Depois de longo e tenebroso inverno, eis que decido reativar o blog. A hibernação foi forçada, porque o antigo provedor onde eu hospedava O Escriba morreu e, com ele foi-se o blog. Cheguei a pensar em desligar de vez os tubos, mas pô, são quase 15 anos de blog, deu peninha e resolvi reativá-lo. Vai para sua quarta encarnação! Afinal, o universo é fluxo; a vida, opinião.
Uma amiga me deu o toque de um concurso literário da FNAC e sugeriu que eu enviasse o Zen Passado. Não pensei duas vezes. Ao ler o regulamento vi que para o conto ser aceito, deveria ter entre 10 e 15 páginas A4 e 25 mil toques. O meu estava com 30 páginas e 44 mil toques (algo assim). Ou seja, ia ter que meter a faca no texto pra participar do concurso. E assim foi, ainda que com uma certa dó de tirar algumas partes – o capítulo do sonho, por exemplo. Mas editar um texto é sempre bom. A gente sempre encontrar algo que está sobrando, deslocado. Escrever é fácil, duro é editar. Mas em algum momento temos que largar mão do texto e partir para o seguinte. Acho que finalmente estou pronto para escrever a próxima história.
Segue abaixo o novo Zen Passado, editado ao longo da última semana, que enviei para o concurso (que algo me diz ser de Portugal). Se quiser ler o conto original, que fiz ao longo de 11 dias corridos (um capítulo por dia), clique aqui.
Boa leitura!
ZEN PASSADO
por Jorge Henrique Cordeiro
O celular tá tocando. Toquezinho chato pracaralho. Por que escolhi logo esse? Acho que errei na hora de salvar, tentando por aquele som que ouvi ontem no bar do Pedrão. Roquenrol, cara, nada melhor pr’um toque de celular. E pra agitar um boteco. Aquela mina pirou no balcão. Todo mundo se ligou nela. Era gostosa e gatinha. E filha do dono do bar.
Não sei há quanto tempo está tocando. Som irritante … e esse corredor é imenso. O alarme não para. Procuro sair, vejo várias portas de emergência. Todas trancadas. Mas algo me divertia naquela incessante sequência de portas fechadas, e eu sempre tentava abrir mais uma, só mais uma. E nada. O alarme não para, insiste até que… Continue lendo →
“Eu imploro a você, tenha paciência com tudo que não esteja resolvido em seu coração e tente amar as questões em si, como se fossem cômodos trancados ou livros escritos numa estranha língua estrangeira. Não procure por respostas, que não poderiam se dadas a você agora, porque você não poderia vivê-las. E o ponto é viver tudo. Viva as questões agora. Talvez assim, um dia distante no futuro, você vai gradualmente, sem mesmo perceber, viver seu caminho rumo à resposta.”
(Trecho de Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke, de 1903, sobre a importância de viver as questões da vida, abraçar as incertezas e permitir a intuição.)
Ou como diria Tarkovski, não existem respostas, apenas escolhas…
Recebo o texto QUEM É ELE? ou SEXO X REALIDADE, da minha amiga Beatriz, e sou convidado a escrever o ponto de vista do personagem masculino do conto dela. Talvez seja interessante ler primeiro o texto da Bia (aqui). Ou não. Enfim, como quiser.
– Você volta amanhã?
– É, minha irmã caiu no banheiro e precisa ir ao médico. Desculpe, não tem outro jeito, preciso voltar.
– E não tem ninguém que possa levá-la? Tem que ser você?
– O que você quer que eu faça? Deixe minha irmã se virar sozinha?
– Tá, eu sei, eu sei, ela ajudou a criar você quando sua mãe morreu, blá blá blá…
– Você é muito egoísta. Não gosto desse seu jeito…
– E eu não gosto quando você fuma esse cigarro fedorento no meu quarto. Pode pelo menos ir pra varanda?
– Engraçado, você dizia que gostava até do cheiro, que deixava um gosto bom na boca, que me dava um cheiro de macho.
– Tá, eu sei, mas você anda fumando muito. O cheiro desse troço é forte demais.
– Você podia ser mais compreensiva num momento difícil como este. Cadê aquela mulher doce que conheci na viagem?
– Deve ter se perdido junto com minhas malas na volta… Aliás, tenho que ligar pra companhia aérea pra ver se já acharam. Me passa a bolsa?
– Levanta e pega, uai.
– Grosso!
– Grande e grosso! E você gosta.
– Babaca. Deve ser por isso que nenhuma mulher quis casar com você. Quem vai querer conviver com um ogro?
– Mulher não falta nesse mundão que queira a boa vida que posso dar a elas. Mas casar pra quê se sempre tem uma dona solta por aí…
– Caramba, o que foi que vi em você? Me diz?
– Um homem como deve ser e Deus permite.
– E ainda carola! Céus!
– Seu problema é falta de Deus, já te falei…
– E o seu é falta de noção. Vai, volta pra ajudar sua irmã. Me deixa dormir.
– Para de bobagem e vem cá fazer um chamego no seu homem…
– Sai com essa piroca pra lá. Hoje não vai rolar nada. Perdi o tesão.
– Deve estar numa das malas extraviadas. Mas tudo bem, eu dou conta, e você vai gostar mesmo assim…
– Olha, eu sabia que você era bronco, mas tá passando dos limites. Vou dormir, boa noite. Se quiser, pode ficar aqui, no quarto ou na sala, se preferir. Mas me deixa. Ou prefere que eu chame um taxi?
– Tá me expulsando? Ára, você se irritou por besteira e ainda quer sair por cima? Tome tenência, muié!
– Fala baixo. Ou melhor, não fale nada. Boa noite!
– Vocês dondocas da cidade são todas iguais, uma hora estão todas derretidas e n’outra mais duras que lombo de mula.
Filmaço que passou na madruga, The Hustler (ou Desafio à Corrupção), com Paul Newman e George C. Scott (que eu, meio embriagado, cheguei a confundir com o Johnny Cash…).