Avalanche

Não se foge do passado. Ele sempre estará ali, à espreita, sorrateiro, pronto pra te fazer lembrar. Eu tentei fugir, e o passado me alcançou quando menos esperava – ou queria. Veio como uma avalanche, soterrando tudo de alegre e faceiro. Me pegou no contrapé. Tudo que tentei esquecer e negar como se nunca existisse, tudo que fiz a outros sem pensar em consequências, sentimentos alheios ou consideração, estava ali, condensado naquele imenso monstro de lama, que me agarrou firme, esfregou sua cara medonha na minha, penetrou minhas entranhas e, soltando uma gargalhada pavorosa, deixou seu recado desafiador: “Você não foge de mim; enfrenta.”

Ressurgiu da maneira mais cruel. Quando sonhos estão sendo construídos, quando um novo horizonte se apresenta luminoso e esperançoso para um novo caminhar, nada pode ser mais destrutivo do que um gosmento tapa na cara do passado negado – e negligenciado. Se enfrenta, não foge ou ignora. Porque senão ele te devora e faz valer sua força. O que era esperança, vira tormento. A beleza se transforma em feio. A alegria em angústia e o real, uma grande miragem sorridente, que se esvai lentamente, deixando uma agridoce ilusão de que ainda se pode agarrá-la, abraçá-la.

Não lamento a avalanche. Ela veio em boa hora, no momento que tento ser outro. Ela me ajudou, na verdade. Enterrou de vez quem fui, e agora serve de adubo. Floresça, porra! E processando isso tudo, vou secar o monstro, rachá-lo – antes que eu rache.

Meu maior desespero foi reconhecer quem era o tal monstro de lama, em meio aos fugazes e intensos momentos que vivi desavisado, alegre como criança que descobre. Ele foi sábio, ardiloso, porque me pegou quando estava com a guarda completamente aberta. Num lance de mestre, transformou o poço no qual mergulhara numa insalubre poça. “Sinta o que é ser descartado como um inútil papel de bala no meio do caminho, ter seus mais sinceros desejos triturados pela indiferença de quem segue adiante, como se não houvesse mais fim”, sussurrou em meio à minha agonia. É, o mundo dá voltas…

A dor do baque reverbera até agora, e deixou minha visão turva, a cabeça confusa. Mas aprende-se com as ilusões, ô se aprende. Só tenho a agradecer.

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