Contra o caos, inteligência verde

Demorou mas Rex Weyler enfim atualizou sua série sobre as origens do ativismo, ambientalismo e do Greenpeace publicando dois novos textos no site do grupo. E que textos!!

Estamos no limiar de grandes mudanças de paradigmas de desenvolvimento e sociais, e o que Rex faz é nos alertar para estarmos preparados. Ou nos mexemos agora, priorizando a sustentabilidade, o consumo responsável e o respeito ao meio ambiente, ou vai ser um baita barata-voa no meio do caos.

O primeiro texto, O Fim do Preço (aqui a íntegra, em inglês), começa assim, numa tradução livre minha:

Nos anos 80, pescadores capturaram a última beluga no Mar de Azov, fonte do valioso caviar, e o peixe selvagem do Mar Cáspio fracassou em se reproduzir. A captura desse tipo de peixe despencou em 95% e o custo do caviar disparou. Tal crescimento extraordinário no preço é conhecido como ‘hiperinflação’, ou como o economista Eric Sprott diz, “a síndrome do caviar”.

Isso pode soar trivial, mas a hiperinflação se torna crítica quando se trata de commodities como óleo, gás, cobre, zinco, água ou madeira, todas elas cada vez mais raras em escala global. A civilização industrial já prospectou o melhor e mais acessível desses recursos. Belugas podem se recuperar se deixarmos elas em paz, mas cobre e óleo não se reproduzem.

Conforme a humanidade vasculha as regiões mais inóspitas do planeta por recursos, entramos em um novo período histório em que algumas commodities vitais não mais terão seu tradicional preço de mercado ligado à demanda, mas sim ao custo do acesso a elas.

Vale ressaltar um outro trecho do primeiro texto:

Os custos ambientais e sociais de se fazer negócios nunca aparecem nos orçamentos operacionais de empresas bilionárias. Dinheiro público e lagos tóxicos não aparecem nos balanços financeiros. Por que? Porque não seria rentável. Investimentos do setor público e da natureza não ganham opções de ações, apesar dos magos do mercado livre precisarem desses investimentos para evitar o choque contra a parede. A estratégia do mercado livre para evitar o muro é: socializar os custos, privatizar os lucros.

E para garantir os recursos necessários para a vida perdulária que vivemos hoje, os países estão dispostos a partir pra porrada. Ou, segundo as palavras de Zhng Wenmu, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China, citado por Weyler, “uma grande potência é aquela que controla mais recursos e nunca houve um caso na história onde isso é obtido por meio da paz.”

E conclui:

Vemos agora que nossas economias galopantes dependem de dívidas enormes, guerra, abuso, desperdício. Os rios morrem, espécies são extintas, florestas desaparecem, desertos crescem e pessoas sofrem. Esse estado das coisas sinaliza uma disfunção social em escala global. O mundo industria revela um comportamento sociopata e ‘ecopata’. Cidadãos inocentes às vezes parecem traumatizados, mesmo quando fazem o seu melhor para permanecerem otimistas e aplicam soluções criativas.

Daly, Henderson, Ayers, Mark Anielski, Nicholas Stern e muitos outros economistas descreveram teorias econômicas mais acuradas que reconhece o valor natural e a autêntica qualidade de vida. O que a sociedade tem que aprender é:

A ecologia é a economia.

Tudo que usamos, toda inovação tecnológica, todo empreendimento humano ou simples prazer depende do planeta. Economistas ignoram a ecologia, para o nosso perigo. O fim do preço convencional coloca a ecologia e a natureza em perspectiva apropriada: não tem preço.

No texto mais recente, Pico do Petróleo Muda Tudo (aqui a íntegra, em inglês), Rex discorre sobre as mudanças que teremos na moderna sociedade de consumo devido aos custos cada vez mais altos dos recursos naturais e energéticos (petróleo, por exemplo) necessários para prover economias em desenvolvimento como Brasil, China e Índia.

Ou nas palavras dele:

Pico do óleo não é uma teoria, mas uma simples observação de uma ocorrência comum natural. Pico do óleo é apenas um sintoma de um crescimento populacional exponencial, com demandas exponencialmente crescentes, alcançando os limites mundiais de todos os recursos.

“O pico do óleo tem sido uma realidade há tempos para a indústria do petróleo”, afirma Anita M. Burke, ex-consultora da Shell sobre Mudanças Climáticas e Sustentabilidade. Em 2007, Dr. James Schlesinger, ex-secretário americano de Defesa e Energia, afirmou: “Se você conversa com os líderes da indústria, eles admitem… estamos enfrentando um declínio dos combustíveis líquidos. A batalha terminou.”

E o que vem por aí?

A era pós-pico do óleo vai requerer novos padrões de desenvolvimento humano e estratégias que se alinhem aos limites do crescimento. A humanidade não tem novos continentes para explorar ou planetas para ocupar. Nações industriais podem perfurar o Ártico e cavar em areias sujas de alcatrão, mas nada disso vai aumentar ou mesmo equiparar a abundância passada de combustível líquido barato que já consumimos. No entanto, o atual momento em que a produção de óleo chega a um teto é menos relevante do que nossa preparação para o impacto…

… Nossas economias foram construídas com óleo barato. Desenvolvimento mal planejado deixou para trás florestas arrasadas, lagos tóxicos, erosão do solo, espécies perdidas para sempre, ar poluído, rios mortos, aquíferos contaminados e desertos em expansão.

A solução? Algumas dicas:

Relocalizar: Pensar globalmente, consumir localmente. Se vai estudar finanças internacionais, talvez seja interessante fazer alguns cursos de permacultura também.

Preservar fazendas: Cidades dependem da produção de alimentos e por isso é uma boa idéia ter fazendas por perto. Canberra, capital australiana é assim: fazendas ficam entre os bairros! Alguns parques também.

Mudança no padrão da comunidade: Toda distribuição da atividade pública, espaço público e áreas residênciais devem ser adaptadas para o uso de menos combustível e consumo de recursos.

Espaços urbanos verdes e produtivos: Mais áreas verdes, mais transporte público, mais ciclovias.

Viva o transporte público: Automóvel só para o essencial. Mesmo. Para muitas coisas, é melhor andar, ir de bicicleta, pegar um ônibus ou trem. Cidades inteligentes têm que ser planejadas para evitar ao máximo o deslocamento motorizado.

100% de reciclagem: A natureza recicla tudo. Nós também podemos. É possível viver num mundo sem lixo. Experiências nesse sentido já podem ser vistas no Japão e na Escócia, por exemplo.

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9 respostas para Contra o caos, inteligência verde

  1. Ana Carmen disse:

    Sumi não, virei mamãe
    100% de mudança no padrão da comunidade, digamos assim, relocalizando o tempo todo. Todos os espaços são verdes e produtivos, uma fase boa.
    Beijos.

  2. escriba disse:

    Ahhhh!! Que beleza!! Parabens!! A fase é dura, mas deliciosa tambem!! Aproveite!

    E boa sorte!
    bjs!

  3. escriba disse:

    valeu, nelson!! abs!

  4. […] a estratégia do mercado livre para evitar o muro é: socializar os custos, privatizar os lucros. De onde eu tirei isso? Daqui: O Escriba (Contra o Caos, Inteligência Verde). Esta é a sugestão de leitura. Não é sobre transgênico mas se aplica bem.

    Um texto muito bom e abrangente sobre as mudanças de desenvolvimento e sociais […]

  5. Sérgio Pamplona disse:

    Olá, Escriba, cujo nome desconheço,
    Agradeço seu comentário e seu link no blog que mantém. Gostei não só da sua iniciativa, como do seu pensamento e dos trechos de texto que disponibilizou.
    Já que vc lê inglês, te recomendo entrar no site de David Holmgren, http://www.futurescenarios.org, que eu estou traduzindo. Tendo tempo e disposição, leia o texto na sequência toda. Vale a pena.

    David é um dos criadores da permacultura, e um grande estudiosos das questões energéticas. Há anos ele vem batendo na tecla da “pico do petróleo” e construindo os cenários que daí podem advir.
    De acordo com ele, no cenário que ele julga mais provável (o do “declínio de energia”), a permacultura, como visão, princípio de ação e como práxis, tende a se tornar muito necessária para que atravessemos os tempos difíceis que se aproximam, mas que não deixam de ser oportunidades para a criatividade humana. Ele também vem falando há vários anos da relocalização, e isso está na base das propostas permaculturais.

    Valeu.
    Um grande abraço,
    Sérgio

  6. composteira para todos » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados. disse:

    composteira para todos » Ladybug Brasil – Sobrevôos, descobertas, achados.

    […] tamanho certinho para colocar até dentro do gabinete da cozinha, esta engenhoca ajuda a acabar com o lixo, como propõe o Jorge no artigo de […]

  7. O Escriba » Cenários futuros num mundo com menos energia disse:

    O Escriba » Cenários futuros num mundo com menos energia

    […] Rede Ecoblogs, energia Um dos leitores deste blog, Sérgio Pamplona, deixou um comentário no post que escrevi sobre os textos do Rex Weyler indicado o site Future Scenarios, de David Holmgren, um dos criadores do conceito permacultura. […]

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