Eu recebi as piores notícias ao ver o novo filme do Beto Brant

Um livro é um livro, um filme é um filme. Sempre tive claro isso. A comparação entre os dois é quase sempre injusta, porque por melhor que seja o roteirista, e a adaptação que faz da obra original, transpor toda a experiência da leitura para as telas é missão quase impossível. Há inúmeros casos de sucesso, claro, como O Poderoso Chefão, mas ainda assim quem leu o livro certamente vai vaticinar: “O livro é infinitamente melhor”. Não lembro agora de algum filme que tenha deixado o livro melhor, mas é possível que exista. De qualquer forma, competir com a literatura nunca foi fácil para o cinema. A liberdade que um livro dá ao leitor para sentir a história, transpô-la para seu universo e assim fazer da leitura uma experiência única é bastante prejudicada pela natureza em si do cinema que, por meio de imagens e sons, acaba influenciando o espectador. A experiência sempre será mais ‘pobre’, digamos assim.

No entanto, todo bom livro traz em si signos, emoções, nuances que podem e devem ser exploradas por um bom roteiro de filme. Ele pode até mudar personagens, cronologia e até cenários, mas se mantiver os signos originais, terá sucesso em oferecer ao espectador o núcleo duro da emoção do livro. Infelizmente isso não acontece com Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, filme do Beto Brant com roteiro do Marçal Aquino, parceria que já rendeu bons trabalhos como O Invasor – neste por exemplo, percebo intacta a essência do livro. Mas já em ‘Eu Receberia as Piores Notícias…’ ela ficou bastante prejudicada, quase imperceptível. O carrossel de emoções, o crescente clima tenso e violento e a paixão desmedida que transbordam no livro ficaram meio mornos no filme. A grande biodiversidade emocional vira um imenso ‘platô’ quase monotemático, focado na (pra mim) surpreendente atuação da Camila Pitanga como a protagonista Lavínia, ex-prostituta do Rio, casada com um pastor que mora numa cidadezinha do interior do Pará e se envolve com um fotógrafo (paulista, se não me engano) que larga tudo na grande cidade para buscar emoção no Brasil profundo.

Quando li o livro, em fins de 2009 (ou início de 2010), logo pensei: “lá vem mais um bom filme do Beto Brant, tem tudo a ver.” Acertei no óbvio (o Brant, claro) e errei no resultado. Sou fã de longa data do cineasta, até aqui gostei de todos os seus filmes, e sou fã também da literatura do Marçal Aquino. Mas acho que ambos erraram em reduzir a intensa história de violencia e paixao apenas na força do personagem Lavínia, que por mais interessante que seja, não consegue passar ao espectador a incômoda beleza do livro. Os principais signos não estão presentes no filme – ou estão diluídos.

O novo longa de Brant começa com a relação de Lavínia e Caubi (o fotógrafo) já engatada, se amando loucamente. Cortaram a cena fundamental em que se conhecem, quando um dos dois está pegando fotos reveladas numa loja, ela diz que ama fotografia, e ele fica seduzido por ela. Essa cena é importante porque está amarrada com o final da história, dá a liga na relação dos dois e nos introduz no labirinto de paixão e violência que vem a seguir. É a calmaria que esconde a tempestade, também presente na cidade aparentemente pacata do interior do Pará, na imensidão da floresta amazônia, que escondem terríveis histórias. Com isso, vai se embora também o clima crescente de tensão e violência da história.

Também senti falta da bipolaridade de Lavínia, que no livro às vezes se apresenta puta, às vezes se apresenta carola para Caubi, o que o deixa cada vez mais intrigado – e apaixonado. Já no filme, ela sempre – ou quase sempre – está disposta a se entregar ao fotógrafo, mas no livro ela reluta várias vezes, o que dá a senha dos conflitos internos por que passa e dá mais sentido ao final da história até, porque Caubi se apaixonou pela Lavínia puta, mas ficou com uma Lavínia serena, quase criança.

E o próprio personagem Caubi foi descascado de todos os seus tormentos, conflitos e dramas. No filme é um personagem bidimensional, quase oco. Na história original, é um premiado fotógrafo de SP que cansa de sua vida e decide se embrenhar no Pará em busca de mais sentido para sua vida. Se instala numa cidadezinha do interior paraense e vive de bicos – e da grana que sobrou de suas posses vendidas na capital. É uma cidade tensa, todo mundo pode ser um grande matador, os conflitos estão à flor da pele, madeireiras, mineradoras, conflitos agrários da Amazônia, tudo gravitando em torno das vidas ali. Um cenário perfeito para dar ainda mais densidade e perigo para a relação proibida entre Caubi e Lavínia. No filme, a cidade parece pacata até, tranquilidade sem fim, o que contribui para esvaziar todo o carrossel emocional da obra de Aquino.

Basicamente, o filme virou mais do mesmo sobre um triângulo amoroso, com cenas tórridas de sexo, belas imagens da floresta e atuação fantástica dos atores. A história de Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios está lá, mas definitivamente não tem a pegada do livro. É um bom filme, mas ainda assim uma grande decepção.

Anúncios
Esse post foi publicado em comportamento. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s