Trecho de O Último Suspiro do Mouro, livro de Salman Rushdie

“Mas eu continuava querendo acreditar naquilo em que acreditam todos os apaixonados: que a coisa em si é melhor do que qualquer alternativa, mesmo quando não correspondida, derrotada, louca. Eu queria apegar-me à imagem do amor como uma fusão de almas, uma mistura, como o triunfo do impuro, do vira-lata, juntando o melhor de nós de modo a sufocar o que tínhamos de solidão, isolamento, austeridade, dogmatismo, pureza; o amor como democracia, como a vitória do Plural, do homem-algum-é-uma-ilha, do dois-é-bom, e a derrota do Uno, do apartheid, do limpinho, do mesquinho.

Tentei ver a falta de amor como arrogância, pois quem, senão aquele que não ama, pode considerar-se completo, um ser que tudo vê e tudo sabe? Amar é perder a onipotência e a onisciência. Apaixonar-se é mergulhar na ignorância; sim, é uma espécie de queda. Fechando os olhos, saltamos de um rochedo na esperança de cair em algo macio. Nem sempre é macio; mas ainda assim, eu repetia a mim mesmo, ainda assim, sem esse salto ninguém vive de verdade. O próprio salto é um nascimento, mesmo quando termina em morte.”

(trecho do livro O Último Suspiro do Mouro, de Salman Rushdie, história fantástica de uma família hindu-lusa-judaica-árabe, que começa no sul da Índia, passa por Bombaim (a São Paulo da Índia) e termina no sul da Espanha, à sombra da encantadora fortaleza-palácio de Alhambra, em Granada. Foi o primeiro livro de Rushdie depois de ter sido condenado em 1988 à morte pelo aiatolá Khomeini, do Irã, por ter escrito Os Versos Satânicos. O Último Suspiro do Mouro tem ecos de Mil e Uma Noites e da literatura fantástica de Garcia Marquez, e é uma ode ao multiculturalismo e à mistura nacional, étnica e religiosa de nossos tempos.)

 

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A Grande Conta – Konstantinos Kaváfis #umpoemapordia

conta

Se eu sou feliz ou infeliz, eis uma pergunta que não me faço.
A única coisa em que penso sempre com alegria –
é que na grande conta (a conta deles, a que detesto)
com todas as suas cifras, eu não figuro,
como uma unidade entre outras. No total,
eu não fui contado. E essa alegria me basta.

Poema de Konstantinos Kaváfis, publicado em 1897. Nascido em 1863 na comunidade grega de Alexandria, no Egito, Kaváfis é considerado o maior poeta do grego moderno.

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Recordar é viver (trecho do livro O Estrangeiro, de Albert Camus)

“A não ser por estes aborrecimentos, não me sentia muito infeliz. Todo o problema, ainda uma vez, estava em matar o tempo. Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar. Punha-me às vezes a pensar no meu quarto e, na imaginação, partia de um canto e dava a volta ao quarto, enumerando mentalmente tudo o que encontrava pelo caminho. A princípio, isto durava pouco. Mas a cada vez que recomeçava, era um pouco mais longo, pois lembrava-me de cada móvel e, para cada móvel, de cada objeto, de todos os detalhes e, para os próprios detalhes, de uma incrustação, de uma rachadura, de um bordo lascado, da cor que tinham, ou de sua textura. Tentava, ao mesmo tempo, não perder o fio deste inventário e fazer uma enumeração completa. De tal forma que, ao fim de algumas semanas, conseguia passar horas apenas enumerando o que se encontrava no meu quarto. Assim, quanto mais pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem.”

images (1)Trecho do romance O Estrangeiro, de Albert Camus, lançado em 1942. Faz parte da trilogia composta ainda pelo ensaio O Mito de Sísifo e pela peça Calígula, que descrevem aspectos de sua filosofia do absurdo. O Estrangeiro foi adaptado ao cinema, sob direção de Luchino Visconti em 1967.

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Doctor Vine – The Big F

sally said come and get high
come and meet doctor vine
all the kids come
all the kids need
won’t you join our family

so i went to meet the man
the past is dead i am born again
doctor vine vine vine
feel so fine
doctor vine vine vine

the golden room was our church
he would talk and we would learn
our resurrection divine
doctor vine vine vine

out of the back door and into the white room
doctor vine i need a place to dream
will you pray for me will you pray for me doctor
doctor vine i need a place to dream

yeah they point their guilt at you
like a loaded gun
i just fly away

all your lies they keep coming coming
gotta get away from your lies they keep coming
coming coming
all your lies they keep coming coming
gotta get a world away

well now doc doc
will you pray for me doctor
pray for me oh doctor
did we have love or just another lie

all your lies they keep coming coming
gotta get away from your lies they keep coming
coming coming
all your lies they keep coming coming
gotta get away from your lies lies lies
lies lies lies
all your lies they keep coming coming
gotta get away from your lies
they keep coming coming coming
all your lies they keep coming
tell me tell me tell me tell me
lies lies
tell me tell me tell me tell me
lies lies
tell me tell me tell me tell me
lies lies
won’t you tell me

you sinner
sinner punishes
i punish you
sinner
but you think i’m gonna punish
sinner

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Because of This – Mark Lanegan

You take me back to the place where I cease to exist
To find in a kiss
Somethin’ I’ve missed
You burn away my disguise and galaxies fall
Because of this
Because of this
It hurt
God knows that it does
And when it hurts sometimes
You’re there to quiet my mind
Because of this
Because of this
You pry open my eyes
I resist but you do
And when I stumble and bleed
You give your body to me
Because of this

Oh and it hurts sometimes
Cause you’re there to quiet my mind

You take me back to the place where I cease to exist
To find in your kiss
Something I’ve missed
You burn away my disguise
And the heavens fall
Because of this
Because of this
And it hurts
God knows that it does
But when I stumble and bleed
You give your body to me
Because of this

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Sobre idade

Por conta dos meus cabelos brancos cada vez mais evidentes, começo a sentir certa piedade e gentileza extremada pro meu lado. Mas tranquilo, gentileza gera gentileza e simpatia é quase amor, entonces… 🙂

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Faz escuro mas eu canto – Thiago de Mello #umpoemapordia

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.

Poema publicado em “Faz Escuro mas eu canto”, de 1966

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A Arte de Perder – Elizabeth Bishop #umpoemapordia

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

110_2214-bishop Um dos poemas mais famosos de Elizabeth Bishop, poeta americana vencedora do Pulitzer de Poesia de 1956. Ficou órfã na infância e viajou o mundo com a herança que recebeu do pai. Foi parceria durante 16 anos da arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, responsável pela concepção e construção do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro. O relacionamento das duas foi tema do filme Flores Raras.

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As quase desconhecidas 82 cavernas de Brasília

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Ana Pompeu e Carlos Moura (fotos), do Correio Braziliense

Nem só de patrimônio arquitetônico e histórico vive a capital federal. Escondidas em áreas de pouco destaque turístico, o Distrito Federal possui um conjunto de cavernas que são um tesouro natural da região. São cavidades próximas ou distantes da cidade, que guardam belos cenários pouco aproveitados pela comunidade local. Os brasilienses não sabem que têm à disposição opções entre grutas e abismos, e seguem em busca das belezas do estado vizinho, Goiás, sem perceber que, às vezes, não é preciso ir muito longe para se encontrar com a natureza.

Até hoje, 82 cavernas foram catalogadas em terras brasilienses. A maioria dessas estruturas estão localizadas no leste e no norte do DF — regiões com predominância de formação rochosa de calcário ou dolomitos. Apesar do potencial turístico que possuem, poucas pessoas têm conhecimento dessa riqueza. Quase sempre quem visita e aproveita esses…

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Documentário investiga o que nos faz humanos

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O que nos torna humanos? Será por que amamos, por que brigamos? Por que rimos? Choramos? Nossa curiosidade? A busca pela descoberta? O cineasta (e fotógrafo e jornalista) francês Yann Arthus-Bertrand passou três anos coletando estórias de 2 mil pessoas em 60 países para responder às questões propostas e contar histórias de luta contra a pobreza, guerras, homofobia e o futuro do nosso planeta. O resultado é o documentário Humano.

O filme foi dividido em três partes. A primeira trata dos temas amor, mulheres, trabalho e pobreza. A segunda fala sobre guerra, perdão, homossexualidade, família e vida após a morte. A terceira e última discorre sobre felicidade, educação, deficiência, corrupção e sentido da vida.

Foi criado um canal do projeto no Youtube com o trailer do filme (abaixo), as três partes e algumas das entrevistas. Não sei se ele vai colocar todas as entrevistas individualizadas no canal, espero que sim. Algumas são antológicas como a deste que parece ser um sem teto americano propondo uma trégua a quem tem mais recursos. Ele aparece na primeira parte. Infelizmente um dos depoimentos mais poderosos que o documentário tem, da menina albina Rhite, de Kinshasa (capital do Congo), ainda não está disponível.

Os depoimentos todos são fortes e emocionantes, alguns inacreditáveis. Na primeira parte do documentário aparecem dois brasileiros – um cara e uma moça, ambos aparentemente do Rio de Janeiro (nenhum deles é identificado por nome ou país de origem, você tem que sacar isso pelo que a pessoa fala – sotaque, indicações, língua etc) e apenas um famoso, o Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai (pelo menos que eu tenha identificado). Além histórias de vida, o que chama atenção é a diversidade humana, a infinita diferença de fisionomias, uma mais bela do que a outra, belezas únicas, diversas.

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