Zen Passado – parte 9: A Procura

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo… (Albert Camus)

Na vida, tudo pode acontecer – inclusive nada. Não estou desmotivado pras entrevistas de emprego que tenho hoje, longe disso, mas se for pra criar expectativas, que sejam as piores possíveis. Facilita na hora de digerir a frustração e pode evitar grandes cagadas. Pilotos de caça fazem esse exercicio antes de missões, para estarem atentos e prontos a reagir em qualquer tipo de emergência. Também estou preparado.

O caso concreto é que preciso de grana e não quero mais depender das roubadas do Valtinho. Vou acabar debaixo de um caminhão na Dutra ou coisa pior. Tenho que pegar uma dessas duas oportunidades que surgiram. Pagam bem e o trampo pode até ser divertido. A do Chile então… Uma temporada regada a bom vinho, mudança de ares e chilenas não deve ser de todo mal.

Na barbearia próxima ao local da primeira entrevista, deixo meu cabelo mais corporativo. São Paulo é business. Vejo os gols da rodada e a incrível goleada sofrida pelo Palmeiras deixa uns senhores irritados. Esbravejam contra o técnico, o atacante, o presidente do clube. O lugar é agitado. E divertido. Por isso venho sempre.

Não dá tempo pra comer agora, então engulo uma coxinha no boteco da esquina, compro um chiclete e vou enfrentar as feras.

Gostaram de mim. 1 a 0.

Acho que vou de táxi até a Faria Lima, tá quente pra andar e não cabe chegar lá todo suado, ofegante. Vale o investimento. Desço pro ponto e passo em frente ao sebo de livros que frequento aos sábados. Hoje não tem aquele jazz nervoso, que faz juntar gente na calçada. Eu prefiro curtir o som na lanchonete em frente que tem uma vibe greco-goiana, aquele tipo de lugar que é cafona e tem orgulho disso. Só os cafonas são felizes.

Do outro lado da rua dá pra escutar perfeitamente os Monks que a molecada manda ver no sebo. A Teodoro é a rua mais musical de São Paulo, uma espécie de Bourbon Street bandeirante, com todas as vertentes do mais puro som urbano paulistano. Do chorinho de Adoniran na Benedito Calixto ao metal e outras correntes do roquenrol que saem das inúmeras lojas de instrumentos. E ainda tem os sertanejos dos botecos, o funk e rap nos carros que sobem roncando alto, é música pra tudo quanto é lado.

Tenho tempo ainda, vou dar um rasante pra garimpar um pouco. De repente arrumo um desses livros que ensinam os cinco passos pra se dar bem em entrevistas de emprego. Mudo de ideia quando esbarro em uma pequena edição de ensaios de Camus, meio detonada. O preço tá em conta. Vou levar.

No táxi, leio O Mito de Sísifo:

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

(…)

Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada.

(…)

Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Chego em cima da hora no escritório da V… Trânsito na Faria Lima não estava tão livre. Parece que quanto maior a avenida nesta cidade, mais carros têm. Foram construídas pra escoar o fluxo mas só fazem entupir a cidade. Não deixa de ser emblemático que a vida agitada contribua para nos desacelerar. Mais uma contradição na megalópole.

Na segunda entrevista, a que interessa, fui melhor do que esperava.

Merece comemoração. Vou pro bar do Pedrão.

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

(Leia a história completa aqui)

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