Zen Passado – parte 7: O Sonho

Relatar algo estranho é como contar seus próprios sonhos: você pode comunicar os fatos de um sonho, mas não seu conteúdo emocional, o modo como um sonho pode dar cor a todo o seu dia. (Neil Gaiman)

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(A condição humana (1935), de René Magritte)

O avião pousa e aguardo pacientemente a hora do desembarque. A poltrona do deck é bem confortável, e me distraio olhando a paisagem, o mar burila com pequenas ondas o casco do navio – não é mais um avião, estranho. Somos convidados a sair por jovens uniformizados, de branco, que nos guiam até a terra firme. Comento com minha companheira de viagem que o avião tinha espaço como um navio, até aberto ao céu era. Estranho mesmo.

Meu velho carro vermelho está pronto, de portas abertas. Entro pelo lado do passageiro e minha parceira de trip assume a direção. De ré, sobe uma alça de acesso de uma movimentada via expressa. Reclamo e ela dá de ombros, diz pra eu ficar tranquilo, que tudo está nos conformes. Mas claro que não está, vamos bater, estragar o carro. Vou ter um baita preju. Ela ri e acelera.

Os pneus traseiros sobem no meio-fio e o carro vira num córrego que passa por debaixo da via expressa. Saímos os dois do veículo, que boia e começa a ser levado pela correnteza. Ela sobe um barranco reclamando da minha falta de confiança e some. Vou atrás do carro, para recuperar meus documentos, que estão no porta-luvas. Minha camisa branca não está enlameada e fico mais calmo.

O córrego leva a uma oficina, onde carros são desmontados e as peças estocadas. Vários homens portam ferramentas de corte, elétricas. O barulho das lâminas nas chapas de ferro é ensurdecedor, a fumaça toma conta do lugar. Ninguém parece notar minha presença. Começo a ficar preocupado, um pouco com medo. O clima é pesado.

Procuro pela pilha de portas-luvas. Pergunto a um dos mecânicos onde posso encontrá-la. Ninguém responde. Ninguém parece notar que estou na oficina. Ainda assim, quero reaver meus documentos. Então, puxo papo qualquer com um dos cortadores de aço, “essas serras são boas mesmo, hein?”. Consegui a atenção dele: o cara desliga a serra, vira pra mim e diz que realmente, ela corta tudo. Soou como uma ameaça. Os demais na oficina param suas atividades e, como se um perigo iminente ameaçasse a ilegalidade daquele lugar, vêm pra cima de mim.

Recuo até um canto e vejo o porta-luva do meu carro. Pego os documentos e saio batido. A sensação foi de que escapei por pouco. Só não sei bem do quê.

Ando por uma ruela de terra batida, casas humildes dos dois lados. O mato cresce displicente por todo canto. Começo a subir uma ladeira e escuto uma criança. Ela chama pelo pai. Tem a voz do meu filho. Eu tenho um? Não lembro mas vou ao terreno baldio de onde parece vir a voz. Vejo uma criança sentada, chorando. Não a reconheço, dou meia-volta e continuo seguindo a rua. O sol está se pondo.

A rua mudou. Está mais arborizada, com casas mais bonitas, térreas, amplas e arejadas. Todas sem cerca divisórias entre os terrenos. Os gramados estão bem cortados e brilham como se alguém tivesse acabado de regá-los. Entro na primeira rua que aparece, à direita. Ela faz uma curva pra esquerda e some num bosque. Paro em frente à primeira casa à direita. O caminho de pedra, que leva até a porta de entrada, está coberto de folhas secas.

Saio do caminho e ando pela grama. Estou descalço. A grama está macia. Chego a uma espécie de sala de estar, cercada de portas de correr de vidro. No cômodo, um confortável sofá, estantes de livros, uma escrivaninha. A sala é atapetada e cheia de almofadas. Um lugar agradável para se estar.

O pôr-do-sol dá uma cor alaranjada às paredes. Entro e me ajeito entre as almofadas.

Estou em casa, enfim.

(A íntegra de Zen Passado está aqui)

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