Sim, lutamos por pão, mas também por rosas!

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Uma das cenas mais emocionantes do filme Pride (veja o trailer abaixo), que passou ontem no Cine Brasília dentro da programação do 1º Festival Internacional de Cinema LGBTI, é quando a comunidade de uma cidadezinha operária do País de Gales, reunida num salão de festas do clube local, canta o poema Pão e Rosas. Uma cena clichê talvez, um pouco batida e até meio cafona, mas indubitavelmente tocante, por um simples motivo: a letra da canção-poema, carregada de simbolismo e, principalmente, história de lutas.

O poema foi escrito em 1911 por James Oppenheim para celebrar os direitos das mulheres e usado, desde então, como hino em protestos de trabalhadores na Inglaterra e mundo afora. A primeira vez foi em 1912 numa greve em fábrica de tecidos de Massachusetts, nos EUA, contra o corte de salários (foto acima). As mulheres carregavam cartazes com trechos do poema, “Queremos pão, e rosas também”. Pão e Rosas é também o nome de um filme do Ken Loach, cineasta sempre atento às questões trabalhistas e de justiça social de sua época.

O poema:

Enquanto vamos marchando, avançando através do belo dia,
um milhão de cozinhas escuras e milhares de fábricas cinzentas
são tocadas por um sol radioso que subitamente abre,
e o povo ouve-nos cantar: Pão e rosas! Pão e rosas!

Enquanto vamos marchando, avançando,
Lutamos também pelos homens
pois eles são filhos de mulheres,
e como mães os protegemos.
Não mais seremos exploradas desde o nascimento até à morte
os corações mirram de fome, assim como os corpos.
Dai-nos pão, mas dai-nos rosas também !

Enquanto vamos marchando, avançando,
milhares de mulheres mortas
gritam através do nosso canto o seu antigo pedido de pão;
exaustas pelo trabalho, não conheceram a arte, nem o amor, nem a beleza.
Sim, é pelo pão que lutamos, mas também lutamos por rosas!
À medida que vamos marchando, avançando
trazemos connosco dias melhores.

Erguem-se as mulheres e isso significa
Que se ergue a humanidade.
Basta de agonia para o trabalhador e de ócio para o malandro:
o suor de dez que trabalham para um que nada faz.
Queremos compartilhar as glórias da vida: pão e rosas, pão e rosas!

Não permitiremos a exploração desde o nascimento até à morte;
os corações morrem de fome, assim como os corpos :
Pão e rosas, pão e rosas!

(original, em inglês)

As we come marching, marching in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”

As we come marching, marching, we battle too for men,
For they are women’s children, and we mother them again.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!

As we come marching, marching, unnumbered women dead
Go crying through our singing their ancient song of bread.
Small art and love and beauty their drudging spirits knew.
Yes, it is bread we fight for — but we fight for roses, too!

As we come marching, marching, we bring the greater days.
The rising of the women means the rising of the race.
No more the drudge and idler — ten that toil where one reposes,
But a sharing of life’s glories: Bread and roses! Bread and roses!

A cena:

O filme é uma comédia inglesa de 2014 e conta uma história real: o apoio de ativistas gays e lésbicas de Londres à greve de trabalhadores de minas de carvão nos anos 80, durante o governo Tatcher. Os mineiros resistiram no início, mas depois não apenas aceitarem a ajuda como retribuíram de uma forma espetacular, participando em massa da parada gay de 1985 em Londres. A narrativa é comum, com vários clichês (eu contei pelo menos três cenas em que todos aplaudem, algo meio já padrão no cinemão nosso de todo dia), mas a história é pra lá de interessante e o filme tem vários atores que curto pacas, como o Bill NighyImelda StauntonPaddy Considine. Além disso, tem o melhor do humor britânico, o que me garantiu algumas boas gargalhadas.

O trailer do filme:

pride

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