Zen Passado – parte 10: A Amizade

amigos
(Foto: O Escriba)

Não contava com essa chuvinha de fim de tarde. São Paulo sempre me pega de surpresa. Não deveria, já que estou careca de saber que aqui fazem as quatro estações do ano num mesmo dia. Minha caminhada até o bar do Pedrão miou, vou ter que pegar outro táxi. Lá vai barão…

No caminho, deixo o livro do Camus de lado, mas Sísifo me acompanha nas divagações. Nas calçadas, nos bares, residências, carros vizinhos, estamos todos empurrando o rochedo morro acima. Alguns resignados (e felizes, até), outros com fé numa improvável providência divina, que os premiará pelos esforços feitos. Somos treinados a esperar compensações, certo? Um grande amor, um cargo importante, uma redenção, o fim de uma dor, um carro novo. São cenouras amarradas no cangote. Sem elas, empacamos. E o rochedo cai no vale profundo.

O taxista para o carro na esquina do bar. Desço e pego um pouco de chuva. Se não estivesse frio, teria vindo à pé. Gosto de andar na chuva.

Valtinho me chama pra mesa quando me vê. Já está meio bêbado, provavelmente chegou na hora do almoço e foi ficando. Já fiz muito isso.

– E aí, cara! Sentaí. Como foi nas entrevistas?

– De boa. Se tudo der certo, em duas semanas vou pro Chile.

Eu e minhas expectativas. Não consigo evitar.

– Sério? Que beleza! Vou te visitar por lá!

– Será um prazer. Mas se rolar não vai ser em Santiago, mas numa cidadezinha do interior. Lugar chamado Salamanca. Trampo com uma mineradora. Tem uma estação de esqui por lá. Mas não é minha praia. Vou aproveitar o tempo livre, se houver, pra escrever algumas coisas.

– Vai virar escritor! Nada melhor do que um lugar isolado ora escrever. Mas aí, sair de São Paulo e ir pro fim do mundo no Chile não deve ser fácil. Mas você se adapta. Já morou no Gabão, não foi?

– Não cara, foi Quênia. E isso tem muito tempo, nem lembro direito. Mas sim, devo sentir falta de São Paulo…

– Bom, os amigos estão aqui pra isso. Sempre que sentir saudades, vem pra cá passar o fim de semana e a gente toma todas aqui no Pedrão!

– É , pode ser.

É incrível como para o Valtinho, tudo se resolve. Sempre. É um otimista incorrigível. Bom, tem que ser. Vive de esquemas, paradas, rolos. Se não for otimista, não sobrevive. E nem convence os amigos a entrarem nas jogadas. Já me dei bem em algumas delas, mas a última foi um sinal de que precisava mudar de ares.

– Dói muito ainda o nariz? E o carro, como ficou?

– O nariz ainda incomoda, mas nada que um poderoso uíscão não resolva. E o carro já tá na oficina, em duas semanas pego ele de volta. E fiz um rolo com minha tia, vou ficar com ele. E cara, o que foi aquele acidente? Putaqueopariu!

– Sua tia é uma santa… E eu tenho uma ou duas definições pro que aconteceu, mas melhor ficar quieto…

– Hahahaha, tá certo – eu que me fodo e você quem reclama. Gostou no novo estilo do meu nariz? A pancada deixou ele mais curto, o médico disse!

A filha do Pedrão passa pela mesa e nos calamos em respeito à graciosidade. Peço mais uma cerveja pro Pedrão e ele pede pra filha levar. Chega sorridente, deixa a garrafa e sai assoviando algum roquenrol das antigas, que só conhece porque tem o pai que tem. Pedrão soube dar uma boa educação pr’essa mina.

Mila manda um SMS. Pede desculpas pela noite anterior e diz que quer sair. Respondo que estou com Valtinho tomando umas e outras e ela diz que vai chegar.

– Mila tá vindo pra cá.

– Caramba, meu. Tá rendendo com a figura, hein? Viraram amantes oficiais?

– Não sei o que viramos. Não quero pensar muito nisso…

– Boa, deixa rolar. O que tiver que ser, será.

Lá vem a filosofia de boteco do Valtinho. Ele não deixa de ter razão. Já passei da fase de esperar algo com a Mila. Ela me instiga, é certo, como uma cidade exótica que atrai o visitante para descobrir todas as suas quebradas, com os prazeres e riscos que isso possa implicar. Acho que temos mais coisas em comum do que diferenças – e são os iguais, e não os diferentes, que se atraem. Aí que está a merda: não sei se quero estar com alguém parecido comigo. Pelo menos não agora. E até onde eu percebo, ela tem outros planos – e não estou incluído neles.

Pedrão se junta a nós no papo na mesa. Traz uma garrafa de vinho e enche os copos – menos o do Valtinho, que prefere ficar no uísque. Quando os últimos fregueses saem, Pedrão libera o cigarro. Ótimo, porque chove cântaros lá fora. Acendo um e trago com força. Encho os pulmão e exalo uma fumaça encorpada. Quando ela se desfaz, Mila entra no bar. Está ensopada, cabelos lambidos escorrendo pelos ombros. Está mais bonita do que nunca.

A filha do Pedrão se despede, seu namoradinho chegou. Vai cair na balada. Pedrão dá os conselhos de praxe, que todo pai manda nessa hora, e ergue um brinde “à filha mais bonita da cidade”. Não há o que discutir. Voltamos ao papo. Mila só escuta. Tento não demonstrar muita ansiedade mas com o canto dos olhos percebo que ela está cabisbaixa, alheia.

– Tá tudo bem?

Pergunto, discretamente, enquanto Valtinho e Pedrão discutem sobre os rumos da humanidade com o novo papa.

– O de sempre. Precisava sair de casa, respirar, ver gente. Mas acho que cheguei tarde aqui…

– Quer ir pr’algum lugar?

– Não, tudo bem. Vamos ficar, o papo tá animado. Já é alguma coisa.

Mila se serve e entorna a primeira taça com vontade. Na segunda, para na metade. Fica um tempo apenas olhando ora Valtinho, ora Pedrão. Mas logo, aproveita uma brecha e entra no papo, já me incluindo, perguntando se não concordo que o papa é marqueteiro. Discordo, só pra por mais lenha na discussão. Ela já está mais animada. É o vinho quente subindo à cabeça.

Conto a novidade pra Mila.

– Acho que vou pro Chile.

– É mesmo? Que coisa boa! A passeio ou trampo?

– Trampo. Ficaram de me dar a resposta semana que vem. E se tudo correr bem, na outra já estarei por lá.

– Vai ganhar bem? Tem que ganhar, né? Pra mudar assim de país, tem que ter compensação. E Santiago é linda!

– Não vou pra lá. O trampo é numa cidade do interior, perto da montanha.

– Ai, que tudo! Um dia vou te visitar. Pode?

Fico sem resposta. Mila nem percebe. Já está engatada novamente no papo sem fim da mesa. Já está eufórica, soltando suas gargalhadas calculadas. Preciso aprender a desencanar das coisas como ela faz.

Pedrão, Valtinho e Mila levantam seus copos e brindam à minha viagem. Me enchem de perguntas sobre o trabalho, o lugar, as expectativas, e cada resposta rende mais uma rodada de vinho e sonhos. Assim varamos a noite. Tenho os melhores amigos do mundo. E um grande amor que bateu na trave.

Sou um cara de sorte.

Que os quatro
como num teatro
conservem a mão
sem nenhum
gesto

que o vinho quente
do coração
lhes suba à cabeça
espessa

que do bolso de
cada um dos quatro
como num teatro
voem
pombas
(pombas
brancas)
…e amanheça.

(Leia a história completa aqui)

Anúncios
Esse post foi publicado em Zen passado e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s