Ao amor, com amor

Não sou bom com as coisas do coração, nunca fui. Sempre fugi do amor como o diabo da cruz, por justamente não saber lidar, tinha receio de sentir e não saber o que fazer, de ficar bobo, otário, não correspondido. E ria ou fazia pouco quando me contavam lindas histórias de amor. “Bobagem, isto non ecsiste”, dizia, a la padre Quevedo. E fui levando a vida. Até que ele veio e me pegou pela proa. Fulminante. Bum! Desarmei. Foi a coisa mais linda do mundo. Tudo parecia fazer sentido. Até que nada mais fez sentido. E o que amei foi-se, o amor ficou.

Me envergonho em constatar que aos 44 anos incompletos, ainda não sei lidar com um sentimento tão ancestral, tão universal. E muito menos com a frustração de não ter tido a capacidade de vivenciá-lo plenamente. Onde errei? Foi um delírio? Viajei na maionese? De tanto negá-lo, me tornei incompetente em cultivá-lo?

Mas a curta experiência me deixou lições importantes. Por exemplo, agora sei que o amor existe sim, e é insidioso. Quando você menos espera, está enredado de tal forma que seu corpo, mente, alma só respondem aos seus desígnios. Vira quase uma obsessão, principalmente se você, como eu, não souber ter a tranquilidade necessária para aproveitar tudo o que lhe oferece. E oferece o mundo. Mas você não pode ter o mundo de uma vez, tem que ir aos poucos, devagar e sempre. Se for com muita sede ao pote, é o inferno. E a indigestão é braba.

Aprendi também que o amor não desemboca na amizade. Nem no ódio. O amor é matéria etérea que lateja até o fim dos tempos. Como os sonhos. Ele pode murchar, empedrar, multiplicar, mas continua sendo o que é. E quando vem, não vai. Aluga o coração e dali não sai.

Então, o que a gente faz com ele, quando vem, fica, mas o motivo de sua vinda já se foi? Tem antídoto? Tem cura? Posso voltar ao tempo em que desacreditava do amor e vivia feliz? Já esperneei, chorei, xinguei, analisei, pensei, meditei, ofereci, espalhei, descartei. E ele continua firme e forte ali, pulsando, latejando.

Vi outro dia uma charge do Angeli (pena que não achei pra colocá-la aqui) em que ele mostra a alguém um armário cheio de revistas, livros, papéis antigos, depois outro armário cheio de camisetas e duas calças jeans, e por fim um terceiro armário, onde guarda corações usados. Cara, vou guardar este coração, porque tá murchinho e não tem muito mais serventia…

Pus o Meu Sonho Num Navio
(Cecília Meireles)

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Este inferno de amar
(Almeida Garrett)
(1799-1854)

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui na alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei…dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Que fêz ela? Eu que fiz? – Não o sei
Mas nessa hora a viver comecei…

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