Documentário Cuba Jazz revela os caminhos dos novos talentos musicais da ilha – e do próprio país

Ontem fui a uma sessão especial no Cine Brasília, para assistir ao documentário “Cuba Jazz”, produção brasileira que nos oferece um retrato atualíssimo da música cubana, centrado no jazz, bem como da situação do país, sem a estereotipia típica que muitos insistem em usar sempre que o assunto é a ilha caribenha.

“O novo cenário do jazz cubano é algo surpreendente. É uma juventude muito potente, muito interessada em música, muito interessada na vida. Ou seja, o foco principal pode parecer que é o jazz, mas a gente está falando da vida, do cotidiano”, afirmou Max Alvim em entrevista à rádio EBC, um dos diretores do filme, presente ontem na sessão no Cine Brasília, que estava lotado. Por várias vezes a plateia aplaudiu o filme entusiasmadamente – uma delas durante a forte interpretação de Besame Mucho pela cantora Daymé Arocena (ouça abaixo).

Outro que chama atenção pelo talento e consciência político-artística é o trompetista Yasek Manzano, que parece saber bem o que quer para sua vida como artista: “Há muitos compositores que se apoiam em coisas predeterminadas e em imitações, buscando com isso o êxito. Isso é perdoável? O fato é que é questionável”. Para ele, o importante é saber juntar o feio com o belo, para conseguir “a magia, algo como uma supernova que pode levá-lo a qualquer lugar”.

Todos os entrevistados – jovens e veteranos músicos, jornalistas, pesquisadores, produtores musicais – têm consciência exata das benesses e dos revezes que a música, a cultura, a vida cubana sofreram com a Revolução Cubana de 1959. O saldo, no entanto, é amplamente positivo. A começar pelo incentivo prioritário que a Cuba revolucionária deu à educação musical. Em Cuba, ao contrário da maioria dos outros países, um músico pode viver apenas de sua música. Uma vida simples, mas sem ter que fazer concessões além daquelas necessárias para o desenvolvimento da arte. Isso é algo e tanto.

Com inúmeras e excelentes escolas de música pelo país, Cuba conseguiu unir de maneira exemplar a educação clássica com a popular – ainda que isso não tenha sido exatamente planejado. Ainda bem. É justamente esse acordo informal entre o mundo da academia com o mundo da rua, numa mistureba no caldeirão de povos, culturas, medos, bloqueios econômico-políticos, ameaças e contrabando, que a música cubana floresceu e ganhou uma excelência admirada por todos. No Mundo Novo das Américas, só são páreo para a riqueza rítmica e melódica da música cubana as dos Estados Unidos e a do Brasil. Nós, infelizmente, temos um diferencial a meu ver bem negativo. Enquanto entre americanos e cubanos a preocupação com a educação musical formal dos jovens é uma preocupação institucional dos dois países, nós brasileiros vamos mais no improviso.

Ah, imagina se o Brasil tivesse um décimo da preocupação com a educação musical de seus jovens como Cuba e Estados Unidos, o quanto isso não fertilizaria a nossa produção cultural /  musical. Cuba e Estados Unidos dão a base musical clássica a seus jovens, para q possam então alçar voos criativos sem limites. Os moleques misturam essa boa base com muita rua, folclore e cultura popular, acrescentam sua personalidade, e o resultado é de invejar – e parte desse sucesso entre os jovens cubanos pode ser admirado no documentário Cuba Jazz.

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