Alan Moore, 61: “Magia é a arte de manipular palavras”

O escritor Alan Moore completou hoje 61 anos de vida. Há 21, decidiu se autoproclamar ‘mago’. Ao contrário do que possa parecer, ele não pirou de vez nem fez alguma jogada de marketing. Apenas se tocou de algo ancestral: magia é a arte de manipular palavras para alterar consciências – coisa que o autor de Watchmen, V de Vingança, Liga Extraordinária e A Voz do Fogo (seu único romance até agora, mas tem um novo a caminho, Jerusalem) sabe fazer como poucos.

O vídeo acima é um trecho do documentário The Mindscape of Alan Moore, em que ele explica a relação entre magia, arte, cultura e escrita.

Segue a transcrição:

“Em meu 40o. aniversário, em vez de aborrecer meus amigos com algo tão mundano como uma crise de meia idade, decidi que seria muito mais interessante aterrorizá-los ficando totalmente louco autoproclamando-me um mago. Isso era algo que vinha se desenvolvendo há algum tempo, parecia ser um passo lógico na minha carreira de escritor. O problema é que, com a magia, que é em muitos aspectos uma ciência da linguagem, tem que ser muito cuidadoso com o que diz. Porque se repentinamente se declara a si mesmo como um mago, sem conhecimento algum do que isso implica, é provável que um dia você desperte e descubra que isso é exatamente o que você é.

Existe certa confusão a respeito do que a magia é realmente. Penso que isso pode ser explicado se você conferir as antigas descrições de magia. Magia, na sua forma mais antiga, é frequentemente denominada ‘A Arte’. Creio que isso seja completamente literal. Creio que a magia é a arte, e arte – seja a escrita, música, escultura ou qualquer outra forma – é literalmente magia.

Arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para operar mudanças na consciência. A verdadeira linguagem da magia, seja ela escrita ou arte, é sobre eventos sobrenaturais. Um grimório, por exemplo, ou livro de feitiços, é um modo extravagante de falar ‘gramática’. De fato, conjurar um encantamento é basicamente ‘soletrar’, manipular palavras para mudar a consciência das pessoas. E eu acredito que seja por isso que um artista ou escritor seja a coisa mais próxima, no mundo contemporâneo, do que poderíamos chamar de ‘xamã’.

Acredito que toda cultura deve ter surgido de um culto. Originalmente, todas as facetas de nossa cultura, sejam as artes ou ciências, eram territórios de um xamã. O fato de, nos dias atuais, esse poder mágico tenha se degenerado, ao nível do entretenimento barato e manipulação é, penso eu, uma tragédia.

No momento, quem está usando o xamanismo e a magia para dar forma à nossa cultura são os publicitários. Em vez de tentar despertar as pessoas, o xamanismo deles é usado como um opiáceo, para tranquilizar as pessoas, fazer as pessoas mais manipuláveis. A sua caixa mágica da televisão, e por suas palavras mágicas, seus jingles, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais, todos exatamente no mesmo momento.”

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