Manicômio

“Quando o tempo de uma vida se torna raro, as regras passam a não valer mais. Então parece que você perdeu o rumo e está maduro para o manicômio. Mas no fundo é precisamente o contrário: para o manicômio deveriam ir aquelas pessoas que não querem se dar conta de que o tempo ficou raro. Aqueles que continuam como se nada tivesse acontecido.”

(Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier)

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Avalanche

Não se foge do passado. Ele sempre estará ali, à espreita, sorrateiro, pronto pra te fazer lembrar. Eu tentei fugir, e o passado me alcançou quando menos esperava – ou queria. Veio como uma avalanche, soterrando tudo de alegre e faceiro. Me pegou no contrapé. Tudo que tentei esquecer e negar como se nunca existisse, tudo que fiz a outros sem pensar em consequências, sentimentos alheios ou consideração, estava ali, condensado naquele imenso monstro de lama, que me agarrou firme, esfregou sua cara medonha na minha, penetrou minhas entranhas e, soltando uma gargalhada pavorosa, deixou seu recado desafiador: “Você não foge de mim; enfrenta.”

Ressurgiu da maneira mais cruel. Quando sonhos estão sendo construídos, quando um novo horizonte se apresenta luminoso e esperançoso para um novo caminhar, nada pode ser mais destrutivo do que um gosmento tapa na cara do passado negado – e negligenciado. Se enfrenta, não foge ou ignora. Porque senão ele te devora e faz valer sua força. O que era esperança, vira tormento. A beleza se transforma em feio. A alegria em angústia e o real, uma grande miragem sorridente, que se esvai lentamente, deixando uma agridoce ilusão de que ainda se pode agarrá-la, abraçá-la.

Não lamento a avalanche. Ela veio em boa hora, no momento que tento ser outro. Ela me ajudou, na verdade. Enterrou de vez quem fui, e agora serve de adubo. Floresça, porra! E processando isso tudo, vou secar o monstro, rachá-lo – antes que eu rache.

Meu maior desespero foi reconhecer quem era o tal monstro de lama, em meio aos fugazes e intensos momentos que vivi desavisado, alegre como criança que descobre. Ele foi sábio, ardiloso, porque me pegou quando estava com a guarda completamente aberta. Num lance de mestre, transformou o poço no qual mergulhara numa insalubre poça. “Sinta o que é ser descartado como um inútil papel de bala no meio do caminho, ter seus mais sinceros desejos triturados pela indiferença de quem segue adiante, como se não houvesse mais fim”, sussurrou em meio à minha agonia. É, o mundo dá voltas…

A dor do baque reverbera até agora, e deixou minha visão turva, a cabeça confusa. Mas aprende-se com as ilusões, ô se aprende. Só tenho a agradecer.

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Rua Augusta, o filme

A rua Augusta sempre me fascinou, desde que cheguei a SP em 1999. Gostava de circular por lá, entrar em suas lojas semi-decadentes, observar a intensa movimentação da curiosa fauna local – de dia e principalmente a noite. Naquela época não havia tantos lugares da moda como hoje. Era underground total.

Esse documentário, Augusta a 120/h, foi feito em 2003 e mostra bem essa época. Mas foca ainda mais na década de 1960. Uma beleza!

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Eu recebi as piores notícias ao ver o novo filme do Beto Brant

Um livro é um livro, um filme é um filme. Sempre tive claro isso. A comparação entre os dois é quase sempre injusta, porque por melhor que seja o roteirista, e a adaptação que faz da obra original, transpor toda a experiência da leitura para as telas é missão quase impossível. Há inúmeros casos de sucesso, claro, como O Poderoso Chefão, mas ainda assim quem leu o livro certamente vai vaticinar: “O livro é infinitamente melhor”. Não lembro agora de algum filme que tenha deixado o livro melhor, mas é possível que exista. De qualquer forma, competir com a literatura nunca foi fácil para o cinema. A liberdade que um livro dá ao leitor para sentir a história, transpô-la para seu universo e assim fazer da leitura uma experiência única é bastante prejudicada pela natureza em si do cinema que, por meio de imagens e sons, acaba influenciando o espectador. A experiência sempre será mais ‘pobre’, digamos assim.

No entanto, todo bom livro traz em si signos, emoções, nuances que podem e devem ser exploradas por um bom roteiro de filme. Ele pode até mudar personagens, cronologia e até cenários, mas se mantiver os signos originais, terá sucesso em oferecer ao espectador o núcleo duro da emoção do livro. Infelizmente isso não acontece com Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, filme do Beto Brant com roteiro do Marçal Aquino, parceria que já rendeu bons trabalhos como O Invasor – neste por exemplo, percebo intacta a essência do livro. Mas já em ‘Eu Receberia as Piores Notícias…’ ela ficou bastante prejudicada, quase imperceptível. O carrossel de emoções, o crescente clima tenso e violento e a paixão desmedida que transbordam no livro ficaram meio mornos no filme. A grande biodiversidade emocional vira um imenso ‘platô’ quase monotemático, focado na (pra mim) surpreendente atuação da Camila Pitanga como a protagonista Lavínia, ex-prostituta do Rio, casada com um pastor que mora numa cidadezinha do interior do Pará e se envolve com um fotógrafo (paulista, se não me engano) que larga tudo na grande cidade para buscar emoção no Brasil profundo.

Quando li o livro, em fins de 2009 (ou início de 2010), logo pensei: “lá vem mais um bom filme do Beto Brant, tem tudo a ver.” Acertei no óbvio (o Brant, claro) e errei no resultado. Sou fã de longa data do cineasta, até aqui gostei de todos os seus filmes, e sou fã também da literatura do Marçal Aquino. Mas acho que ambos erraram em reduzir a intensa história de violencia e paixao apenas na força do personagem Lavínia, que por mais interessante que seja, não consegue passar ao espectador a incômoda beleza do livro. Os principais signos não estão presentes no filme – ou estão diluídos.

O novo longa de Brant começa com a relação de Lavínia e Caubi (o fotógrafo) já engatada, se amando loucamente. Cortaram a cena fundamental em que se conhecem, quando um dos dois está pegando fotos reveladas numa loja, ela diz que ama fotografia, e ele fica seduzido por ela. Essa cena é importante porque está amarrada com o final da história, dá a liga na relação dos dois e nos introduz no labirinto de paixão e violência que vem a seguir. É a calmaria que esconde a tempestade, também presente na cidade aparentemente pacata do interior do Pará, na imensidão da floresta amazônia, que escondem terríveis histórias. Com isso, vai se embora também o clima crescente de tensão e violência da história.

Também senti falta da bipolaridade de Lavínia, que no livro às vezes se apresenta puta, às vezes se apresenta carola para Caubi, o que o deixa cada vez mais intrigado – e apaixonado. Já no filme, ela sempre – ou quase sempre – está disposta a se entregar ao fotógrafo, mas no livro ela reluta várias vezes, o que dá a senha dos conflitos internos por que passa e dá mais sentido ao final da história até, porque Caubi se apaixonou pela Lavínia puta, mas ficou com uma Lavínia serena, quase criança.

E o próprio personagem Caubi foi descascado de todos os seus tormentos, conflitos e dramas. No filme é um personagem bidimensional, quase oco. Na história original, é um premiado fotógrafo de SP que cansa de sua vida e decide se embrenhar no Pará em busca de mais sentido para sua vida. Se instala numa cidadezinha do interior paraense e vive de bicos – e da grana que sobrou de suas posses vendidas na capital. É uma cidade tensa, todo mundo pode ser um grande matador, os conflitos estão à flor da pele, madeireiras, mineradoras, conflitos agrários da Amazônia, tudo gravitando em torno das vidas ali. Um cenário perfeito para dar ainda mais densidade e perigo para a relação proibida entre Caubi e Lavínia. No filme, a cidade parece pacata até, tranquilidade sem fim, o que contribui para esvaziar todo o carrossel emocional da obra de Aquino.

Basicamente, o filme virou mais do mesmo sobre um triângulo amoroso, com cenas tórridas de sexo, belas imagens da floresta e atuação fantástica dos atores. A história de Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios está lá, mas definitivamente não tem a pegada do livro. É um bom filme, mas ainda assim uma grande decepção.

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Robert Doisneau, 100 anos

Um dos meus fotógrafos favoritos completaria 100 anos hoje.

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Construindo pontes na multidão


(fonte: Blog da Cosac Naify)

Fiz uma caminhada hoje de quase três horas, por Pinheiros e Vila Madalena, procurando sempre serpentear e evitar as vias já conhecidas, virando naquela esquina que sempre passa batida, entrando em lojas que só percebemos quando estamos a pé, parando pra tomar algo no boteco simpatico que surge de repente.

E fui reparando nas pessoas. Seus olhares, caminhos, estilos. São tantos personagens interessantes! O barbeiro de cara boa que cortou meu cabelo na Capote Valente, os mendigos que me pediram cigarro na esquina com a Teodoro Sampaio, a gatinha subindo apressada a rua, o taxista encostado no carro esperando o próximo cliente, a perua em seu carrão impaciente com os pedestres que insistem em atravessar calmamente na faixa do cruzamento, o livreiro do sebo que me ajudou a encontrar um livro, a menininha se lambuzando com um sorvete, para desespero de sua avó (?), a velha senhora do sobradinho com placa para alugar.

Ao contrário do personagem do livro A Janela de Esquina do Meu Primo (E.T.A. Hoffmann), que li ontem a noite, procurei interagir com algumas das figuras que cruzaram meu caminho – e não ficar apenas observando de longe, como faz o escritor inválido da história de Hoffmann, que fica da janela do seu quarto olhando de binóculo as pessoas que circulam pela grande feira da praça em frente. Estava mais para o personagem do conto O Homem na Multidão (o link é do conto na íntegra, vale ler), do Edgar Allan Poe, mas com interação, sem querer passar incógnito. Queria ouvir as vozes, trocar informação (minima que fosse), dar e receber sorrisos, interferir de alguma forma em suas vidas. Provavelmente nenhum de nós terá lembrança alguma desse encontro fortuito no futuro próximo, mas a reflexão que fiz a cada troca certamente contribuirá para o que sou e serei.

A multidão não é amorfa, desde que você se embrenhe nela e faça contato. Todo homem é uma ilha, e por isso devemos construir pontes. Sempre.

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Foguete brasileiro – Chico Anysio

Meu pai tinha um disco de piadas do Chico Anysio e volta e meia reunia os filhos pra escutar – geralmente nos fins de semana. E ríamos a valer. Uma das melhores partes era esta:

Vai deixar saudades, Chico.

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On The Road

Vontade de pegar a estrada…

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RIP Don Cornelius (Soul Train)

Morreu hoje o criador, produtor e apresentador do programa Soul Train, sucesso nos anos 70 especializado na música negra americana e seus costumes (roupas e danças). Parece que se suicidou (aos 75 anos…). Enfim, que descanse em paz, Don Cornelius.

Nunca assisti na TV o seu programa, mas sou espectador há anos no Youtube. Tem muita coisa lá, clique aqui e confira!

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Hasta Siempre, Comandante (na balada)

Quando Carlos Pueblas compos Hasta Siempre, Comandante na noite em que foi anunciado que Che Guevara havia deixado Cuba para seguir novos caminhos mundo afora, certamente não imaginava que sua canção teria 46 anos depois tantas versões, em tantas línguas.

A versão original de Puebla é uma guajira cubana típica. Mas fica linda também em tantos outros ritmos, do rock ao eletrônico – como essa do DJ Mendez, que como disse uma amiga no twitter, é pra deixar a revolução mais animada!

Eu já tinha escutado outras versões – a punk rock do Boikot, por exemplo – mas não tinha a menor ideia de que havia tantas delas, como pude comprovar neste blog, All Versions of Some Songs (Todas as Versões de Algumas Canções). Um belíssimo trabalho de pesquisa, que conta com a ajuda de internautas e amantes da música de todo o mundo, que enviam pra lá arquivos MP3 e histórias.

Até o momento, o blog reúne mais de 200 versões da música – em espanhol, inglês, alemão, grego, russo e até finlandês! O blog ajuda ainda a desfazer alguns mitos. Tipo: Victor Jara e Joan Baez nunca gravaram Hasta Siempre. Nem Chico Buarque. Você pode ouvir as músicas no próprio blog ou baixar o MP3. Ele também traz a história e as versões de outras canções. É um baú de preciosidades, vale guardar e consultar de vez em quando.

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