do filme A Mãe, baseado no livro de Górki)

Quando Máximo Górki apareceu, foi saudado como o escritor que faltava à Rússia. Até então a literatura do país dos czares era dominada por escritores de famílias abastadas, alguns nobres, mas nenhum do povão. Gente como Pushkin, Gógol e Tolstói tinha legítimas preocupações sociais, mas não vivera na carne as agruras dos miseráveis, não como Górki. Órfão de pai e mãe, criado pelo avô, trabalhava desde criança para comer e pré-adolescente ainda ganhou o mundo, perambulando de cidade em cidade em busca de trabalho, sempre acompanhado de malandros, ciganos, prostitutas, assaltantes, bêbados, vagabundos. Aprendeu a ler pré-adolescente graças aos livros que lhe emprestava um cozinheiro. Quando a nata literária de Moscou começou a tomar ciência de seus livros, publicados na raça, Górki recebeu um conselho: “Escreve sobre o que conhece, o que viveu”. E ele o fez, como poucos haviam feito antes. Ao adotar Górki (‘amargo’ em russo), o novo escritor deu a senha do que se tratavam seus livros. Transportou a realidade nua e crua para páginas e páginas de peças e romances – sem filtros, sem lapidação. Os feios, sujos e malvados, e suas ofensas e grosseiras, são revelados sem muito pudor.

Sua literatura não é das mais rebuscadas e hoje não figura entre os nomes mais badalados, mas à época causou furor. Chamou a atenção, por exemplo de Anton Tchecov, com quem trocou extensa correspondência e cujos conselhos usou para aprimorar seus textos. Foi alçado ao olimpo literário na Rússia pós-revolução. É tido como pai do realismo socialista. Apesar de ter caído nas graças do regime soviético, ainda assim incomodava por manter críticas aos bolqueviques.

Na aula do meu curso de literatura russa lemos vários contos dele: Vinte e Seis e Uma, Assassinos, Fôlego Perdido, A Mamãe Kemski, À Guisa de Posfácio, Quadro de Costumes, Um Guia – aqui tem alguns livros dele online, em inglês.

Segue abaixo o que tuitei sobre a aula, na semana retrasada. A aula seguinte à Górki foi sobre Mikhail Bulgákov, de quem lemos O Mestre e Margarida (aqui uma boa resenha sobre o livro), já também devidamente tuitada. Espero amanhã fazer o post sobre Bulgákov e o livro – que comprei na Cultura e já estou terminando!

* Maximo Gorki nasceu em 1868 em Novgorod, morreu em 1936 em Moscou

* nome verdadeiro era Aleksei Maksimovich Peshkov. Adotou pseudonimo para fugir da perseguicao da policia do Czar Nicolau II

* órfao de pai e mae, foi criado pelo avo materno. Familia pobre, trabalhava desde os 5 anos

* fugiu de casa e passou a perambular de cidade em cidade, procurando trabalho

* foi estivador, pescador no mar Caspio, vendedor de frutas, vigia de teatro

* trabalhando como ajudante d cozinha, começou a ler graças aos livros q o cozinheiro lhe emprestava

* aos 15 anos publicou seus primeiros romances

* aos 19 anos, desesperado c/ situacao precaria, tenta o suicidio. Sobrevive mas passa o resto da vida c tuberculose

* aos 22 anos, Gorki é preso por atividades subversivas

* ao ser libertado, volta a perambular na companhia de indigentes em busca de trabalho

* primeiro emprego fixo e + rentavel foi de jornalista. Escreve 1a peça em 1901, Pequenos Burgueses, q faz grande sucesso

* Gorki sempre esteve metido em atividades revolucionarias. Foi amigo d Lenin, Tchecov, Tolstoi e Stalin

* Tchecov foi d seus mentores literarios. Dava dicas d como escrever melhor e sugeria cortes em textos seus

* trocava correspondencia com Tchecov e frequentava a casa de Tolstoi

* Korolenko, outro mentor d Gorki, deu a senha: ‘escreve sobre o que voce conhece’. No caso, o submundo, a miseria

* Gorki foi saudado como o escritor q faltava à Russia, da classe mais baixa, dos sujos, feios e malvados

* moeda d troca: Gorki da acesso aos intelectuais ao submundo e estes lhe abrem as portas da academia

* foi o escritor da transicao da Russia pré e pos revolucionaria, tido como o pai do realismo socialista

* ainda assim, incomodava o status quo sovietico, por questionar modus operandi dos bolcheviques

* txts de Gorki sao simples, diretos, sem afetacao ou rebuscamento, nao filtrava realidade

* seus txts nao tem a metafisica d Dostoievski ou a religiosidade d Tolstoi, mas o materialismo d Marx

* Gorki quer dizer ‘amargo’ em russo. Ofensas e grosserias aparecem em seus txts como nunca antes na literatura russa

* em Folego Perdido critica atitudes do novo regime sovietico, denunciando prisoes e torturas d adversarios politicos

* 2 anos dps de sua morte, Trotski acusa Stalin de ter mandado envenena-lo. Gorki morreu em 36, d pneumonia

* foi casado 3 vezes, foi exilado da Russia czarista – primeiro nos Eua, dps em Capri, na Italia

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O Fotógrafo

texto extraído do livro:

Ensaios fotográficos – Manoel de Barros

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

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No Logo – Naomi Klein

Naomi Klein – Sem Logo

Boa leitura! Veja o site do livro aqui

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Tolstoi Facts

A vida predomina em Tolstoi tanto quanto a alma predomina em Dostoievski.

A frase que abre este post foi retirada do livro O Leitor Comum (leia aqui), de Virginia Woolf, cujo capítulo O Ponto de Vista dos Russos é dedicado a esses dois escritores e mais Tchecov. Nada mais verdadeiro. Do pouco que li de Tolstoi, vi realmente a vida transbordar em cada página, em cada personagem, em cada trama. Gosto dos jogos mentais do Dostoievski, mas há momentos em que Tolstoi cai melhor. Estou lendo Guerra e Paz (leia aqui, em inglês) no momento, sua obra-prima gigantesca, sem querer devorá-la de uma vez – é livro pra se curtir em doses homeopáticas. O curioso é que mesmo com a infinidade de personagens e tramas, dificilmente perdemos o fio da meada, tal é o envolvimento que Tolstoi consegue de seu leitor.

Na aula de terça-feira passada do meu curso de literatura russa (que faço lá no Sebinho da 406 norte, nunca é demais lembrar), lemos dois textos curtos de Tolstoi: A Morte de Ivan Ilich e Senhores e Servos (clique aqui para ler). Curiosamente, os dois tratam da morte. Como bom cristão que era, via a morte como salvação para os que sofrem em vida. Não era um fatalista, longe disso. Tinha apenas a convicção de que a aceitação da morte era a melhor forma de se valorizar a vida – ver este interessante artigo sobre o tema. Viveu intensamente e, aos 82 anos, fugiu de casa e decidiu ganhar o mundo, de trem, com um pequeno grupo de seguidores, para levar seu anarco-cristianismo pela Rússia. Morreu numa estação de trem, de pneumonia.

Ao fim da aula, rolou uma discussão entre os pró-Dostoiévski pró-Tolstoi – estilo fla x flu, chico x caetano. O primeiro grupo disse preferir o autor de Crime e Castigo porque seus personagens são mais reais, mais a ver com o que encontramos por aí no dia-a-dia. Já os de Tolstoi seriam muito idealizados. Defendi Tolstoi lembrando que ele, como professor, era didático e dava a seus personagens características estereotipadas justamente para marcar suas ações. Dois mestres, duas escolas. Em ambos os casos, literatura de primeira.

Amanhã a aula será dedicada a Nikolai Leskov, a quem Tchecov considerava um professor. Se quiser acompanhar minha ‘tweet-aula’ sobre literatura russa, me siga no twitter aqui. Começo imediatamente após a aula, a partir das 22 horas.

Seguem abaixo as tuitadas sobre Tolstoi que dei na última terça. Ah, curiosidade: no Twitter, há perfis falsos (e divertidíssimos) de Tolstoi, Dostoievski e Turgueniev. Seus autores simulam a personalidade de cada um e eles vivem se provocando por lá: Tolstoi pergunta se Dostoievski continua fazendo dívidas, Dostoievski retruca perguntando se Tolstoi continua fazendo filhos bastardos, e Turgueniev vive cobrando Dostoiesvki uma antiga dívida. O Dostoievski do Twitter, aliás, me ajudou na ‘tweet-aula’, passando links interessantes, como esse vídeo que mostra Tolstoi no final da vida quando passou a perambular pela Rússia de trem e de seu caixão sendo carregado pela multidão.

* Liev (ou Leon) Tolstoi nasceu em 1828 na cidade de Yasnaya Polyana e morreu em 1910, em Astapovo, aos 82 anos.

* Era conde e perdeu os pais cedo. Foi criado pelos tios. Na juventude, foi soldado, beberrão, viciado em jogo e curtia esbórnia c prostitutas

* Suas obras-primas são os romances Anna Karenina e Guerra e Paz, q consumiu 7 anos de trabalho e foi publicado em capitulos entre 1865 e 1869

* Guerra e Paz narra a história da Rússia e guerras napoleônicas. Foi inovador à época e muitos críticos não consideram o livro um romance

* Guerra e Paz foi inspirado num livro homônimo do teórico anarquista francês Proudhon, de 1861. Muitos diálogos foram escritos em francês

* Ao contrario de Dostoievski, + claustrofóbico, Tolstoi preza em seus textos grandes espaços. O 1o. é mais subterrâneo; Tolstoi, luminoso

* Base do pensamento de Tolstoi é o ‘bom selvagem’ de Jean-Jacques Rousseau e em sua obra O Contrato Social (para ler o livro, clique aqui).

* Para anarquistas de sua época, Tolstói era um ‘anarquista cristão’, por ele ser contra a dominação do Estado, da Igreja e seus dogmas

* Mas Tolstói ñ acreditava na revolução pela violência, mas sim na revolução moral individual. Pregava a vida simples e próxima à natureza

* Escrevia de manhã, dizia q a mente estava + clara nesse período – Dostoievsky preferia a noite (ver aqui).

* Era contra a exploração do trabalho alheio e assim passou a viver do que produzia – fazia a própria roupa, sapatos, plantava o q comia

* Com seu pacifismo e pregação da não-violência, inspirou Mahatma Gandhi, com quem trocou correspondência

* Chegou a abrir mão dos direitos autorais de suas obras – 90 no total, 14 das quais são diários

* Se revoltou contra a literatura algumas vezes, deixando de escrever, por entender q servia ao status quo. Mas sempre voltava ao ofício

* As novelas A Morte de Ivan Ilitch e Senhores e Servos, q tratam da morte, escritas após retorno de 1 desses períodos de abandono da escrita

* No final da déc 1850, fundou escola p filhos de camponeses em q pregava o desapego à autoridade. Ñ havia regras p alunos, nem punições

* Foi casado com Sonia Bers, com quem teve 13 filhos. Dedicou-se à família por 15 anos, quando escreveu Guerra e Paz e Anna Karenina

* Por suas idéias e ações tidas como anarquistas, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa em 1901

* Foi vigiado pela polícia do czar Alexandre III e só não foi preso pq era idolatrado em toda a Rússia e Europa.

* Era muito cobrado pela mulher e filhos pela vida simples que exigia q todos tivessem em sua propriedade. Acabou fugindo de casa aos 82 anos

* Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. Leon Tolstói

* Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

* Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.

* Após fugir de casa, em busca da vida simples que tanto pregava, Tolstói passou a vagar pela Rússia, viajando de trem em vagões de 3a. classe

* Foi encontrado morto, por pneumonia, numa estação de trem da pequena cidade de Astapovo. Foi enterrado lá, à sombra de uma árvore

* O poeta Mario Quintana escreveu um poema em homenagem a Tolstoi – Poema da Gare de Astapovo

* E seu arquiinimigo @FMDostoyevsky me manda imagens do Youtube de Tolstói em 1908. Tks, my friend!

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Apartamento inteligente

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Dostoiévsky Facts

Na lápide do túmulo de Fiódor Dostoiévsky em São Petersburgo está escrito:

Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.

E como deu frutos a obra de Dostoiévsky. Nietzsche, Sartre, Camus, Kafka, Freud, Proust, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, todos devem tributo ao mestre russo, nascido em 1821 em Moscou. Epiléptico como Machado de Assis, influenciou o existencialismo, o modernismo literário, a psicologia e a teologia. Foi condenado à morte por ler textos censurados em público, mas teve a pena alterada quando já estava de frente para o pelotão de fuzilamento, sendo então levado à Sibéria para 4 anos de trabalhos forçados.

A última aula do meu curso de literatura russa, terça passada, foi sobre o autor de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov e O Idiota. Dos autores que estudei no curso até agora, é sem dúvida o mais controverso, polêmico e instigante. Tanto que a tuitada sobre ele após a aula foi gigantesca. Vamos a ela:

* Nasceu em Moscou em 1821 num hospital para indigentes, onde seu pai trabalhava. Hoje o hospital abriga o Museu Dostoiévski de Moscou

* Dostoiévski passou quatro anos preso em Omsk, na Sibéria, condenado a trabalhos forçados, acusado de conspirar contra o czar Nicolau I

* Dostoievski participava de reuniões do Círculo Petrashevski e numa delas leu um texto de Bielinski que acusava Gógol de ter virado czarista

* A pena inicial dada a Dostoiévski e seus companheiros era morte por fuzilamento. Chegou a ficar de frente ao pelotão mas ordem foi cancelada

* Esse foi momento chave na vida e obra de Dostoiévski. A partir daí, se afastou de ideias revolucionárias e se tornou cada vez mais moralista

* Na prisão na Sibéria só podia ler um tipo de livro: o evangelho. Suas memórias desse período estão em Memórias da Casa dos Mortos (1862)

* Dostoiévski tinha 28 anos quando foi condenado à morte – e depois aos trabalhos forçados na Sibéria

* Em carta ao irmão Mikhail, Dostoiévski diz que “renasceu” para nova vida. O ideal de Cristo se torna grande referencial moral em sua vida

* Dostoiévski já conhecia bem a Bíblia, leitura obrigatória em sua casa quando pequeno. Essa moral cristã vai permear boa parte de sua obra

* Seu pai foi assassinado quando tinha 18 anos, pelos servos de suas terras. Aos 20, começou 1o. txts, os dramas Maria Stuart e Boris Gudonov

* Sempre trabalhou muito com a paródia, a imitação, suas obras têm muitas referências, dialogando muito com outros escritores

* Assim como Nelson Rodrigues (grande leitor de Dostoiévski), txts do escritor russo trazem o mundano, a violencia, o erotismo, o folhetinesco

* Dostoiévski era epiléptico como Machado de Assis e viu um filho morrer aos três anos devido ao problema

* Tinha paixão pela literatura alemã, em especial Schiller, e seus ídolos na literatura russa são Gógol e Pushkin

* Seu primeiro romance, Gente Pobre, foi grande sucesso de público e crítica, e considerado legítimo herdeiro de O Capote de Gógol

* Em Gente Pobre, Dostoiévski dá continuidade à tradição realista da literatura russa, com foco nas “pessoas sem importância”

* Aos 25 anos, era um escritor famoso e celebrado por todos. É apresentado aos maiores escritores, críticos e intelectuais de sua época

* Mas aos poucos começa a se distanciar desse pessoal, buscando novos horizontes literários, temáticos e ideologicos

* Começa a ficar obcecado pela interpretação dos acontecimentos humanos de sua época, principalmente depois do tempo q passou preso na Sibéria

* Os trabalhos forçados deixaram marcas profundas em sua saúde e também em suas convicções políticas e literárias. Nasce um novo Dostoievski

* Era viciado em jogo de roleta, perdeu muito dinheiro com isso, quase perdeu o direito de todas as suas obras, por conta das dívidas

* Trabalhou c/ jornalista e editou 2 revistas: O Tempo e A Época. Na 1a publicou Memória da Casa dos Mortos, sobre sua passagem pela prisão

* Viajou pela primeira vez ao exterior aos 41 anos (1862), conhecendo a Alemanha, França, Suíça, Itália e Inglaterra.

* Em 1864 perde a esposa, por tuberculose, e o irmão Mikhail. Escreve Memórias do Subsolo, em que vê a razão como inimiga da humanidade

* Começa escrever Crime e Castigo dois anos depois da morte da mulher. Mais um ano e casa com estenógrafa que o ajudou a escrever O Jogador

* Seus textos são em geral parte biográficos, parte ficcionais (realistas e fantásticos).

* Conforme ganhou maturidade literária, Dostoiévski polemizava mais e mais c/ outros escritores, como Turgueniev e Tolstoi

* Em 1875 se dedica jornalismo e escreve Diário de Um Escritor, em q se defende de críticas e comenta questões culturais, políticas e sociais

* Diário de Um Escritor serviu de laboratório artístico para Dostoiévski escrever seu último grande romance, Os Irmãos Karamázov (1879)

* Personagem central do livro foi baseado em rapaz que conheceu na Sibéria, condenado há 20 anos de trabalhos forçados acusado de matar pai

* Freud considerou Os Irmãos Karamazov o melhor romance já escrito até a sua época. Na Rússia, Dostoievski é celebrado como gênio

* A obra de Dostoievski foi marcada por situações difíceis do autor – doenças, luto, perseguições políticas, prisão, vício ao jogo, dívidas

* Dostoiévski, juntamente com Dante Alighieri, Shakespeare, Cervantes e Victor Hugo, é uma das grandes influências da literatura do séc 20

* Influenciou nomes como Hermann Hesse, Proust, Faulkner, Camus, Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez

* Para Nietzsche, Dostoiévski era “o único psicólogo c/ q tenho algo a aprender” (ver mais aqui).

* Entre as influencias de Dostoiévski estão Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Pushkin, Victor Hugo, Shakespeare e Cervantes

* Memórias do Subsolo é tido como obra fundadora do existencialismo de Sartre

* Dostoiévski morreu em 1881 antes de conseguir dar sequencia a Diário de Um Escritor e Os Irmãos Karamàzov, como pretendia

* Um filme repleto de referências à obra de Dostoiévski é The Machinist (tá lá no início do post), estrelado por Christian Bale (de Batman Begins e Psicopata Americano)

Amanhã será dia de Tolstói no curso. Se quiser acompanhar a tweet-aula, dada a partir das 22 horas, me acompanhe no twitter.

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Turgueniev Facts


Poucos escritores traçaram um painel tão cru – e tão vívido – de seu tempo como o russo Ivan Turgueniev. Filósofo de formação, estudou na Alemanha no início do século 19 com Hegel e lá percebeu o quanto seu país de origem, a Rússia, era atrasado e miserável.

Decidiu então mostrar a realidade do país do czares em suas obras, mas sem ser panfletário ou pregar revoltas violentas – o que poderia bem fazer, já que era amigo de revolucionários como Bakunin e ajudava secretamente várias organizações e publicações clandestinas. Preferiu outra estratégia. Em romances como Pais e Filhos ou contos como Mumu, traçou um rico e angustiante painel da sociedade russa de seu tempo, como a dizer: “Isso é o que você tem hoje, tá satisfeito?” As grandes questões sociais estavam todas ali, mas parecia não tomar partido, deixando ao leitor uma angústia sem fim. Como zeitgeist de sua obra podemos apontar o personagem Bazárov, de Pais e Filhos, o primeiro auto intitulado niilista da literatura.

Com isso ganhou a inimizade dos nobres detentores do poder, sendo considerado radical demais, e dos jovens revolucionários russos, que viram em seus textos um deboche às suas ideias. Foi execrado e sofreu ao ver sua obra – e seu personagem niilista – servirem de inspiração para violentos protestos em São Petersburgo, pelos quais foi responsabilizado.

Tuitei na terça passada alguns trechos da aula que mais me chamaram a atenção (ver abaixo). Se quiser acompanhar minha tweet-aula de literatura russa (sempre às terças, depois das 22h), acompanhe meu perfil no Twitter. A próxima será sobre Dostoiévski e seus duplos.

* O romancista nasceu em 1818 na Rússia e morreu em 1883, em Paris. Filho de grandes proprietários rurais

* Estudou em Moscou, São Petersburgo (onde se formou em filosofia) e Berlim, onde estudou com Hegel, q era professor e reitor da universidade

* Na Alemanha teve a exata noção da miséria e escravidão em q vivia o povo russo sob o czar Alexandre II em meados do séc. 19

* Sua obra-prima, Pais e Filhos, foi escrita entre 1860 e 1862, período no qual foi decretado pelo czar o fim da servidão no Império Russo

* Na Rússia dessa época, camponeses eram propriedade dos senhores de terra. Turgueniev libertou os seus antes da decisão do czar

* Turgueniev é 1o. autor russo a usar a palavra niilista em 1 obra (Pais e Filhos), inspirando jovens russos a lutar contra ordem estabelecida

* Pais e Filhos desagradou conservadores, q a consideraram radical, e jovens e rebeldes, que diziam ter ela ridicularizado suas idéias

* Em Pais e Filhos está 1o. niilista da literatura russa, Bazárov, q inspirou movimentos rebeldes russos, q acabaram p assassinar Alexandre II

* Amigos ao ler os originais de Pais e Filhos recomendaram que Turgueniev queimasse a obra, se não quisesse ser execrado – como aconteceu

* Turgueniev, sobre Pais e Filhos: “romance que me privou, e creio q para sempre, das boas graças dos jovens russos”

* A polêmica ocorrida com publicação de Pais e Filhos é considerada a maior da literatura russa.

* Muitos adotaram o cunho ‘niilista’ e promoveram violentos protestos em São Petersburgo, q em geral acabavam em grandes incêndios

* Ironia do destino, já q Turgueniev era pacífico. Era amigo de Bakunin, anarquista e revolucionário russo, de quem discordava do método

* Pais e Filhos foi dedicado a Bielinski, líder intelectual russo q defendia q escritores deveriam contribuir para melhorar vida na Rússia (para saber mais sobre o idealismo na literatura russa, leia este artigo da revista eletrônica A Margem)

* Turgueniev não tomava partido em suas obras, mas mostrava com clareza a triste situação de seu país, como a dizer: “É isto que temos hoje”

* Turgueniev era mais criador de personagens do q de tramas. Bazárov de Pais e Filhos foi inspirado num médico q conheceu numa viagem de trem

* Um dos nomes que inspirou política e filosoficamente Turgueniev foi Herzen, que foi amigo e colaborador de Bakunin em um jornal de Londres

* Herzen, assim como Dostoievski, elogiaram muito Pais e Filhos, bem como Flaubert, que disse: “suas descrições pensam”

* Turgueniev apoiava publicações clandestinas e dava dinheiro a elas e tambem a fugitivos políticos, como Bakunin.

* Foi o primeiro escritor russo a ficar famoso na Europa ocidental. Foi apaixonado por uma cantora de ópera de origem espanhola

* Não casou, mas com ela viveu até a velhice e teve uma filha com ela. Detalhe. A cantora, Pauline, era casada, e o marido aceitava a relação

* O asteróide 3323 descoberto em 1979 pelo astronomo Nikolai Chernykh foi batizado de Turgenev em homenagem ao escritor russo

O Projeto Gutenberg tem algumas obras de Turgueniev em seu acervo – clique aqui e confira (textos em inglês e francês).

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Gógol Facts

E chegou enfim a vez de Gógol, tema da terceira aula do curso de literatura russa que venho fazendo lá na livraria Sebinho. Tô adiando este post desde terça passada, mas a correria do dia-a-dia no trabalho e alguma preguiça me impediram de cumprir a tarefa. Prometi a mim mesmo que não passaria deste sábado – e portanto aqui está.

A aula sobre Nikolai Gógol, ucraniano nascido em 1809 (10 anos depois de Pushkin), girou em torno de um de seus principais textos, O Capote – que pode ser lido aqui. Ao contrário do amigo Pushkin, Gógol era carola, inseguro e mais afeito ao melodrama, e também a comédia. Ligado ao teatro, suas obras são boas para serem lidas em voz alta. Ele mesmo adorava fazer isso com os amigos. Como de praxe, após a aula tuitei alguns fatos sobre sua vida e obra. Toda terça-feira, depois das 10 da noite, eu faço isso. Se quiser acompanhar, me siga lá no Twitter.

Não deixe de conferir também, lá embaixo, os vídeos que achei no Youtube, inspirados em três contos seus: O Capote, O Nariz e Diário de um Louco.

* Nicolai Gógol nasceu 10 anos dps de Pushkin (em 1809) e foi seu grande amigo. Era muito religioso e inseguro

* era descendente de cossacos e de familia ligada ao teatro – ele proprio escreveu muitas peças

* txts de Gógol transitam entre o grotesco, o cômico e o melodrama, com pitadas de literatura fantastica. Seria o Machado de Assis russo

* Brasil e Russia do inicio do sec 19 tem muito em comum: imperadores, paises agrarios, grandes e isolados, ligados culturalmente à Europa

* “Nós todos descendemos de O Capote, de Gógol”, disse uma vez Dostoiévski

* Há quem diga que Acaqui Acáquievitch, personagem central de O Capote, é referência ao santo Acácio, centurião romano natural da Capadócia

* Acácio foi torturado, flagelado e decapitado em Constantinopla (303) por se recusar a renunciar à fé cristã. Serviu na Trácia, hoje Bulgária

* Gógol queimou parte de suas obras. Foi assim com o primeiro livro, Hans Küjelgarten, e também com a última, a 2a. parte de Almas Mortas

* O 1o sucesso: Noites de vigília em 1 granja próxima de Dicanca – narrativas de feiticeiros, bruxas e diabos. Inspiração era folclore ucraniano

* O diabo retratado por Gógol em seus contos é o do folclore ucraniano/russo, q sempre está em situação ridícula e acaba perdendo suas apostas

* Tentou escrever a história da Ucrânia mas, diferentemente de Pushkin, não era objetivo e sempre pendia pro lado poético, romântico, afetado

* Um dos grandes ídolos de Gógol na literatura, além de Pushkin, era Walter Scott (1771-1832), escocês tido como criador do romance histórico

* Para críticos russos, Gógol é o poeta da vida real, sempre falando do lado sombrio da vida, com toques de humor e cenas fantásticas

* Quando criança, Gógol escutava vozes. Levava uma vida ascética e gostava de viajar para países católicos da Europa, viveu anos em Roma

* Riso por meio das lágrimas. Nisso, Gógol era mestre. Sua grande peça, O Inspetor, só foi encenada por decisão pessoal do imperador Nicolau I

* Ngm entendeu pq Nicolau I autorizou a encenação da peça, q ridicularizava burocracia do regime. Público tb ñ entendeu peça, grande fracasso

* A cada fracasso, Gógol saía da Rússia. Em 1836, fica 12 anos pela Europa, escrevendo Almas Mortas

* O tema de Almas Mortas foi presenteado a Gógol por Pushkin. Várias obras de Gógol foram feitas com base em argumentos cedidos pelo amigo

* Almas Mortas era para ser dividida em 3 partes, mas Gógol nunca conseguiu completá-la. Queimou tudo q tentou fazer após o 1o. livro

* Em 1852, pressente q vai morrer e se isola de todos por 10 dias. Distribui todos os bens e queima resto de seus papéis. Morre aos 43 anos

* Para Turgueniev, romancista e dramaturgo russo, Gógol era continuador da obra do imperador Pedro, o Grande, já q ambos reformaram a Rússia

Achei uma bela reportagem sobre Gógol na edição online da revista Cult. Se quiser se aprofundar no tema, clique aqui.

A DIARY OF A MADMAN

O NARIZ

O CAPOTE

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