Requiem por Muitos Maios – Nuno Júdice

Conheci tipos que viveram muito. Estão
mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?

No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insonia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles – os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer – nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito – os
que nunca souberam nada da própria vida.

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Loran’s Dance – Idris Muhammad

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Meio-fio

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Manifesto Banksy anti-publicidade

O Facebook tá demorando uma eternidade pra me mandar o pacote zipado com meus posts lá (tá certo, é coisa pacas, entrei em 2007) então resolvi ir pegando eu mesmo, um a um, e republicando aqui. O primeiro da leva é este, um manifesto do Banksy contra a publicidade e seus ideólogos coxinhas. Assino embaixo.

Banksy Bottle manifesto

Estão rindo de você!

Há pessoas tirando onda com sua cara diariamente. Elas se metem na sua vida, dão um golpe baixo e logo desaparecem. Elas te espreitam de cima de edifícios altos, fazendo com que você se sinta pequeno. Elas te provocam de dentro do ônibus, insinuando que você não é suficientemente sexy, e que toda diversão está rolando em outro lugar. Elas estão na televisão, fazendo sua namorada se sentir insegura com suas imperfeições. Elas têm acesso à mais sofisticada tecnologia que o mundo já viu, e te intimidam com isso. São elas os “Anunciantes”, e estão rindo de você.

Você, contudo, é proibido de tocá-las. Marcas registradas, direitos de propriedade intelectual e leis de copyright significam que anunciantes maldosos podem dizer o que quiserem, onde quiserem, com total impunidade.

Quem se fodam. Qualquer anúncio em espaço público, que não dê a você a opção de vê-lo ou não vê-lo, lhe pertence. É todo seu, para pegar, reorganizar e reutilizar. Você pode fazer o que quiser com ele. Pedir permissão é como pedir para guardar uma pedra que alguém acabou de jogar na sua cabeça.

Você não deve nada às empresas. Deve menos do que nada; em especial, vocês não lhes deve gentileza alguma. Elas devem a você. Elas reorganizaram o mundo para se colocarem na sua frente. Nunca lhe pediram permissão; nem pense em lhes pedir a sua.

(tradução: Kika Serra e Francisco Corrêa).

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Lembrete

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I’m the Mountain – Stoned Jesus

I’m the locker i’m the key i am who you want to be
I’m the reason i’m the blame i will never be the same
Mirror-mirror tell the truth of the old ones and the youth
Of the things we hide deep from ourselves
Mirror-mirror show me now what will i become and how
For now i’m just a mountain
I’m the mountain

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Retomando uma velha paixão

Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue em frente. (Neil Gaiman)

Insônia faz a gente pensar. E muito. Na própria falta de sono, no que ficou pendente no dia, na semana, na vida. A gente olha pro teto e fica vendo imagens se formando, cenas inteiras. Tem hora que até esfregamos o olho para conferir se o sono já não veio. Ja virei várias noites olhando para o teto, migrando do quarto pra sala, da sala pra cozinha, e de volta pro quarto. Tem hora que nada adianta – tv, internet, livro, comida, leite quente, nada. O jeito é esperar.

Não tenho escrito muito ultimamente. Nada, para ser mais preciso. Sem vontade alguma. O que só me angustia mais e dá combustível à insônia. Afinal, um auto- entitulado ‘escriba’ que não escreve não tem lá muita serventia, né mesmo? Pra não pirar por completo, me valho das palavras do poeta:

Basta eu saber que poderei viver sem escrever mas
Com o direito de fazer quando quiser
Porque ele sabia mas esperava a hora de escrever que as rosas
Que as rosas eram todas amarelas que as rosas eram todas amarelas

Mas chegamos num ponto em que tudo o que nos resta é escrever. Sem pauta, roteiro, ideia, nada. Apenas esta página eletrônica em branco e o cursor piscando. Escrever não é fácil. Não mesmo. Transformar as difusas ideias que se agitam na mente em sólidas palavras, aprisionadas em significados nem sempre acurados, é um desafio e tanto. A gente escreve e apaga em seguida mais vezes do que gostaria. Algo do tipo 70% transpiração e 30% inspiração. Uma hora sai alguma coisa. Ou não. Mas como nao tenho pretensões literárias nem deadline profissional, vou escrevendo e apagando, lapidando algo, só pra pegar no tranco.

Ontem tava lendo um livro de contos do Neil Gaiman, Smoke and Mirrors (Fumaça e Espelhos), e senti vontade de escrever. O cara faz parecer tão fácil, que me senti até constrangido por negligenciar algo que, em última instância, é a única coisa que sei fazer razoavelmente bem.

Trabalhando em redação a gente aprende que ‘texto bom é texto publicado’. Tive um editor que insistia nisso, sacaneava até, dizendo “tá escrevendo um livro? Entrega logo esse texto, pô, ô atrasador de jornal!” kkkkk, era por aí mesmo. Eu levava horas pra construir o lide perfeito – ou o mais próximo disso. Depois que achava um que me satisfazia, o resto do texto vinha como que por mágica. Você pode ficar polindo eternamente o que escreve, mas qual a vantagem? Nunca vai terminar de lapidar, sempre vai achar uma vírgula a mais, um adjetivo desnecessário (quase todos o são), um parágrafo sobrando, uma informação faltando, etc. Tem uma hora que você tem que por o ponto final e colocar à prova com os leitores. E partir pro próximo texto.

Sai do Facebook recentemente um pouco por conta dessa aflição que vinha se agigantando em mim. Estava virando um mero ‘curtidor’ e comentarista de posts alheios. E quase ninguém se animava a discutir/debater um assunto por lá, apenas curtir e dizer ‘legal’, quando muito. Percebi que estava perdendo o tesão pelo debate – e consequentemente pela escrita, ou ainda, pela arte de debater um assunto expondo ideias, argumentos e referências num texto. Pra quê elaborar um texto se vc pode pegar uma imagem com uma frase de um escritor famoso e postar, resumindo tudo que pensa? Ou colocar um video de uma musica que traduz seu sentimento naquele momento?

Me diverti bastante no Facebook, não nego. Mais do que tudo, conheci gente muito legal, me apaixonei, me decepcionei, briguei, xinguei, fiz as pazes, descobri bons amigos, travei bons debates, mas ultimamente perdeu o sentido pra mim. E vi com pesar meu blog ficar à mingua, jogado de lado. Este blog ja me deu alegrias (e até dinheiro!), e me manteve ativo no que mais gosto de fazer na vida: escrever aleatoriamente, sobre assuntos que gosto, e mesmo sobre coisas que não conhecia. Escrevia para aprender. Pesquisava na internet sobre o tema em questão, descobria sites incríveis, aprimorava texto, ideias e forma (de escrever). Coloquei tudo isso na balança e optei por voltar ao blog. Espero que parte da rede que fiz no Facebook me visite por aqui. Serão todos bem-vindos!

Pois cá estou novamente, escrevendo. Já tinha me esquecido como gostava disso. E preciso fazer isso mais do que nunca, para não perder o norte.

O The Guardian publicou em 2010 as regras de diversos autores para se escrever bem ficção. As oito dicas do Neil Gaiman, um dos meus escritores prediletos, me chamaram mais a atenção. Valeu o toque, mr. Sandman!

– Escreva
– Coloque uma palavra após a outra. Encontre a palavra certa, escreva-a.
– Termine o que está escrevendo. O que tiver que fazer para terminar, faça.
– Deixe de lado. Leia como se nunca tivesse lido antes. Mostre a amigos cuja opinião respeita e que gostem o tipo de coisa que é o texto.
– Lembre-se: quando as pessoas dizem a você que algo está errado ou não funciona para eles, estão quase sempre certos. Quando eles dizem a você exatamente o que acham que esteja errado e como consertar, estão quase sempre errados.
– Conserte. Lembre-se que, mais cedo ou mais tarde, antes que chegue à perfeição, você terá que deixar o texto seguir seu caminho, ir em frente e começar a escrever a próxima coisa. Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue em frente.
– Ria de suas próprias piadas.
– A principal regra da escrita ~e que se vocë fizer com suficiente segurança e confiança, é permitido fazer o que quer que você goste. (Isso pode ser uma regra para a vida também. Mas é definitivamente verdade para o ato de escrever.) Então escreva a sua história como tem que ser escrita. Escreve honestamente, e conte-a da melhor forma que conseguir. Não sei se há outras regras. Nenhuma que realmente importe.

Mais dicas do Gaiman aqui e aqui.

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Potência – Letuce

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Dear Mr. Fantasy – Traffic

Dear Mister Fantasy play us a tune
Something to make us all happy
Do anything take us out of this gloom
Sing a song, play guitar
Make it snappy
You are the one who can make us all laugh
But doing that you break out in tears
Please don’t be sad if it was a straight mind you had
We wouldn’t have known you all these years

MrFantasy

(canção do disco Mr. Fantasy, álbum de estreia do grupo Traffic, de 1967. A letra é do baterista Jim Capaldi. O vídeo é o único registro da apresentação ao vivo do grupo no CA Civic Center, em Santa Monica, Califórnia (EUA) em 21 de fevereiro de 1972)

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O Poço – Pablo Neruda #umpoemapordia

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

( Pablo Neruda )

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