Blefe, por Maria Rita Kehl

Dizaê, Maria Rita Kehl:

“De fato, uma histérica pode facilmente identificar-se como alguém que blefa – não o tempo todo, não enquanto o sintoma está em pleno funcionamento, mas quando alguma coisa falha e ela se depara com o vazio por trás do semblante. Qual o blefe da histérica? sobretudo, o blefe do amor. Ao se fazer toda entrega, toda objeto para o desejo do outro, ela aposta no outro para que lhe indique algo a respeito do ser. Eu me dou toda, embrulho para presente a minha castração para que o homem, com seu desejo (e sua potência fálica), me faça uma mulher. A mulher dele. Este é um blefe muito caro aos psicanalistas, e não são raros os que acreditam nele. Mas custa caro à histérica, que “escolhe” (no sentido que se atribui a uma escolha de neurose) renunciar ao que se possa construir pela via do ter – uma vida, um nome próprio, um destino, uma história – para apostar tudo na via do ser. Ser o falo para o outro. Feita esta manobra, a histérica aposta tudo num amor que ela pode exigir que seja excessivo, a fim mascarar o ódio se ela sente por tentar ficar o tempo todo, para o outro, do lado da castração. Do lado da que nada sabe, da bobinha que (finge que) acredita que o homem amado detenha o falo e o saber. Da que depende de que o outro lhe diga, etc.

A histérica blefa que ama. Ela vai cair fora na primeira oportunidade, ou na primeira decepção – quando vier a perceber que o homem não tem nada a lhe esclarecer sobre quem ela é, já que só pode lhe devolver (caso esteja apaixonado) o efeito de sua própria mentira.”

O texto, na íntegra, pode ser lido a partir da página 79 da revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.

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Passados

“Quantas vezes, quando o passado me pesava demais, eu me apegava à esperança de suprimi-lo radicalmente: mudar de ofício, de mulher, de cidade, de continente – um continente depois do outro, até dar a volta completa -, de hábitos, de amigos, de negócios, de clientela. Era um erro, mas, quando me dei conta disso, já era tarde demais.

Porque, dessa maneira, não fiz outra coisa senão acumular sobre mim passados e mais passados, multiplicá-los, e, se uma vida já me parecia demasiado densa, ramificada e atrapalhada para levar adiante, imaginem-se então muitas vidas, cada um com seu passado, mais os passados das outras vidas que não param de interligar-se. Inútil dizer toda vez “Que alívio!”, fazer o hodômetro voltar a zero, passar o apagador no quadro-negro. Já na manhã seguinte ao dia em que eu chegava a uma nova cidade, o zero se tornava um número de tantos algorismos que não cabia mais no marcador e ocupava o quadro de uma ponta a outra: pessoas, lugares, simpatias, antipatias, passos em falso.”

(trecho de Se Um Viajante numa Noite de Inverno, de Italo Calvino)

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Areia movediça

“Quando entendemos que, apesar de todos os esforços, é uma mera questão de sorte se conseguimos ou não alcançar alguma coisa, quando entendemos portanto que em tudo o que fazemos e vivenciamos não passamos de areia movediça perante e para nós próprios, o que acontece com todas aquelas nossas bem conhecidas e enaltecidas sensações como orgulho, contrição ou vergonha?”

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Novo filme do Woody Allen é a repetição da excelência

É impressionante como Woody Allen consegue fazer sempre o mesmo filme e, ainda assim, dar aos espectadores novas sensações – e divertir como poucos. Pra mim, o diretor é o melhor cronista do cotidiano da vida moderna que temos no cinema atual, sem pesar a mão, sem apelações. E como saímos leves da sala, com sorriso maroto no rosto.

Como de praxe, cada filme traz um elemento fantástico, fora do eixo. Em Para Roma Com Amor, que acabei de assistir, temos o cantor de ópera que só manda bem quando está debaixo de um chuveiro. Bom lembrete de que o melhor de nós às vezes está nas coisas simples que fazemos todos os dias, sem perceber.

Mal posso esperar o proximo filme dele… Me faz bem.

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Solidão é fundamental

Acabei de receber o texto abaixo por email. Foi inicialmente publicado neste blog. Tem tudo a ver com meu momento. E como não acredito em coincidências…

SOLIDÃO É FUNDAMENTAL
Por HILDA LUCAS

Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.

Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercada por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazia em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.

Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.

Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.

Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.

Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente mas, mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.

Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.

O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.

Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!

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Voltando para casa

Going home
Without my sorrow
Going home
Sometime tomorrow
Going home
To where it’s better
Than before

Going home
Without my burden
Going home
Behind the curtain
Going home
Without the costume
That I wore

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Diamonds in the Mine – Leonard Cohen

The woman in blue, she’s asking for revenge,
man in white — that’s you — says he has no friends.
The river is swollen up with rusty cans
and the trees are burning in your promised land.
And there are no letters in the mailbox,
and there are no grapes upon your vine,
and there are no chocolates in the boxes anymore,
and there are no diamonds in the mine.

Well, you tell me that your lover has a broken limb,
you say you’re kind of restless now and it’s on account of him.
Well, I saw the man in question, it was just the other night,
he was eating up a lady where the lions and Christians fight.

And there are no letters in the mailbox
and there are no grapes upon the vine,
and there are no chocolates in the boxes anymore,
and there are no diamonds in the mine.

(You tell them now)

Ah, there is no comfort in the covens of the witch,
some very clever doctor went and sterilized the bitch,
and the only man of energy, yes the revolution’s pride,
he trained a hundred women just to kill an unborn child.

And there are no letters in the mailbox,
oh no, there are no, no grapes upon your vine,
and there are, there are no chocolates in your boxes anymore,
and there are no diamonds in your mine,
and there are no letters in the mailbox,
and there are no grapes upon your vine,
and there are no chocolates in your boxes anymore,
and there are no diamonds in your mine.

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Ao amor, com amor

Não sou bom com as coisas do coração, nunca fui. Sempre fugi do amor como o diabo da cruz, por justamente não saber lidar, tinha receio de sentir e não saber o que fazer, de ficar bobo, otário, não correspondido. E ria ou fazia pouco quando me contavam lindas histórias de amor. “Bobagem, isto non ecsiste”, dizia, a la padre Quevedo. E fui levando a vida. Até que ele veio e me pegou pela proa. Fulminante. Bum! Desarmei. Foi a coisa mais linda do mundo. Tudo parecia fazer sentido. Até que nada mais fez sentido. E o que amei foi-se, o amor ficou.

Me envergonho em constatar que aos 44 anos incompletos, ainda não sei lidar com um sentimento tão ancestral, tão universal. E muito menos com a frustração de não ter tido a capacidade de vivenciá-lo plenamente. Onde errei? Foi um delírio? Viajei na maionese? De tanto negá-lo, me tornei incompetente em cultivá-lo?

Mas a curta experiência me deixou lições importantes. Por exemplo, agora sei que o amor existe sim, e é insidioso. Quando você menos espera, está enredado de tal forma que seu corpo, mente, alma só respondem aos seus desígnios. Vira quase uma obsessão, principalmente se você, como eu, não souber ter a tranquilidade necessária para aproveitar tudo o que lhe oferece. E oferece o mundo. Mas você não pode ter o mundo de uma vez, tem que ir aos poucos, devagar e sempre. Se for com muita sede ao pote, é o inferno. E a indigestão é braba.

Aprendi também que o amor não desemboca na amizade. Nem no ódio. O amor é matéria etérea que lateja até o fim dos tempos. Como os sonhos. Ele pode murchar, empedrar, multiplicar, mas continua sendo o que é. E quando vem, não vai. Aluga o coração e dali não sai.

Então, o que a gente faz com ele, quando vem, fica, mas o motivo de sua vinda já se foi? Tem antídoto? Tem cura? Posso voltar ao tempo em que desacreditava do amor e vivia feliz? Já esperneei, chorei, xinguei, analisei, pensei, meditei, ofereci, espalhei, descartei. E ele continua firme e forte ali, pulsando, latejando.

Vi outro dia uma charge do Angeli (pena que não achei pra colocá-la aqui) em que ele mostra a alguém um armário cheio de revistas, livros, papéis antigos, depois outro armário cheio de camisetas e duas calças jeans, e por fim um terceiro armário, onde guarda corações usados. Cara, vou guardar este coração, porque tá murchinho e não tem muito mais serventia…

Pus o Meu Sonho Num Navio
(Cecília Meireles)

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Este inferno de amar
(Almeida Garrett)
(1799-1854)

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui na alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei…dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Que fêz ela? Eu que fiz? – Não o sei
Mas nessa hora a viver comecei…

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Bolero, de Ravel (Christoph Eschenbach, Orchestre de Paris)

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Boulez conduz Berlioz – Symphonie Fantastique

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