Estou Páscoa

Envelhecemos todos, inexoravelmente, e quase sempre nossas prioridades e anseios se alteram decisivamente; morrem antigas expectativas para renascerem de acordo com as novas metas traçadas. É a ressurreição dos desejos, renovados pela experiência e pelo fracasso.

Estou mais Páscoa e menos, digamos, Natal. Quando criança, o Natal era imbatível. A magia dos presentes, do presépio, do bom velhinho que chega durante a noite e deixa os pacotes ao pé da árvore ou na meia pendurada em algum canto, a reunião dos familiares, todo mundo feliz, tolerante, compreensivo, a celebração à mesa, fartura de cheiros, cores e gostos. É um dia extrovertido, luminoso.

Na maturidade, é tempo de Páscoa. É a festa da ressurreição pós-martírio. Depois de um período introspectivo, reflexivo, em que contabilizamos erros e avaliamos ajustes necessários na vida, ressurgimos das cinzas dos descaminhos.

Natal é nascimento, e não há milagre aí, apenas o inexorável mistério da vida. Nascer faz parte dela, é tão natural quanto respirar, andar ou morrer. Milagre é a ressurreição, voltar à luz depois de tempos de escuridão. Não decidi nascer, mas tomo firmemente as rédeas de meu retorno à vida, quando tudo parecia perdido, num voto apaixonado pela existência. A Páscoa reafirma isso: não importa em que estado psicológico, físico ou emocional esteja, você sempre será capaz de começar tudo novamente. Completar o círculo e ver as coisas com novos olhos. Com olhos infantes, o mundo se renova. E rejuvenescemos com ele.

O curioso é que para a igreja católica, o Natal tem mais relevância do que a Páscoa mas, por outro lado, toda sua simbologia está calcada no sofrimento de Cristo na cruz. A festa natalina parece funcionar como algo a aliviar o baixo astral do discurso católico. Já na igreja ortodoxa oriental (como a russa), é o contrário: a simbologia gira em torno de Cristo bebê, recém nascido, mas a festa relevante é a Páscoa, como a lembrar aos fiéis que há momentos na vida em que é preciso se retrair e enfrentar seus demônios, para dar a volta por cima e ressurgir adiante, novo como um ‘bebê’.

É, estou num momento Páscoa.

rimsky(A Abertura Grande Páscoa Russa – em russo, Svetly Prazdnik, Feriado Resplandecente – de Rimsky-Korsakov (1844-1908), oficial da Marinha russa, professor e compositor que fez parte do Grupo dos Cinco, juntamente com Mily Balakirev, Aleksandr Borodin, César Cui e Modest Mussorgsky. A Grande Páscoa Russa é a terceira peça de Korsakov para orquestra. Foi executada pela primeira vez em 1888, em São Peterburgo, com sua própria regência. No vídeo acima, a peça é executada pela Orquestra Sinfônica Nacional Dinamarquesa)

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