Duane Michals, o filme

“Eu escrevo nesta fotografia não para contar o que você consegue ver, mas para expressar o que é invisível” (Duane Michals, fotógrafo americano)

Filme muito legal da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo sobre esse divertido fotógrafo, admirador de Walt Whitman, fotógrafo de histórias (ou contador de histórias em fotografias).

“Fotografar a realidade é fotografar o nada”, diz.

Ele costuma escrever pequenas histórias em suas fotos, para revelar um sentido oculto em cada uma delas. A história das luvas é linda (veja aqui).

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Como é morrer?

“Como será morrer? Dormir e nunca, nunca, nunca acordar.

Bom, não será muitas coisas. Não será como ser enterrado vivo. Não será como estar no escuro para sempre.

Eu te digo uma coisa – será como se você nunca tivesse existido. Não apenas você, mas tudo. Como nunca houve nada, não há ninguém para lamentar – e não há problema nisso.

Bom, pense um pouco nisso – é um sentimento estranho quando você realmente pensa
sobre o assunto, quando você realmente imagina. ”

(Alan Watts, filósofo, escritor e estudioso da filosofia e religião orientais. Autor do livro O Caminho do Zen)

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Ná Es Eterno – Camarón de La Isla

Quita una pena,otra pena
Y un dolor,otro dolor
Un clavo saca otro clavo
Y un amor quita otro amor

Na,na,na es eterno!

Es un castillo de pena,
Con torres de sufrimiento
Tu misma los fabricaste
Cuando dijiste lo siento

Na,na,na es eterno!

Y a ti no te da dolor!
No me apretes mas las llagas
Que tengo en mi corazonç

Na,na,na es eterno!

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A cura

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“A cura para qualquer coisa é água salgada. Suor, lágrimas ou o oceano.” (isak dinesen)

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Zen Passado – parte 9: A Procura

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo… (Albert Camus)

Na vida, tudo pode acontecer – inclusive nada. Não estou desmotivado pras entrevistas de emprego que tenho hoje, longe disso, mas se for pra criar expectativas, que sejam as piores possíveis. Facilita na hora de digerir a frustração e pode evitar grandes cagadas. Pilotos de caça fazem esse exercicio antes de missões, para estarem atentos e prontos a reagir em qualquer tipo de emergência. Também estou preparado.

O caso concreto é que preciso de grana e não quero mais depender das roubadas do Valtinho. Vou acabar debaixo de um caminhão na Dutra ou coisa pior. Tenho que pegar uma dessas duas oportunidades que surgiram. Pagam bem e o trampo pode até ser divertido. A do Chile então… Uma temporada regada a bom vinho, mudança de ares e chilenas não deve ser de todo mal.

Na barbearia próxima ao local da primeira entrevista, deixo meu cabelo mais corporativo. São Paulo é business. Vejo os gols da rodada e a incrível goleada sofrida pelo Palmeiras deixa uns senhores irritados. Esbravejam contra o técnico, o atacante, o presidente do clube. O lugar é agitado. E divertido. Por isso venho sempre.

Não dá tempo pra comer agora, então engulo uma coxinha no boteco da esquina, compro um chiclete e vou enfrentar as feras.

Gostaram de mim. 1 a 0.

Acho que vou de táxi até a Faria Lima, tá quente pra andar e não cabe chegar lá todo suado, ofegante. Vale o investimento. Desço pro ponto e passo em frente ao sebo de livros que frequento aos sábados. Hoje não tem aquele jazz nervoso, que faz juntar gente na calçada. Eu prefiro curtir o som na lanchonete em frente que tem uma vibe greco-goiana, aquele tipo de lugar que é cafona e tem orgulho disso. Só os cafonas são felizes.

Do outro lado da rua dá pra escutar perfeitamente os Monks que a molecada manda ver no sebo. A Teodoro é a rua mais musical de São Paulo, uma espécie de Bourbon Street bandeirante, com todas as vertentes do mais puro som urbano paulistano. Do chorinho de Adoniran na Benedito Calixto ao metal e outras correntes do roquenrol que saem das inúmeras lojas de instrumentos. E ainda tem os sertanejos dos botecos, o funk e rap nos carros que sobem roncando alto, é música pra tudo quanto é lado.

Tenho tempo ainda, vou dar um rasante pra garimpar um pouco. De repente arrumo um desses livros que ensinam os cinco passos pra se dar bem em entrevistas de emprego. Mudo de ideia quando esbarro em uma pequena edição de ensaios de Camus, meio detonada. O preço tá em conta. Vou levar.

No táxi, leio O Mito de Sísifo:

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

(…)

Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada.

(…)

Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Chego em cima da hora no escritório da V… Trânsito na Faria Lima não estava tão livre. Parece que quanto maior a avenida nesta cidade, mais carros têm. Foram construídas pra escoar o fluxo mas só fazem entupir a cidade. Não deixa de ser emblemático que a vida agitada contribua para nos desacelerar. Mais uma contradição na megalópole.

Na segunda entrevista, a que interessa, fui melhor do que esperava.

Merece comemoração. Vou pro bar do Pedrão.

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

(Leia a história completa aqui)

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Zen Passado – parte 8: A Separação

Lucien Clergue (Nude #4)
(Foto: Lucien Clergue)

O desejo é a essência da realidade (Jacques Lacan)

Mila flutua pela sala. Seu perfume domina o ambiente. Ela não para de falar, exigir minha atenção, opinião até. Mas estou distraído demais e acompanho seu ritmo quase instintivamente. Não consigo parar de olhar pra ela. Seu jeito meio italianado e sua segurança nas afirmações dão um tesão danado. Me insinuo pr’um longo beijo e acaricio seu corpo. Ela treme, monta em mim e suspira nos meus ouvidos:

– Quero gozar por cima agora.

Ela segura meu pau e mete na buceta. Quente, úmida, meu pau preenche, como é bom isso. Mila tem uma buceta incrível. E a boca também. É uma segunda buceta. Tão suculenta e macia quanto. Não paramos de nos beijar, e rolamos pela cama. Sem desencaixar. Sem parar de meter. Nos lambuzamos de saliva, língua, dedos e mucosas, queremos nos sugar. Mordo seu ombro com força suficiente para sentir sua carne. Gozo logo depois dela. Tesão gera tesão.

Poderia ficar encaixado aqui pro resto da vida. Viveríamos de sexo, beijos e gozos, alguma água e cigarros.

Não esperava passar a noite hoje com Mila. Nosso encontro na padaria mais cedo não indicava em nada que acabaríamos aqui na cama, suados e embaralhados por entre lençóis, travesseiros e meias. Nos esbarramos ao acaso na fila do caixa – ela saindo, eu entrando. Tomamos um café e tivemos uma boa conversa de quase amigos. Mila é um bom papo. Falou da situação complicada que vive em casa, da vontade de sumir.

Quando saímos da padaria, o clima estava leve e, quase sem querer, a convidei em casa. Ela aceitou naturalmente. Havia no ar a necessidade mútua da presença do outro. E deixamos rolar. Ontem no bar do Pedrão foi diferente, seguimos cada um por seu caminho. As frequências não bateram. Hoje houve sintonia. E quero que a noite seja eterna enquanto dure.

Mila levanta e vai sonolenta ao banheiro, ajeitando os cabelos. Acendo um cigarro e vou à janela. Ela volta e me abraça por trás. Pede um trago e desabafa.

– Meu casamento não existe mais. Estou pensando em ir embora.

– Vou com você.

– Você já está comigo… não basta?

– Você não quer que eu vá?

– Você não entende… estou cansada. E Paulo não quer me dar o divórcio, que saco. Ele acha que me mete medo. Faz ameaças, diz que vou ficar na merda. Vocês homens acham o quê? Que não conseguimos viver sozinhas? Que precisamos de um pau para sermos felizes?

– Se você gosta de pau, ajuda.

– Babaca. Acho que vou embora. É tarde.

– Fica mais um pouco…

– Não dá. E não estou legal. Quero ficar só.

– Vem cá, faço uma massagem.

– Outro dia. Vamos marcar um Jazz pra semana.

– Vamos sim.

E foi embora. Sempre deixa um vazio, e não sei lidar com isso. Mas vou aprender.

A deep river flows of weathered sins and weathered souls
A kiss a hooded kiss in the seeds of desire
So grief heavenly grief my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

I heard the wind has blown a blessed lie and lovers pains
Over streets and wires underneath alien streams
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you’ve got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

A river flows
Of weathered souls
But I can see shipwreckers eyes
And all that cutting stingray smile
A kiss a hooded kiss for the one I love

I crossed a lonely road a beggar with sullen clouds in my head
And these lines in my face for every tear you’re away
So sweet heavenly sweet my love you’re bringing to me
But you got shipwreckers eyes and all a cutting stingray smile

(Leia a história completa aqui)

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Wild Wood – Paul Weller

High tide, mid afternoon
People fly by, in the traffics boom
Knowing, just where you are blowing
Getting to where you should be going

Dont let them get you down
Making you feel quilty about
golden rain, will bring you riches
All the good things you deserve and now

Climbing, forever trying
Find your way out of the wild, wild wood
Now theres no justice
Only yourself that you can trust in

And I said high tide, mid afternoon
People fly by, in the traffics boom
Knowing, just where you are blowing
Getting to where you should be going

Day by day your world fades away
Waiting to feel all the dreams that say
Golden rain will bring you riches
All the good things you deserve now

And I say, climbing, foreever trying
find you way out of the wild, wild wood
Said you are gonna find you way out of the wild, wild wood
Wild wild wood

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Black Wave – The Raveonettes

What if your heart rode a black wave
Told you it’d never come back home
What if that wave turned into thunder
Roared and crashed and left you all alone
What if that thunder turned into sunshine
Left you on a beach madly in love
What if that love turned into heartbreak
Left you on that wave where you once were.

What if your girl said she loved you
Told you she’d stay with you forever
What if forever turned into nothing
You saw here drive away in a beat up car.
What if that car turned into a fireball
Across the sky she burned while you just smiled
What if that smile turned into tears
You wiped away the broken dreams and more.

What if your life took a strange turn
Left you bewildered in the night
What if the night turned into day
I guess it always does so let’s move on
What if we couldn’t move on
I guess I’d rather die than stare at you
But what if death was your best friend
I guess I’d rather go right now than wait.

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Zen Passado – parte 7: O Sonho

Relatar algo estranho é como contar seus próprios sonhos: você pode comunicar os fatos de um sonho, mas não seu conteúdo emocional, o modo como um sonho pode dar cor a todo o seu dia. (Neil Gaiman)

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(A condição humana (1935), de René Magritte)

O avião pousa e aguardo pacientemente a hora do desembarque. A poltrona do deck é bem confortável, e me distraio olhando a paisagem, o mar burila com pequenas ondas o casco do navio – não é mais um avião, estranho. Somos convidados a sair por jovens uniformizados, de branco, que nos guiam até a terra firme. Comento com minha companheira de viagem que o avião tinha espaço como um navio, até aberto ao céu era. Estranho mesmo.

Meu velho carro vermelho está pronto, de portas abertas. Entro pelo lado do passageiro e minha parceira de trip assume a direção. De ré, sobe uma alça de acesso de uma movimentada via expressa. Reclamo e ela dá de ombros, diz pra eu ficar tranquilo, que tudo está nos conformes. Mas claro que não está, vamos bater, estragar o carro. Vou ter um baita preju. Ela ri e acelera.

Os pneus traseiros sobem no meio-fio e o carro vira num córrego que passa por debaixo da via expressa. Saímos os dois do veículo, que boia e começa a ser levado pela correnteza. Ela sobe um barranco reclamando da minha falta de confiança e some. Vou atrás do carro, para recuperar meus documentos, que estão no porta-luvas. Minha camisa branca não está enlameada e fico mais calmo.

O córrego leva a uma oficina, onde carros são desmontados e as peças estocadas. Vários homens portam ferramentas de corte, elétricas. O barulho das lâminas nas chapas de ferro é ensurdecedor, a fumaça toma conta do lugar. Ninguém parece notar minha presença. Começo a ficar preocupado, um pouco com medo. O clima é pesado.

Procuro pela pilha de portas-luvas. Pergunto a um dos mecânicos onde posso encontrá-la. Ninguém responde. Ninguém parece notar que estou na oficina. Ainda assim, quero reaver meus documentos. Então, puxo papo qualquer com um dos cortadores de aço, “essas serras são boas mesmo, hein?”. Consegui a atenção dele: o cara desliga a serra, vira pra mim e diz que realmente, ela corta tudo. Soou como uma ameaça. Os demais na oficina param suas atividades e, como se um perigo iminente ameaçasse a ilegalidade daquele lugar, vêm pra cima de mim.

Recuo até um canto e vejo o porta-luva do meu carro. Pego os documentos e saio batido. A sensação foi de que escapei por pouco. Só não sei bem do quê.

Ando por uma ruela de terra batida, casas humildes dos dois lados. O mato cresce displicente por todo canto. Começo a subir uma ladeira e escuto uma criança. Ela chama pelo pai. Tem a voz do meu filho. Eu tenho um? Não lembro mas vou ao terreno baldio de onde parece vir a voz. Vejo uma criança sentada, chorando. Não a reconheço, dou meia-volta e continuo seguindo a rua. O sol está se pondo.

A rua mudou. Está mais arborizada, com casas mais bonitas, térreas, amplas e arejadas. Todas sem cerca divisórias entre os terrenos. Os gramados estão bem cortados e brilham como se alguém tivesse acabado de regá-los. Entro na primeira rua que aparece, à direita. Ela faz uma curva pra esquerda e some num bosque. Paro em frente à primeira casa à direita. O caminho de pedra, que leva até a porta de entrada, está coberto de folhas secas.

Saio do caminho e ando pela grama. Estou descalço. A grama está macia. Chego a uma espécie de sala de estar, cercada de portas de correr de vidro. No cômodo, um confortável sofá, estantes de livros, uma escrivaninha. A sala é atapetada e cheia de almofadas. Um lugar agradável para se estar.

O pôr-do-sol dá uma cor alaranjada às paredes. Entro e me ajeito entre as almofadas.

Estou em casa, enfim.

(A íntegra de Zen Passado está aqui)

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Regra de três

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