Zen Passado – parte 11: A Decisão

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
(Mario Quintana)

– E aí, meu caro? Tudo certo? O carro ficou pronto, posso te levar no aeroporto amanhã, que tal?

– Valeu pela força, Valtinho. Mas já pedi um táxi pr’amanhã. Não leve à mal, mas o voo é cedão, deixa quieto.

– Qualé, para com isso. Faço questão. Aproveito e te conto umas ‘paradas’ que estão pra rolar… E pago o café!

– Tá certo, combinado. Mas tenho que estar no aeroporto às cinco da matina em ponto. Sem furos, beleza? E sem paradas…

– Ok, entendi. Hasta luego, compañeiro!

Só me faltava o Valtinho me arrumar uma ‘parada’ no Chile. Esse cara é maluco. O homem-rolo. Acho que nunca exerceu a profissão que tem, vive de bico. Alguns são jogadas de mestres; outros, roubadas homéricas. Tô fora. Não preciso mais disso, tenho que focar nesse trampo e aproveitar a calmaria – se houver – pra escrever. Finalmente. Uma terapia e tanto. Uma página após a outra…

Por aqui, tudo certo. A proprietária não gostou muito de trocar o último aluguel por móveis detonados e alguns aparelhos eletrônicos ultrapassados, mas o que posso fazer? Foi bons pros dois: eu me livrei de coisas que não poderia levar e ela pelo menos minimiza o prejuízo.

Agora é separar o que vou levar de roupa, livros e CDs, e deixar o resto pro Cabral vir aqui pegar. Ele é o meu ‘reciclador’ oficial, pega tudo, diz que é pr’uma biblioteca comunitária e tal, vai saber. Pra mim, pouco importa. Que venda e ganhe um dinheirinho, fique com tudo, pelo menos as coisas circulam. Minha última boa ação. ‘Tava tudo mofando aqui em casa, sem uso. Bora aliviar um pouco a carga. Um amigo diz que seu objetivo na vida é ter apenas o que couber no carro. Ok, ele tem uma doblô, ainda assim é louvável sua meta.

Acho que consigo me virar bem com o que estou levando. Mas vou sentir falta daquela livraiada toda. Me confortavam em tempos difíceis. De qualquer maneira, sinto que chegou o momento de por um pouco pra fora tudo que consumi nesses anos todos. Ler menos e escrever mais.

– Hola, que tal, mi camarada? Te gusta pisco? Las muchachas chilenas son bonitas, no?

– Ouvir seu portunhol logo de manhã é tudo que eu queria… o carro ficou bom, hein?

– Não é? Novinho em folha. E agora é meu, fechei o negócio com minha tia. Ela ficou feliz, eu também. Ficou bom pra todo mundo.

– Parabéns. Me ajuda aqui com essa mala. A rodinha quebrou, saco.

– Porra, pesado pacas, hein? Tá levando um defunto aí dentro?

– Livros, bicho. Papel pesa mesmo.

– Joga fora tudo, meu, o negócio agora é ‘ebuqui’, Tudo numa caixinha desse tamaninho, ó!

– Maneiro. Mas sou fetichista, gosto de pegar, cheirar, olhar pro livro. E já deixei coisa bastante pra trás. Melhor nem pensar…

– Sai dessa, mano! Livro já era. Agora cabe tudo que tem nessa porra de mala nesse bagulhinho aqui. E a tela é boa pra ler. Quando você tiver um, vai me dar razão. Se quiser te arrumo.

– Nah, xapralá. Tenho outras prioridades agora.

A ida até o aeroporto é tranquila. Na medida do possível, claro. Valtinho não para de falar em paradas de tudo quanto é tipo, continua dirigindo insanamente, mas chego com tempo de sobra pra tomar um bom café e trocar um dinheiro. Me despeço com um abraço e a promessa de que ele poderá passar uns dias comigo em meu retiro nos Andes. Quer andar de esqui, ver a montanha, tomar uns piscos originais. É, pode ser divertido.

No avião, relaxo, ponho o fone de ouvido e deixo a mente vagar. Não quero pensar nas coisas que deixo pra trás, são fantasmas do que um dia sonhei em construir. No que depender de mim, morrem hoje.

Hora de construir um novo passado.

I did not become someone different
That I did not want to be
But I’m new here
Will you show me around?

No matter how far wrong you’ve gone
You can always turn around

Met a woman in a bar
Told her I was hard to get to know
And near impossible to forget
She said I had an ego on me
The size of Texas

Well I’m new here and I forget
Does that mean big or small?

No matter how far wrong you’ve gone
You can always tournaround

And I’m shedding plates like a snake
And it may be crazy but I’m
The closest thing I have
To a voice of reason

Turnaround turnaround turnaround
And you may come full circle
And be new here again

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