Passados

“Quantas vezes, quando o passado me pesava demais, eu me apegava à esperança de suprimi-lo radicalmente: mudar de ofício, de mulher, de cidade, de continente – um continente depois do outro, até dar a volta completa -, de hábitos, de amigos, de negócios, de clientela. Era um erro, mas, quando me dei conta disso, já era tarde demais.

Porque, dessa maneira, não fiz outra coisa senão acumular sobre mim passados e mais passados, multiplicá-los, e, se uma vida já me parecia demasiado densa, ramificada e atrapalhada para levar adiante, imaginem-se então muitas vidas, cada um com seu passado, mais os passados das outras vidas que não param de interligar-se. Inútil dizer toda vez “Que alívio!”, fazer o hodômetro voltar a zero, passar o apagador no quadro-negro. Já na manhã seguinte ao dia em que eu chegava a uma nova cidade, o zero se tornava um número de tantos algorismos que não cabia mais no marcador e ocupava o quadro de uma ponta a outra: pessoas, lugares, simpatias, antipatias, passos em falso.”

(trecho de Se Um Viajante numa Noite de Inverno, de Italo Calvino)

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