Antídoto ao Tropa de Elite

Minha maior crítica ao filme de José Padilha é a sua falta de equilíbrio no trato de um tema tão delicado como o consumo e tráfico de drogas. O diretor deixou-se levar pelo fascismo da elite policial carioca e fez um filme sem nuances, maniqueísta, comprando a tese – conscientemente ou não – de que o problema todo está no consumo apenas. Não há espaço para divergências e o (anti) herói Capitão Nascimento é alçado nas quase duas horas de projeção como o vingador que muitos desejam e exigem.

Padilha é um ótimo diretor de documentários. Na ficção ainda tá devendo. Num universo que tem 11 dimensões ou mais, ele conseguiu no máximo duas para cada personagem.

Meu Nome Não é Johnny, que acabei de assistir, é um primor justamente por conseguir tratar do mesmo tema sem idiossincrasias. Temos ainda a atuação brilhante de Selton Mello (que apaga o mico no pretensioso O Cheiro do Ralo), uma direção ágil e equilibrada, trilha sonora empolgante e um puta roteiro bem amarrado. Retrata com fidelidade a classe média consumidora, o tráfico, a polícia, o Rio da década de 1990, o Baixo Gávea, o cárcere, o manicômio judiciário. E usa com perfeição o humor para dar leveza ao tema. O filme defende o ponto de vista de que ninguém é irrecuperável, mas não o faz ostensivamente. É equilibrado.

Há quem diga que Profissão de Risco (com Johnny Depp) é o melhor filme já feito sobre a cocaína. Meu Nome Não é Johnny chega muito perto disso. Em todos os quesitos.

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10 Responses to Antídoto ao Tropa de Elite

  1. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Não vi o dito filme mas vi CHEIRO DO RALO, filme SENSACIONAL e Gosto muito de Tropa de Elite. Cheiro é dos grande filmes do nosso cinema, tremendo mergulho no vazio urbano, na merda. E Tropa é um lado da coisa, há outros, mas não há dialética no filme, há DEPOIS dele, esse é um PUTA mérito de Tropa.

    Ah sim, e li um comentário sobre o documentário sobre os fotografos. Não vi ainda, mas o seu comentário tava lá, aquele velho e incorrigível ranço da turma da redação e que fotógrafo é bando de apertador de botão e a profissão nem merece reflexão etc… ê Jorge véio, não muda.

  2. Avatar de escriba escriba disse:

    Realmente Cheiro do Ralo é um grande mergulho no vazio. Tanto que acabou mesmo oco – não tem nada ali: nem cinema, nem quadrinhos, nem boa historia, atuacoes memoraveis (a bunda, talvez…), musica, nada.
    Tropa é um sub-Cidade de Deus mal dirigido. Fraaaaaaco…
    Meu comentario sobre documento de fotografos? onde? nao lembro desse. Mas de qq forma, acho que em jornalismo, a fotografia tem que ilustrar a materia. Se o faz de forma direta ou indireta, nao vem ao caso. Mas na hierarquia jornalística de uma publicacao, o texto vem antes da imagem. É claro que há exceções e uma bela foto pode gerar uma materia – eu mesmo fiz algumas nessa linha.

    abração ae!

  3. Avatar de Andre Arruda Andre Arruda disse:

    Aí é que está e por isso saí de jornal.
    No Brrrrrasil fotógrafo não é autor da matéria, é um mané que “ilustra” o texto genial dos ditos escribas… fala sério.

    Cheiro é MUITO bom. Talvez você tenha esperado algo que não tenha visto ou tenha ido ver com uum esquema “Veja modo de ver a vida”: tese pronta para ser comprovada.

  4. Avatar de escriba escriba disse:

    Não é só no Brasil nao, Andre- é no mundo inteiro. Fotografia ilustra a materia. A nao ser nas exceções eventuais.

    Vc conhece algum jornal que o texto é escrito de acordo com a foto?
    E quanto ao filme, eu fui na expectativa de ver algo baseado na obra do Mutarelli, que conheço e curto pra caralho. O que vi foi um trabalho pretensioso, sem eira nem beira, mal dirigido e péssimo roteiro. Uma pena…

  5. Avatar de Aline Aline disse:

    Tenho a impressão de que as críticas ao Tropa de Elite – favoráveis ou contrárias ao filme – se apóiam de forma simplista no narrador e nos diálogos que levam a história e se esquecem de observar a obra como um todo. O tal fascismo da elite policial carioca, a meu ver, é um dos pontos principais da crítica do Padilha. Claro, em um ‘universo de 11 dimensões ou mais’, não dá pra abordar em lugar nenhum do mundo todas elas. Fazem-se escolhas, e além delas a disposição do receptor leva essas nuances ainda a outro nível.

    Nesse sentido, achei o filme bastante sincero. Não identifiquei em nenhum personagem o porta-voz da opinião do diretor, mas sim um retrato um tanto consciente, ainda que sob uma perspectiva discutível, de como o Estado se apropria de seu ‘monopólio da violência’.
    Fico pensando que a interpretação de que o filme defende que o problema da droga está no consumo, ou que bandido é bandido, só reflete como está torta a percepção da sociedade com relação ao problema. Porque o capitão Nascimento é protagonista, não herói; e porque o protagonista não é, necessariamente, o porta-voz do objetivo do autor, mas o objeto do problema que se coloca.

    enfim.
    Não assisti Meu Nome Não é Johnny pra contrapor as idéias, então te livro de mais dois parágrafos desnecessários.
    hasta.

  6. Avatar de escriba escriba disse:

    Me livra de mais dois parágrafos? como assim? Fala como se sua opinião fosse indesejável por aqui. Eu heim…

    Discordo de sua análise, mas a entendo perfeitamente. De mais a mais, o filme Tropa de Elite é ruim como cinema, o que me faz desgostar ainda mais dele.
    Tropa de Elite é desequilibrado na mensagem – sim, toda obra de arte tem uma mensagem, explicita ou implicita, não há obra imparcial.
    Nela, o protagonista se transforma em heroi, porque nada perde, só vence. O protagonista é alçado a herói justamente pelo diretor que não soube – ou não quis – dar maior profundidade a ele, criar uma ou duas dimensoes a mais, nem precisavam ser as 11…

    Repito: Padilha pode ser um otimo diretor de documentarios, mas para lidar com ficção e direção de atores, ainda está fraco.

  7. Avatar de vitoria vitoria disse:

    Oi,escriba levo daqui umas páginas para ler e a tua opinião sobre o filme.
    Nesta conversa amigável,aqui nos comentários,eu,uma prof do ensino elementar,cuja paixão é justamente a língua portuguesa,venho só opinar que jornalismo é uma coisa,reportagem fotográfica outra e escrita literária outra,em que aí sim, podemos começar pela imagem para criar o texto…o que eu faço muitas vezes..Parabéns por este espaço.

  8. Avatar de escriba escriba disse:

    eu tambem volta e meia começo meus textos depois de ver determinada imagem/foto. Mas no jornalismo isso é menos comum – não que não deva ser feito. Mas não é a regra.
    espero q tenha gostado daqui. Volte sempre!
    bjs

  9. Avatar de Jaque Nícolson Jaque Nícolson disse:

    Gosto é como c… Cada um tem o seu. Mas o filme “Tropa de Elite” tem o mérito de não exaltar a bandidagem e, para mim, o Capitão Nascimento, que foi alçado à condição de “ídolo das massas”, não triunfa. Como a história se passa em um passado recente, o espectador, ao confrontar a realidade de hoje, percebe que o pobre Capitão não venceu luta alguma. Para mim, o personagem central é o Matias. Ele é quem mais se transforma no decorrer da obra.

    E, sim, “Tropa de Elite” é um filmaço. Menos para quem estar mais à esquerda…

  10. Avatar de escriba escriba disse:

    Curioso ver que todos que defendem esse tipo de filme fascista e intolerante sempre comentam usando pseudônimo ou de forma anônima…
    sintomático…

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