É preciso entrar com suavidade nessa noite escura – impressões sobre o filme Interestelar

Fui ver Interestelar cheio de esperança, estimulado pelos comentários que li durante a produção, por gostar dos trabalhos do Nolan e por ser fã de filmes sobre o espaço. Mas conforme a história se desenrolava, fui ficando mais e mais decepcionado. A começar pela falação técnica dos personagens que, como professores de astrofísica, pareciam agarrar os espectadores pelo colarinho e sacudi-los, dizendo “prest’enção, tô falando um monte de coisa importante pra você entender o filme!”. E pior: tanto verbo gasto pra explicar como a humanidade faria para encontrar um novo planeta pra sobreviver e quase nada sobre o que levou o planeta à penúria que justificaria seu abandono. Aliás, um mundo em caos, morrendo de fome, sem governo, sem forças militares regulares e nenhuma revolta visível? Quem escreveu o roteiro? Glória Perez?

Ao longo das três horas de projeção, também me decepcionei com as atuações clichês de Matthew McConaughey (meio over), Anne Hathaway (sem sal) e Michael Caine (que tem feito sempre o mesmo papel, alternando com Morgan Freeman…) e a falta de elegância na trilha sonora, que por várias vezes pontuava de maneira excessiva momentos chaves da história.

Faltou poesia e sensibilidade para contar uma história tendo o espaço como pano de fundo – ainda mais quando se propõe a usá-lo para falar do amor e seus insondáveis caminhos. Acho que Nolan levou demais ao pé da letra o poema do Dylan Thomas (ponto alto do filme) recitado por Michael Caine, não entrando com suavidade na boa noite escura. Referências para tal ele tem de sobra: Kubrick (2001), Kaufman (Os Eleitos) e Tarkovski (Solaris), que souberam transpor à tela, de forma lúdica, poética e científica, todos os ancestrais anseios da humanidade despertados pelo chão de estrelas que nos persegue desde a aurora dos tempos. Nolan tentou, mas se perdeu em meio ao emaranhado sedutor das teorias quânticas. Como bem disse o crítico Pablo Villaça, criou um Deus Ex Quantum para amarrar tudo. Fracassou solenemente.

Não sou crítico de cinema, nem astrofísico, apenas um diletante. Por isso indico a crítica cinematográfica do Pablo e os comentários do astrofísico Neil DeGrasse Tyson (em vídeo, aqui), que apresenta o seriado Cosmos (nova versão do seriado apresentado na década de 1980 por Carl Sagan).

porcos

Em tempo: Justiça seja feita: minha experiência com Interestelar no cinema foi bem prejudicada por um casal que sentou do meu lado, comendo suas pipocas, biscoitos e sei-lá-mais-o-que como se fossem dois suínos, chafurdando com gosto naquela lavagem industrial, pouco se importando com o barulho que faziam. Me senti na companhia daqueles porcos de Viagem de Chihiro. Foi um exercício e tanto manter uma postura zen pra evitar barraco na sala de projeção.

europa

PS – A imagem acima é de Europa, lua de Júpiter, feita com registros enviados pela sonda espacial Galileo, que passou por lá entre 1995 e 1998. Sua superfície é de gelo e tem um imenso oceano por baixo. Já inspirou um excelente filme, Europa Report. Mais um belo registro para o catálogo visual do cosmos, que já tem cerca de 4 mil anos.

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5 respostas para É preciso entrar com suavidade nessa noite escura – impressões sobre o filme Interestelar

  1. marcosfaria disse:

    Pra mim, “Interestelar” é enganação. Parece um filme bom, mas é muito ruim.
    Tudo o que gastaram de consultoria em astrofísica faltou em consultoria sobre lógica. Você tem a NASA no projeto mais ambicioso da sua história e ninguém pensa em procurar o melhor piloto que eles tinham, e que seria imprescindível para a missão. Você tem uma crise ambiental sem precedentes na história da Humanidade e a civilização continua baseada no uso indiscriminado de combustíveis fósseis.
    Principalmente, o que deveria ser o grande conflito ético do filme é nulo. Cooper é um homem de ciência (e um piloto). Não faz o menor sentido ele tentar transformar a missão num resgate da filha. Não faz sentido entrar na missão sem saber que é uma aposta pra salvar a humanidade. E cacete!, se meu pai entrasse numa porra dum foguete pra salvar a humanidade ele seria trocentas vezes mais meu herói do que já é, eu não ia ficar choramingando que ele me abandonou.
    Fora isso tem os problemas técnicos que muita gente apontou. Você usa um foguete tradicional para sair da terra, mas para decolar de um planeta com gravidade ainda maior basta uma daquelas mininaves. O Cooper sobrevive à entrada num buraco negro. Ok, é uma ficção mas às vezes o Nolan abusa da suspension of disbelief.

    • jhcordeiro disse:

      Ontem recebi uma chamada da minha namorada, que considerou meu texto muito ‘ranzinza’ em relação ao filme. Até tentei escrever um parágrafo extra com o que tinha gostado – afinal, sao três horas de projeção! Mas então percebi que gostei de muito pouca coisa no filme, basicamente três: a citação do poema do Dylan Thomas, o planeta água com aquela onda gigante e as cenas de viagem no espaço.

      É , concordo contigo, o filme é ruim, disfarçado de bom

  2. Pingback: Trailer do filme Ex Machina | O Escriba

  3. Taynara Costa disse:

    Ola, ele fez isso justamente para ter o acervo extra. Tem um curta explicando como isso ocorreu e o que aconteceu com o povo da terra.

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