Zen Passado – versão editada

Uma amiga me deu o toque de um concurso literário da FNAC e sugeriu que eu enviasse o Zen Passado. Não pensei duas vezes. Ao ler o regulamento vi que para o conto ser aceito, deveria ter entre 10 e 15 páginas A4 e 25 mil toques. O meu estava com 30 páginas e 44 mil toques (algo assim). Ou seja, ia ter que meter a faca no texto pra participar do concurso. E assim foi, ainda que com uma certa dó de tirar algumas partes – o capítulo do sonho, por exemplo. Mas editar um texto é sempre bom. A gente sempre encontrar algo que está sobrando, deslocado. Escrever é fácil, duro é editar. Mas em algum momento temos que largar mão do texto e partir para o seguinte. Acho que finalmente estou pronto para escrever a próxima história.

Segue abaixo o novo Zen Passado, editado ao longo da última semana, que enviei para o concurso (que algo me diz ser de Portugal). Se quiser ler o conto original, que fiz ao longo de 11 dias corridos (um capítulo por dia), clique aqui.

Boa leitura!

ZEN PASSADO
por Jorge Henrique Cordeiro

O celular tá tocando. Toquezinho chato pracaralho. Por que escolhi logo esse? Acho que errei na hora de salvar, tentando por aquele som que ouvi ontem no bar do Pedrão. Roquenrol, cara, nada melhor pr’um toque de celular. E pra agitar um boteco. Aquela mina pirou no balcão. Todo mundo se ligou nela. Era gostosa e gatinha. E filha do dono do bar.

Não sei há quanto tempo está tocando. Som irritante … e esse corredor é imenso. O alarme não para. Procuro sair, vejo várias portas de emergência. Todas trancadas. Mas algo me divertia naquela incessante sequência de portas fechadas, e eu sempre tentava abrir mais uma, só mais uma. E nada. O alarme não para, insiste até que…

– Alô…
– Opa, e aí, cara! Dormindo ainda?
– Não mais… qual é a boa?
– A parada rolou. Tá pronto?
– Pronto, pronto não tô… o que tenho que fazer?
– Acordar seria um bom começo. Te ligo em 5.

Ok. A parada rolou. E agora? Levanta, porra! Beleza, pagar 3 de 10, abrir a janela, esticar até o teto e tomar um banho pra despertar de vez. Arrãm… faço isso já já, em 5… zzzzzz.

– E aí, cara? Bora? Tô chegando!
– Putz… Deixa eu tomar um banho…
– Porra, tu ainda nao tá pronto? Caralho. Vou passar em 10.
– Beleza.

Tenho que comprar cigarros. Deve ter alguma guimba boa no cinzeiro… Ok, então vamos. Carteira, chaves, celular… Mila ligou. Nem ouvi. Seria bom se tivesse vindo ontem, tava a fim. Mas precisava dormir. Ainda mais quando rolam as paradas do Valtinho. O cara já me pôs em umas furadas foda, mas desta vez sinto que vai rolar.
Esquece o banho. Cadê meu tênis?

….

– Já comeu?
– Nada. Para em uma biboca qualquer pr’eu pegar um salgado e depois almoçamos na estrada. Aliás, prá onde estamos indo mesmo?
– Porra, como assim, cara? Esqueceu? Bebeu pra caralho ontem, hein?

É, bebi um bocado ontem. Cerveja, uísque, rolou uma tequila no final, acho. Galera mandou ver na farinha, mas segurei a onda. Tô fora. She don’t lie, bro!

Valtinho dirige como um louco. Muda de pista como quem muda de estação no rádio. Pior que faz tudo dentro do limite de velocidade, mas isso não garante porra nenhuma. Bater a 90 km/h aqui na Marginal dá pra acabar virado dentro do Tietê. Mas não me sinto inseguro. De alguma forma, confio no Valtinho.

– Pegou alguém ontem?
– Sem condição…
– Aquela mina do balcão era show, hein?
– É filha do Pedrão. Rendeu um bom peep-show. Gostosa demais.
– Podicre. Comia fácil. Em Goiânia tem mulher pra caramba, dizem. A gente pode se dar bem lá…
– Todo lugar tem mul… Goiânia?!?
– Ah, vai se fuder. Você tá me zoando. Vou parar no posto pra abastecer e tu come algo. Pá-pum, beleza?

Valtinho é um babaca, mas é camarada. Já me quebrou galhos inacreditáveis, mas também já me colocou em mega-furadas. E agora, qual vai ser? Ele parecia entusiasmado ontem à noite. Sorria como um vencedor, estava exultante. Pagou a birita e ainda deu gorjeta gorda. Nunca vi ele fazendo isso. Ontem convenceria qualquer um a qualquer coisa. Tenho até medo de lembrar o que combinamos.

– Mila ligou ontem.
– Ah é? E aí?
– Não sei, não falei com ela. Tava dormindo.
– Tu dorme que nem um urso. Precisa se tratar. Qualquer dia não acorda mais. Já pensou? Morrer de tanto dormir?
– Nem tenho dormido tanto. Por que Goiânia?
– Porque a parada vai rolar lá. Cara, relaxa. Aproveita a viagem. Gostou do carro? Peguei ontem.
– Não vou nem perguntar onde pegou…
– Tá de boa, meu bom. É de uma tia minha. Nunca usa. Pedi emprestado por alguns dias. Prometi devolver com tanque cheio e pneus novos.
– Você é um gentleman…
– Sou mesmo. E aí, vambora?
– Preciso comprar cigarro.
– Se não morrer de tanto dormir, do cigarro tu não escapa.
– Tománocu.

Tenho que ligar pra Mila. O que será que ela queria tarde da noite? Goiânia… Já estive lá. Quente pracaralho. E realmente tem mulher bonita. Mas não tava afim de viajar agora. Ok, minha vida em São Paulo não tá nenhuma maravilha, mas pelo menos gosto da cidade. E tenho esperanças de que ela um dia goste de mim também. A cidade, não a Mila. Essa não gosta de ninguém.

– Por que a gente não vai de avião pra Goiânia?
– E perder a oportunidade de dirigir esta belezinha na estrada? Nem fudendo.
– Pelo menos a gente chegaria mais rápido e resolveria a parada o quanto antes.
– A parada só vinga quando a gente chega. Então, curte o som e acende o beise.

….

Fazia tempo que não encontra o Valtinho. Ele nas paradas dele, eu nas minhas. Nos reencontramos quando conheci Mila. Não tirava o olho dela na Mercearia quando Valtinho chegou, percebeu e mandou:

– Cara, conheço ela. Quer que te apresente?
– Não seria má ideia.
– Só tem uma coisa: é casada. Mas parece que está sozinha hoje. E gosta de dar umas ‘voadas’, se é que me entende…
– Sem problemas. Um cervejinha descompromissada não tira pedaço de ninguém. Agora, se ela tiver a voz que eu imagino que tem, cara, não me responsabilizo.
– Hahaha, tá certo. Guentaí, taradão.

E em minutos estávamos os três – e mais um cara que investia nela, mas logo dispensado – trocando ideia, rindo até. No final da noite, só eu e ela, tomando a saideira, olho no olho, bar fechando. Acabamos lá em casa. O feitiço começou ali.

Esqueci de ligar pra Mila. E agora não tem sinal. Bosta de operadora. Nem saímos direito de São Paulo ainda, caralho. Não devia estar nessa pilha. Ainda mais com uma mulher casada. Mal casada, mas enfim… Perdi a cabeça.
Mila também. Tanto que o marido sacou. E eles se separaram. Mas Valtinho me disse que voltaram. Ela nunca me disse. Naquela noite na Mercearia parecia insegura, e talvez por isso mesmo, mais sincera. E eu embarquei. Sinceridade, ainda que fingida, me interessa. O resto a gente dá um jeito.

– Cara, você está nas nuvens, hein?
– Total. A mente voa na estrada. Sabe, se eu pudesse, viveria de um lado pro outro, rodando por aí sem destino. Cigano roots. Mas…
– Mas você não tem culhão pra encarar. Confessa.
– É. Pode ser.
– Sabe o que eu acho? Que a gente, quando chega à beira de um despenhadeiro, não tem muita escolha. Ou pula e deixa o abismo te engolir ou senta e vê a vida passar. Eu quero é mais! Bora fumar outro!
– Vai aí, vou ficar no Marlborão. Foda é mergulhar num poço e encontrar uma poça… Se não acaba contigo, te aleija.
– Aleija não, te redefine. Errar não é o problema, o problema é repetir. Porra, tanta confusão diferente por aí e você perdendo tempo com erro antigo? Nem fudendo!

A auto-ajuda de boteco do Valtinho está fazendo efeito. Ele está certo. Não temos tempo a perder. Com certeza vou cometer muito erro ainda.

Agora tem sinal. Vou ligar.

….

Odeio quando dá ocupado. Você sabe que a pessoa está lá, ao alcance das frequências, mas não consegue falar. Tudo que você pensou em dizer fica engasgado.

Ocupado de novo.

Ah, foda-se.

– Pra quem você tanto liga?
– Pra Mila. Mas só dá ocupado. Melhor assim, nem sei se tô a fim de falar com a Mila.
– Deixa quieto, uma hora ela liga.

Mila não liga pra ninguém. Mas tá sempre ligada. Se não está, te convence do contrário. Ela é senhora da situação. Sempre. Com um olhar, te desconcerta, muda o foco, te faz sentir um deus ou sofrer como o diabo. É fácil se deixar levar por esse olhar. Ele te envolve, reconforta, te dá esperança até. Sedução mode ON.

Ela é um arco-íris. E sempre que vemos um arco-íris, ele rouba a cena. Pela beleza estonteante e também pelo tesouro que parece oferecer. “Está aqui, venha pegar”, seus olhos convidam, fisgando interesses como quem cumprimenta conhecidos. E se você estiver na alça de mira dela, pow, já era.

Mila oferece a liberdade no paraíso. Não é pouca coisa.

– Cara, vou tirar um cochilo. Tá de boa aí dirigir sem minha co-pilotagem, né Valtinho?
– Sifudê… que co-piloto? Só fica olhando pela janela. Se eu for depender de você pra ficar acordado, tô fudido.
– Então não vai fazer diferença, certo? Tô meio chapado ainda… Qualquer coisa grita aí.

Valtinho parece confiante, essa parada em Goiânia vai ser o fim de um ciclo, início de outro. O absurdo de tudo é que tudo pode ser. Os caminhos não se cruzam por acaso. As encruzilhadas são nirvanas… Momentos mágicos estão em toda parte e não são tão raros quanto nos fazem crer. Mais uma porta trancada, outra e mais outra…

– Ai, caralho!!!
– Que foi? Porra, Valtinho, freia!!
– Tô freando, porra!! Tô freando!!!

Vi a batida em câmera lenta. Não fechei os olhos. Se estava chegando a minha hora, queria ver como seria.

….

Foi uma pancada e tanto.

Mal tive tempo de retesar a musculatura pra absorver o impacto. Rodopiamos pela pista, até pararmos no acostamento. Uma dor lancinante me invadiu o pescoço. Olhei pro lado e vi Valtinho com os olhos vidrados, limpando o sangue do rosto.

– Caraca, que foi isso??
– Uma batida, ao que parece… tudo bem aí? Tá inteiro?
– Acho que quebrei o nariz. E você?
– Quase fui decapitado, mas tô bem. Vamos sair daqui.

O motorista da frente está possesso, gesticula como um louco, puto com a manobra que a gente fez. Seguro o cara a duras penas.

Os carros ficaram bem zoados. Apesar a força do choque, ambos os motores ainda funcionam. Dá pra seguir viagem.
Saio pra procurar um lugar pra lavar a cabeça e tomar uma água. Não estávamos mais na estrada principal. Valtinho, não sei porque cargas d’água, entrou em alguma vicinal, não saberia dizer exatamente onde. Bem em frente ao acidente uma pequena igreja sem destaca do casario. Um corpo está sendo velado. Todos saíram pra ver a batida. Conseguimos mais atenção que o morto.

Um senhor de bengala se aproxima devagar. Para ao meu lado, escarra displicentemente e me encara. Não diz uma palavra. Me olha como se já nos conhecêssemos. Seus olhos são duros, quase opacos. Parecem congelados. Meu deu certa aflição e desvio o olhar.

– Há vida apesar da morte…

E escarra de novo. Por um instante vi no velho algo xamânico. Ele balbucia algo, não deu pra entender, e se cala. Ficou ali, ora me encarando, ora olhando para o céu. Valtinho retorna do bar, onde lavou o rosto.

– Por que saímos da estrada?
– Cara, era rapidinho, só ia passar na casa de um camarada. Você não ia nem perceber, quando acordasse já estaríamos de volta à estrada… porra, que merda! Destruí o carro!
– Pelo menos ainda anda. Só acho que não chega a Goiânia.
– Não mesmo, vamos ter que voltar.
– E a parada?
– Já era…

O velho dá meia-volta e retorna ao velório. As demais pessoas o seguem.

Me acostumei com as frustrações. Minha vida tem sido uma sequência ininterrupta delas. Algumas tiro de letra. Outras são mais foda de absorver. Ficam lá no fundo, latejando discretamente, o suficiente apenas para me lembrar que existem. Finjo que não é comigo e sigo em frente. Se perturbam demais, tomo um porre, arrumo uma foda descompromissada ou durmo.

– Que velho esquisito aquele. O que vocês conversaram?
– Nada, ele mal falou.
– Tu viu que tinha um velório rolando em frente ao local do acidente?
– É, aquilo sim foi bizarro. Não sei se teria espaço pra mais dois defuntos ali…
– Tu achou que a gente ia morrer?
– A gente vai morrer. Só não foi agora.

Valtinho dirige mais devagar agora, certamente com medo de estourar o carro de vez no meio daquele fim de mundo. Não acendeu um baseado sequer, como fez sistematicamente a cada 100km na ida. Eu penso no velho e naquele olhar petrificado. Não saberia decifrar sua presença, nem como ela me afetou. Há coisas que simplesmente são.

Não vou mais ligar pra Mila.

Nada na geladeira. Saco, esqueci de pedir pro Valtinho me deixar no mercado. Vou me virar com esse pão por enquanto. Depois desço pra comprar alguma coisa. Pão e cigarros, basicamente. Preciso descansar. O dia foi pra lá de confuso. O acidente, a parada que foi pras cucuias, aquele velho bizarro, Mila…

Que horas são? Acho que dá tempo de pegar um rango lá no bar do Pedrão. Amanhã abasteço a geladeira pra ‘guentar a semana.

O bar do Pedrão foi onde conheci boa parte dos meus amigos paulistas. Frequento desde que cheguei por estas bandas. O clima é ótimo, a filha do Pedrão é linda e o som de responsa. A comida também não é ruim. Vem servida e o preço é honesto. Quem trabalha por perto sabe e prestigia. Tem de tudo: músicos, pedreiros, estudantes, desgarrados como eu que não têm lugar melhor pra ir e a moçada que vaga a cidade em busca de novos picos descolados pra comentar depois no facebook sobre ‘o lugar incrível que ninguém conhece’.

Chego com o bar ainda meio vazio. Cumprimento Pedrão, sua filha, um ou outro conhecido que já devoram a prata da casa, carne assada no molho de pimentão, e me ajeito numa mesa qualquer. Peço o de sempre e uma cerveja.
Plínio, um chegado que sempre encontro no bar, aparece pouco depois.

– Faaala ae, meu? Tudo certo? Que cara é essa?
– Nào tive o melhor dos dias. E aí, qual a boa?
– Tô só passando pra tomar uma antes de colar ali no Jazz. Vamos?
– Até seria uma, mas fica pra próxima. Vou bater um rango, curtir um som por aqui mesmo e depois vazar. Quem tá tocando hoje?
– Uns cubanos, dos bons. E cadê o Valtinho?
– Não tenho a menor ideia…
Recebo uma mensagem no celular. Do Valtinho. Não morre mais.

Cara, olha o estado do meu nariz!! Ficou pior do que o carro! kkk

– Quem é esse da foto? Atropelado?, pergunta Plínio, curioso.
– É o Valtinho, acabou de me mandar. Na verdade, foi ele quem atropelou um carro. Eu tava com ele. Na estrada, indo pra Goiânia. Longa história…

Nem tão longa assim. Chegou meu rango. E a Mila também. Porra, só me faltava essa.

– E aí, tudo?
– Tudo.
– Te liguei ontem, você não atendeu…
– É, eu vi, mas não deu pra retornar.
– Tudo bem. Posso me sentar?
– Claro, esse é meu amigo Plínio.
– Olá, tudo?

Mila está vestida com seu sorriso franco de filme de terror. É sincero demais pra ser coisa boa. E irresistível. Meu camarada não tira os olhos dela – e de seu decote, discreto porém insinuante. Ela corresponde com o olhar e ergue o copo pra ele encher. Sua linguagem corporal é perfeita. Como um gato, se movimenta com elegância, calculando milimetricamente a beleza de cada gesto. Parece uma pintura em movimento.

Termino de comer e os dois já parecem íntimos. Falam amenidades e Mila ri alto, exagerando na entonação para parecer interessada. Ela não costuma errar nos botes que dá.

Peço mais uma cerveja e, enquanto Mila vai ao banheiro, Plínio se mostra empolgado. Como num ‘deja-vu’, sei exatamente o que ele vai dizer.

– Ajeitadinha essa tua amiga, hein?
– Total. Vai fundo.
– Não tá contigo?
– Não… somos conhecidos apenas.
– Vou convidar pro Jazz. Será que ela topa?
– Por que você não tenta?

Dou uma força pra Plínio fazer o convite. Falo do jazz e Mila comenta algo sobre o lugar. Plínio diz que está a fim de ir e pergunta se ela não o acompanharia.

Mila topa, claro. Finge estar chateada porque não vou e dá uma daquelas gargalhadas com empolgação calculada, do nada. Ao saírem, noto que está usando uma daquelas calças justas que torneiam pernas e bunda. Um espetáculo. Nunca fiquei tão feliz em vê-la se distanciando.

Chega de furadas. Uma parece chamar a outra, num ciclo incessante. Como as portas trancadas daquele sonho… Eu tentando, só mais uma, só mais uma. Cara, a porta trancada não vai abrir, a roubada não vai virar o tesouro no fim do arco-íris.

Não posso ficar dependendo das paradas do Valtinho. Não têm rendido tanta grana assim e são esporádicas. Tenho que trampar, com carteira assinada, seguro saúde, ticket restaurante. Sair da merda pelo caminho mais entediante. Amanhã vou bater perna pra procurar emprego. Só não volto a dar aulas. Não tenho mais saco.

O último cigarro da noite tem um sabor especial. Acompanho a fumaça dançar pelo ar. Os pequenos demônios que se acumulam ao longo do dia estão em polvorosa. Se agitam sob o teto empoeirado. Hora de dar um defrag na mente, arrumar os caixotinhos de frustrações, neuras, sonhos, ansiedades e preocupações. O diabo está na desordem.

Boa noite, pequeninos companheiros. Me acordem como anjos.

….

Mila flutua pela sala. Seu perfume domina o ambiente. Ela não para de falar, exigir minha atenção, opinião até. Acompanho seu ritmo quase instintivamente. Seu jeito meio italianado e sua segurança nas afirmações dão um tesão danado. Me insinuo pr’um longo beijo e acaricio seu corpo. Ela treme, monta em mim e suspira nos meus ouvidos:

– Quero gozar por cima agora.

Ela segura meu pau e mete na buceta. Quente, úmida, meu pau preenche, como é bom isso. Mila tem uma buceta incrível. E a boca também. É uma segunda buceta. Tão suculenta e macia quanto. Não paramos de nos beijar, e rolamos pela cama. Sem desencaixar. Sem parar de meter. Nos lambuzamos de saliva, língua, dedos e mucosas, queremos nos sugar. Mordo seu ombro com força suficiente para sentir sua carne. Gozo logo depois dela. Tesão gera tesão.

Poderia ficar encaixado aqui pro resto da vida. Viveríamos de sexo, beijos e gozos – com alguma água pra recuperar a energia. E cigarros, claro.

Nosso encontro na padaria mais cedo não indicava em nada que acabaríamos aqui na cama, suados e embaralhados, entre roupas e lençóis. Nos esbarramos ao acaso na fila do caixa. Tomamos um café e tivemos uma boa conversa de quase amigos. Mila é um bom papo. Falou da situação complicada que vive em casa, da vontade de sumir.

Quando saímos, a convidei pra ir pra casa, quase sem querer. Ela aceitou naturalmente. Havia no ar a necessidade mútua da presença do outro. Quero que a noite seja eterna enquanto dure.

Mila levanta e vai sonolenta ao banheiro, ajeitando os cabelos. Acendo um cigarro e vou à janela. Ela volta e me abraça por trás. Pede um trago e desabafa.

– Meu casamento não existe mais. Estou pensando em ir embora.
– Vou com você.
– Você já está comigo… não basta?
– Você não quer que eu vá?
– Você não entende… estou cansada. E Paulo não quer me dar o divórcio, que saco. Ele acha que me mete medo. Faz ameaças, diz que vou ficar na merda. Vocês homens acham o quê? Que não conseguimos viver sozinhas? Que precisamos de um pau para sermos felizes?
– Se você gosta de pau, ajuda.
– Babaca. Acho que vou embora. É tarde.
– Fica mais um pouco…
– Não dá. E não estou legal. Quero ficar só.
– Vem cá, faço uma massagem.
– Outro dia. Vamos marcar um Jazz pra semana.
– Vamos sim.
E foi embora. Sempre deixa um vazio, e não sei lidar com isso. Mas vou aprender.

….

Na vida, tudo pode acontecer – inclusive nada. Não estou desmotivado pras entrevistas de emprego que tenho hoje, mas se for pra criar expectativas, que sejam as piores possíveis. Facilita na hora de digerir a frustração. Pilotos de caça fazem esse exercício antes de missões, para estarem atentos e prontos a reagir em qualquer tipo de emergência. Sou do time deles.

Na barbearia próxima ao local da primeira entrevista, deixo meu cabelo mais corporativo. São Paulo é business. Vejo os gols da rodada e faço um ou outro comentário sobre o clássico do fim de semana.
Não dá tempo pra comer agora, então engulo uma coxinha no boteco da esquina, compro um chiclete e vou enfrentar as feras.

Gostaram de mim. 1 a 0.

Acho que vou de táxi até a Faria Lima, tá quente pra andar e não cabe chegar lá todo suado, ofegante. Vale o investimento. Desço pro ponto e passo em frente ao sebo de livros que frequento aos sábados. Hoje não tem aquele jazz nervoso, que faz juntar gente na calçada.

Tenho tempo ainda, vou garimpar uns livros. De repente arrumo um desses que ensinam os cinco passos pra se dar bem em entrevistas de emprego. Mudo de ideia quando esbarro em uma pequena edição de ensaios de Camus, meio detonada.

Já no táxi, leio O Mito de Sísifo:

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

(…)

Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada.

(…)

Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Chego em cima da hora no escritório da V… Trânsito na Faria Lima não estava tão livre. Parece que quanto maior a avenida nesta cidade, mais carros têm. Foram construídas pra escoar o fluxo mas só fazem entupir a cidade.

Na segunda entrevista, a que interessa, fui melhor do que esperava.

Merece comemoração. Vou pro bar do Pedrão.

….

Com essa chuvinha de fim de tarde, o jeito é ir de táxi. No caminho, deixo o livro do Camus de lado, mas Sísifo me acompanha nas divagações. Nas calçadas, nos bares, residências, carros vizinhos, estamos todos empurrando o rochedo morro acima. Em busca de um grande amor, um cargo importante, uma redenção, o fim de uma dor, um carro novo. São cenouras amarradas no cangote. Sem elas, empacamos.

Valtinho me chama pra mesa quando me vê. Já está meio bêbado, provavelmente chegou na hora do almoço e foi ficando. Já fiz muito isso.

– E aí, cara! Sentaí. Como foi nas entrevistas?
– De boa. Se tudo der certo, em duas semanas vou pro Chile.
Eu e minhas expectativas. Não consigo evitar.
– Sério? Que beleza! Vou te visitar por lá!
– Será um prazer. Mas se rolar não vai ser em Santiago, mas numa cidadezinha do interior. Lugar chamado Salamanca. Trampo com uma mineradora. Tem uma estação de esqui por lá.
– Sair de São Paulo e ir pro fim do mundo no Chile não deve ser fácil. Mas você se adapta. Já morou no Gabão, não foi?
– Não cara, foi Quênia. E isso tem muito tempo, nem lembro direito. Mas sim, devo sentir falta de São Paulo…
– Bom, os amigos estão aqui pra isso. Sempre que sentir saudades, vem pra cá passar o fim de semana e a gente toma todas aqui no Pedrão!

É incrível como para o Valtinho, tudo se resolve. É um otimista incorrigível. Bom, tem que ser. Vive de esquemas, paradas, rolos. Se não for otimista, não sobrevive. Nem convence os amigos a entrarem nas jogadas.

A filha do Pedrão passa pela mesa e nos calamos em respeito à graciosidade. Volta trazendo uma cerveja, sorridente, deixa a garrafa e sai assoviando algum roquenrol das antigas, que só conhece porque tem o pai que tem. Pedrão soube dar uma boa educação pr’essa mina.

Mila manda um SMS. Pede desculpas pela noite anterior e diz que quer sair. Respondo que estou com Valtinho tomando umas e outras e ela diz que vai chegar.

– Mila tá vindo pra cá.
– Caramba, meu. Tá rendendo com a figura, hein? Viraram amantes oficiais?
– Não sei o que viramos. Não quero pensar muito nisso…

Pedrão se junta a nós no papo na mesa. Quando os últimos fregueses saem, Pedrão libera o cigarro. Ótimo, porque chove cântaros lá fora. Acendo um e trago com força. Encho os pulmão e exalo uma fumaça encorpada. Quando ela se desfaz, Mila entra no bar. Está ensopada, cabelos lambidos escorrendo pelos ombros. Tá mais bonita do que nunca.

Na mesa, durante o papo, Mila parece alheia. Tento não demonstrar muita ansiedade mas com o canto dos olhos percebo que está cabisbaixa.

– Tá tudo bem?
– O de sempre. Precisava sair de casa, respirar, ver gente. Mas acho que cheguei tarde aqui…
– Quer ir pr’algum lugar?
– Não, tudo bem. Vamos ficar, o papo tá animado. Já é alguma coisa.

Conto a novidade pra Mila.

– Acho que vou pro Chile.
– É mesmo? Que coisa boa! A passeio ou trampo?
– Trampo. Ficaram de me dar a resposta semana que vem. E se tudo correr bem, na outra já estarei por lá.
– Vai ganhar bem? Tem que ganhar, né? Pra mudar assim de país, tem que ter compensação. Vai para Santiago?
– Não, o trampo é numa cidade do interior, perto da montanha.
– Ai, que tudo! Um dia vou te visitar. Pode?

Fico sem resposta. Mila nem percebe. Já está engatada novamente no papo sem fim da mesa. Já está eufórica, soltando suas gargalhadas calculadas. Preciso aprender a desencanar das coisas como ela faz.
Pedrão, Valtinho e Mila levantam seus copos e brindam à minha viagem. Me enchem de perguntas sobre o trabalho, o lugar, as expectativas, e cada resposta rende mais uma rodada de vinho e sonhos. Assim varamos a noite. Tenho os melhores amigos do mundo. E um grande amor, que bateu na trave.

Sou um cara de sorte.

….

– E aí, meu caro? Tudo certo? O carro ficou pronto, posso te levar no aeroporto amanhã, que tal?
– Valeu pela força, Valtinho. Mas já pedi um táxi pr’amanhã. Não leve à mal, mas o voo é cedão, deixa quieto.
– Qualé, para com isso. Faço questão. Aproveito e te conto umas ‘paradas’ que estão pra rolar… E pago o café!
– Tá certo, combinado. Mas tenho que estar no aeroporto às cinco da matina em ponto. Sem furos, beleza? E sem paradas…
– Ok, entendi. Hasta luego, compañeiro!

A ida até o aeroporto é tranquila. Na medida do possível, claro. Valtinho não para de falar em paradas de tudo quanto é tipo, continua dirigindo insanamente, mas chego com tempo de sobra pra tomar um bom café e trocar um dinheiro. Me despeço com um abraço e a promessa de que ele poderá passar uns dias comigo em meu retiro nos Andes.

No avião, relaxo, ponho o fone de ouvido e deixo a mente vagar. Não quero pensar nas coisas que deixo pra trás, são fantasmas do que um dia sonhei em construir. No que depender de mim, morrem hoje.

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