Narciso Cego – Thiago de Mello #umpoemapordia

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.

thiagoPoema publicado no livro Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito, de 1952. Thiago de Mello é poeta e tradutor, nascido em 1926 na cidade de Barreirinha, Amazonas. Abandonou curso de Medicina para escrever poesia. Seu primeiro livro, Silêncio e Palavra, foi publicado em 1951. Foi preso no período da ditadura militar no Brasil e exilado no Chile, onde conheceu Pablo Neruda, de quem se tornou amigo.

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