Quem avisa amigo é

Pois é, e não é que os tais ecoxiitas que alertavam lá atrás que a aprovação do milho transgênico pelo Brasil traria problemas aos agricultores estavam certos? Os produtores do Paraná, responsáveis pela maior parte do milho plantado no país, estão sofrendo com a contaminação de suas lavouras pela versão transgênicas, assunto tão grave que ganhou manchete na Folha dias atrás. Se ambientalistas fossem mesmo chatos ficariam que nem aquele personagem de Carangos e Motocas que, ao final de cada episódio, repetia: “Eu te disse! Eu te disse!”

Há mais de uma década que a contaminação no campo provocada pelas culturas transgênicas é conhecida e denunciada, bem como a ameaça que representam à biodiversidade e o aumento no uso de agrotóxicos no campo. A imprensa brasileira, no entanto, passou esse tempo todo apenas reproduzindo o canto da sereia entoado pela indústria de biotecnologia, de que os transgênicos aumentariam a produção, os ganhos dos plantadores, combateriam a fome, seriam a resposta para a agricultura em tempos de mudanças climáticas. Mais de 20 anos depois da tecnologia estar na praça, o que temos? Plantas geneticamente modificadas para resistir a agrotóxicos – tudo feito pelas mesmas empresas (Bayer, Monsanto, Basf, Dow Química). Não é uma beleza? Não é raro ler editorais acusando ambientalistas e cientistas de serem ‘anti-ciência’, ‘obscurantistas’ ou mesmo ‘terroristas’, por pedirem tão somente um maior cuidado com um assunto envolto em tanta polêmica.

Foi preciso que diversos países europeus levantassem barreiras aos transgênicos no campo – entre eles França e Alemanha, dois dos maiores produtores agrícolas da Europa – e que a primeira colheita de milho transgênico no Brasil fosse tamanho desastre para que a nossa imprensa olhasse para fora da semente e percebesse que o quadro geral é bem mais feio que pintavam os promotores da nova tecnologia.

A questão toda não é a tecnologia em si. Como bem observou Jeffrey Smith em sua entrevista ao Roda Viva (gravada na última quinta-feira e que deve ir ao ar em breve na TV Cultura), ela pode um dia vir mesmo a ser interessante para a agricultura. “Mas ainda estamos longe desse dia”, alertou o americano, diretor executivo do Instituto pela Tecnologia Responsável e autor dos livros Sementes da Decepção e Roleta Genética, cuja edição nacional foi lançado semana passada no Brasil.

Tendo como entrevistadores Flavio Finardi Filho, professor da USP e membro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) – ONG bancada pela indústria de biotecnologia -, os jornalistas Alexandre Mansur (revista Época), Fernando Lopes (Valor Econômico) e Washington Novaes, Jeffrey Smith fez uma bela exposição dos riscos que corremos ao liberar no campo uma tecnologia tão cheia de buracos. Mansur e Finardi Filho, com a ajuda do apresentador Heródoto Barbeiro, bem que tentaram encurralar o entrevistado (“Então a FDA não é confiável?”, “A imprensa está vendida?”, “Se os transgênicos são tão ruins, porque tantos agricultores querem plantá-lo?”), mas ele se saiu bem lembrando da força da Monsanto no órgão federal americano que regula os alimentos no país; do caso dos jornalistas da Fox perseguidos por denúncias ao Posilac; e das muitas ilusões que a indústria vende aos produtores. Não foi contestado, apenas recebeu de volta risinhos debochados. A discussão, como se vê, ainda engatinha por aqui. Quando a imprensa brazuca parar de ver a questão toda por meio apenas das informações vindas da indústria, talvez aí as coisas fiquem mais claras. Por ora, serve apenas de biombo para uma ciência cega, que corre para chegar mais rápido ao buraco.

A imprensa aliás, como bem observou Luciano Costa Martins, é mais do que cúmplice disso tudo; é coautora do crime que se está cometendo com a agricultura e meio ambiente brasileiros. Não adianta culpar apenas o governo pela falta de fiscalização (a velha mania nacional), como fez a Folha na matéria sobre o milho transgênico no Paraná, é preciso rever parâmetros na hora de discutir temas tão controversos, para dar um panorama mais claro que vem acontecendo. Ou vão esperar o caldo entornar geral para enfim notarem que há mais verdades por aí do que as alegadas pelo CIB e companhia?

Ninguém aqui é contra a tecnologia, mas sim contra a sua aplicação inadequada. Devagar com o andor, galera, que o planeta é de barro.

Em tempo: Dias atrás, um membro da CTNBio, comissão encarregada da aprovação dos transgênicos no Brasil, visitou este blog e questionou minha argumentação sobre o assunto. Pedi uma entrevista ao Paulo Paes de Andrade, geneticista da UFPE, ele aceitou.

As respostas às 10 perguntas enviadas estão aqui. Agradeço ao Paulo pela boa vontade e elegância com que vem travando o debate – pelo menos neste blog.

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Uma resposta para Quem avisa amigo é

  1. Denise disse:

    A verdade é que os ecochatos/ecoxiitas sempre estiveram certos, a grande maioria, cega em seus egos, estavam destruindo o que hoje estão tentando conserar. E acora todo mundo é Ecofriendly, uma bosta. Até mesmo porque a grande maioria destas empregas grandes que criam institutos e projetos querem mais é fugir de impostos e fazer lavagem de dinheiro.

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