Uma Faca Só Lâmina – João Cabral de Melo Neto #umpoemapordia

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

poetaO poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto nasceu em 1920 em Recife (PE) e tem uma obra que abrange tanto o movimento surrealista como a linguagem mais popular de rua. Morreu em 1999, ano em que seu nome era forte candidato a receber o Nobel de Literatura.

 

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