Retomando uma velha paixão

Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue em frente. (Neil Gaiman)

Insônia faz a gente pensar. E muito. Na própria falta de sono, no que ficou pendente no dia, na semana, na vida. A gente olha pro teto e fica vendo imagens se formando, cenas inteiras. Tem hora que até esfregamos o olho para conferir se o sono já não veio. Ja virei várias noites olhando para o teto, migrando do quarto pra sala, da sala pra cozinha, e de volta pro quarto. Tem hora que nada adianta – tv, internet, livro, comida, leite quente, nada. O jeito é esperar.

Não tenho escrito muito ultimamente. Nada, para ser mais preciso. Sem vontade alguma. O que só me angustia mais e dá combustível à insônia. Afinal, um auto- entitulado ‘escriba’ que não escreve não tem lá muita serventia, né mesmo? Pra não pirar por completo, me valho das palavras do poeta:

Basta eu saber que poderei viver sem escrever mas
Com o direito de fazer quando quiser
Porque ele sabia mas esperava a hora de escrever que as rosas
Que as rosas eram todas amarelas que as rosas eram todas amarelas

Mas chegamos num ponto em que tudo o que nos resta é escrever. Sem pauta, roteiro, ideia, nada. Apenas esta página eletrônica em branco e o cursor piscando. Escrever não é fácil. Não mesmo. Transformar as difusas ideias que se agitam na mente em sólidas palavras, aprisionadas em significados nem sempre acurados, é um desafio e tanto. A gente escreve e apaga em seguida mais vezes do que gostaria. Algo do tipo 70% transpiração e 30% inspiração. Uma hora sai alguma coisa. Ou não. Mas como nao tenho pretensões literárias nem deadline profissional, vou escrevendo e apagando, lapidando algo, só pra pegar no tranco.

Ontem tava lendo um livro de contos do Neil Gaiman, Smoke and Mirrors (Fumaça e Espelhos), e senti vontade de escrever. O cara faz parecer tão fácil, que me senti até constrangido por negligenciar algo que, em última instância, é a única coisa que sei fazer razoavelmente bem.

Trabalhando em redação a gente aprende que ‘texto bom é texto publicado’. Tive um editor que insistia nisso, sacaneava até, dizendo “tá escrevendo um livro? Entrega logo esse texto, pô, ô atrasador de jornal!” kkkkk, era por aí mesmo. Eu levava horas pra construir o lide perfeito – ou o mais próximo disso. Depois que achava um que me satisfazia, o resto do texto vinha como que por mágica. Você pode ficar polindo eternamente o que escreve, mas qual a vantagem? Nunca vai terminar de lapidar, sempre vai achar uma vírgula a mais, um adjetivo desnecessário (quase todos o são), um parágrafo sobrando, uma informação faltando, etc. Tem uma hora que você tem que por o ponto final e colocar à prova com os leitores. E partir pro próximo texto.

Sai do Facebook recentemente um pouco por conta dessa aflição que vinha se agigantando em mim. Estava virando um mero ‘curtidor’ e comentarista de posts alheios. E quase ninguém se animava a discutir/debater um assunto por lá, apenas curtir e dizer ‘legal’, quando muito. Percebi que estava perdendo o tesão pelo debate – e consequentemente pela escrita, ou ainda, pela arte de debater um assunto expondo ideias, argumentos e referências num texto. Pra quê elaborar um texto se vc pode pegar uma imagem com uma frase de um escritor famoso e postar, resumindo tudo que pensa? Ou colocar um video de uma musica que traduz seu sentimento naquele momento?

Me diverti bastante no Facebook, não nego. Mais do que tudo, conheci gente muito legal, me apaixonei, me decepcionei, briguei, xinguei, fiz as pazes, descobri bons amigos, travei bons debates, mas ultimamente perdeu o sentido pra mim. E vi com pesar meu blog ficar à mingua, jogado de lado. Este blog ja me deu alegrias (e até dinheiro!), e me manteve ativo no que mais gosto de fazer na vida: escrever aleatoriamente, sobre assuntos que gosto, e mesmo sobre coisas que não conhecia. Escrevia para aprender. Pesquisava na internet sobre o tema em questão, descobria sites incríveis, aprimorava texto, ideias e forma (de escrever). Coloquei tudo isso na balança e optei por voltar ao blog. Espero que parte da rede que fiz no Facebook me visite por aqui. Serão todos bem-vindos!

Pois cá estou novamente, escrevendo. Já tinha me esquecido como gostava disso. E preciso fazer isso mais do que nunca, para não perder o norte.

O The Guardian publicou em 2010 as regras de diversos autores para se escrever bem ficção. As oito dicas do Neil Gaiman, um dos meus escritores prediletos, me chamaram mais a atenção. Valeu o toque, mr. Sandman!

– Escreva
– Coloque uma palavra após a outra. Encontre a palavra certa, escreva-a.
– Termine o que está escrevendo. O que tiver que fazer para terminar, faça.
– Deixe de lado. Leia como se nunca tivesse lido antes. Mostre a amigos cuja opinião respeita e que gostem o tipo de coisa que é o texto.
– Lembre-se: quando as pessoas dizem a você que algo está errado ou não funciona para eles, estão quase sempre certos. Quando eles dizem a você exatamente o que acham que esteja errado e como consertar, estão quase sempre errados.
– Conserte. Lembre-se que, mais cedo ou mais tarde, antes que chegue à perfeição, você terá que deixar o texto seguir seu caminho, ir em frente e começar a escrever a próxima coisa. Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue em frente.
– Ria de suas próprias piadas.
– A principal regra da escrita ~e que se vocë fizer com suficiente segurança e confiança, é permitido fazer o que quer que você goste. (Isso pode ser uma regra para a vida também. Mas é definitivamente verdade para o ato de escrever.) Então escreva a sua história como tem que ser escrita. Escreve honestamente, e conte-a da melhor forma que conseguir. Não sei se há outras regras. Nenhuma que realmente importe.

Mais dicas do Gaiman aqui e aqui.

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8 respostas para Retomando uma velha paixão

  1. Izabella Cavalcanti disse:

    Ago entendi pq saiu do FB e é por uma ótima causa…. Inspire-se e mãos a obra… estou por aqui.. bjos

  2. Pois é, velhinho, senti a sua falta lá no Face. Eu não levo aquilo muito a sério. Tem coisas idiotas que eu publico e me aparece um monte de gente comentando. Tem coisas muito legais que (acho) passam batido. Eu não sei se teria essa coragem de passar a régua e fechar a conta. Há tempos não passo pelo Orkut, e não consigo fechar o meu perfil. Muita gente perdeu tempo deixando mensagem, depoimento e tal lá no meu pedaço. Dá dó. Mas, se é melhor pra você, meu camarada, então tá tudo certo. Vou passar mais vezes por aqui. Abração!

    • Valeu, meu caro. Eu tambem tenho dó de fechar a conta – e é verdade, também nao fechei o Orkut! Pô, taí, em consideração ao Orkut, nao fecharei tambem o Facebook, apenas deixarei inativo 🙂 abracao, apareça !

  3. Anasha Gelli disse:

    Muito legal o resgate da escrita. Aguardo, sempre na torcida, o resgate da fotografia! bj

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